Nhanderu oendu rã ore Nhe’?: Que Nhanderu escute nossa palavra

Manifesto da Tekoá Pindó Mirim, Povo Mbya Guarani, contra o chamado “Projeto Natureza” da Companhia Manufacturera de Papeles y Cartones (CMPC)

Nós, da Tekoá Pindó Mirim, em Itapuã, Viamão, dirigimos nossa palavra ao povo do Rio Grande do Sul.

Falamos porque nossa terra está sendo ameaçada. Falamos porque nossa água corre perigo. Falamos porque a floresta, os animais e todos os seres que vivem conosco não podem falar a língua dos jurua (não indígenas). Nós falamos por eles e com eles.

A Companhia Manufacturera de Papeles y Cartones (CMPC) quer construir uma grande fábrica de celulose em Barra do Ribeiro. Para convencer a população, escolheu um nome bonito: Projeto Natureza.

Mas esse nome não diz a verdade.

Para nós, povo Mbya Guarani, natureza não é propaganda. Natureza é vida. É teko porã, o bem viver. É a mata onde rezamos. É a água que bebemos. É o canto dos pássaros que anuncia o amanhecer. É a terra que alimenta nossos filhos. É onde vivem os espíritos que Ñhanderu colocou no mundo para cuidar da criação.

Não existe natureza quando uma floresta viva é substituída por milhares de hectares de eucalipto.

Não existe natureza quando milhões de litros de água são retirados dos rios para abastecer uma fábrica.

Não existe natureza quando o lucro vale mais do que a vida.

Chamam isso de desenvolvimento.

Nós chamamos de destruição.

Prometem empregos. Prometem progresso. Prometem riqueza.

Mas de quem será essa riqueza?

A experiência mostra que os maiores lucros ficam com a empresa e seus acionistas. Enquanto isso, as comunidades ficam com os impactos, com a perda da água, com a degradação da terra e com as incertezas sobre o futuro.

Também sabemos que grandes empreendimentos como esse recebem incentivos públicos e financiamentos pagos com recursos de toda a sociedade. O dinheiro é do povo. Os lucros ficam com poucos.

Perguntamos: isso é justiça?

Outra violência é querer decidir sobre nossos territórios sem nos ouvir.

Nós existíamos muito antes da chegada dos jurua. Temos nossos direitos garantidos pela Constituição Federal e pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho. Temos o direito de ser consultados antes que qualquer empreendimento possa afetar nossa vida e nossos territórios.

Esse direito não foi respeitado.

Sem consulta, não existe diálogo.

Sem diálogo, não existe respeito.

Nossa luta não é apenas pela Tekoá Pindó Mirim.

É pela água que abastece cidades inteiras.

É pelos peixes que ainda vivem nos rios.

É pelos banhados, pelas matas, pelos campos e por toda a vida que depende deles.

É pelas crianças indígenas e não indígenas que têm o direito de receber uma terra viva e não um território adoecido.

Sabemos o que aconteceu em outros lugares onde a CMPC expandiu suas plantações e suas fábricas. Povos indígenas e comunidades denunciaram impactos ambientais, conflitos e a perda de seus territórios. Não queremos que essa história se repita aqui.

Nosso povo aprendeu com os mais velhos que a terra não pertence às pessoas.

Somos nós que pertencemos à terra.

Por isso não aceitamos que transformem a natureza em mercadoria.

Não aceitamos que transformem a água em fonte de lucro.

Não aceitamos que chamem destruição de Projeto Natureza.

Nossa palavra nasce do cuidado.

Nossa resistência nasce do amor à vida.

Continuaremos defendendo nosso teko, nosso modo de viver, porque defender a terra é defender o futuro de todos os povos.

Ore yvy nda’éi mba’erepy.
Nossa terra não é mercadoria.

Yy não vende. Yy é vida.
A água não está à venda. A água é vida.

Aguyjevete.

Tekoá Pindó Mirim
Povo Mbya Guarani
Itapuã – Viamão – Rio Grande do Sul


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