O orgulho de ser colonizado: uma doença política do nosso tempo

As Big Techs transformam emoções em lucro e ajudam a reproduzir antigas formas de dominação. O debate de Tecnofeudália e Orgulho Latino mostra como algoritmos, desinformação e imperialismo digital moldam opiniões, reforçam preconceitos e dificultam o pensamento crítico e a descolonização das consciências.

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

As formas de dominação mudaram ao longo da história, mas raramente desapareceram. Se antes o colonialismo se impunha pela força militar, pela ocupação territorial e pela exploração direta das riquezas, hoje ele também opera por mecanismos muito mais sofisticados: plataformas digitais, algoritmos, produção cultural, desinformação e concentração tecnológica. O imperialismo contemporâneo não precisa apenas controlar territórios; ele disputa consciências.

Foi justamente essa reflexão que reuniu Emi Pandolfo, Fred Guimarães e Thiago Skarnio em mais uma edição conjunta dos programas Orgulho Latino e Tecnofeudália, de A Noite Livre do Portal Desacato. O debate partiu de uma pergunta provocadora: por que tantas pessoas defendem interesses que atuam contra elas próprias?

O colonialismo que continua vivo

Um dos pontos centrais da conversa foi desmontar a ideia de que o colonialismo pertence apenas aos livros de História. A exploração mudou de forma, mas permanece presente nas relações econômicas, culturais e tecnológicas.

Segundo Fred Guimarães, o Brasil nasceu como colônia e continua ocupando, em muitos aspectos, uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho. Primeiro forneceu pau-brasil, ouro e mão de obra escravizada. Depois passou a exportar matérias-primas e importar produtos industrializados. Agora, na economia digital, exporta dados, energia, recursos naturais e infraestrutura para sustentar gigantes da tecnologia.

Os chamados data centers ilustram essa lógica. Vendidos como símbolos de modernização, muitas vezes chegam sem transferência efetiva de conhecimento ou desenvolvimento científico local, consumindo enormes quantidades de energia e água enquanto os benefícios econômicos permanecem concentrados nas grandes corporações internacionais.

A colonização da mente

Emi Pandolfo trouxe uma dimensão pessoal ao debate ao relatar que também viveu aquilo que chamou de “orgulho de ser colonizada”. Crescida consumindo filmes de Hollywood e absorvendo narrativas em que os Estados Unidos apareciam como salvadores do mundo, ela reconhece que precisou passar por um longo processo de estudo e autocrítica para compreender como essas representações moldavam sua visão política.

Esse processo não foi simples.

Reconhecer que determinadas crenças foram construídas por décadas de propaganda exige abandonar certezas confortáveis. É justamente essa dificuldade que explica por que tantas pessoas resistem a rever opiniões, mesmo diante de evidências científicas ou históricas.

Mais do que ignorância, trata-se de um mecanismo psicológico de preservação da própria identidade.

Algoritmos que exploram emoções

Se no passado, jornais, rádio e televisão exerciam papel central na construção do imaginário social, hoje os algoritmos das plataformas digitais potencializam esse processo.

Fred Guimarães destacou que as redes sociais são desenhadas para maximizar o tempo de permanência dos usuários. O conteúdo que desperta indignação, medo, raiva ou ressentimento gera mais interação e, consequentemente, mais lucro.

Por isso, discursos de ódio, teorias conspiratórias e notícias falsas costumam receber tratamento privilegiado pelos sistemas de recomendação.

O algoritmo não possui ideologia própria. Seu compromisso é com o engajamento. E o conflito vende muito mais do que a reflexão.

A economia da desinformação

Emi apresentou exemplos concretos de como essa lógica opera na imprensa e nas redes sociais.

Ao recordar uma reportagem sobre violência envolvendo imigrantes, observou que muitos veículos destacam a nacionalidade do acusado apenas quando ele é estrangeiro, estimulando preconceitos e alimentando discursos xenófobos.

A nacionalidade, nesse contexto, deixa de ser uma informação relevante para tornar-se instrumento de construção de inimigos sociais.

O mesmo mecanismo aparece na circulação de notícias falsas, cuja velocidade de propagação supera, quase sempre, a capacidade de correção dos fatos. Uma mentira emocionalmente apelativa percorre milhares de perfis antes que qualquer checagem alcance o mesmo público.

A ciência contra o negacionismo

Outro aspecto importante da conversa foi a relação entre ciência e crença.

Fred utilizou pesquisas genéticas recentes sobre a formação da população brasileira para demonstrar como dados científicos ajudam a compreender a violência colonial, especialmente os estupros sistemáticos de mulheres indígenas e africanas durante a colonização portuguesa.

Mesmo diante de evidências sólidas, porém, setores da sociedade continuam rejeitando conclusões científicas quando elas entram em conflito com as suas crenças ideológicas.

Esse comportamento aparece também no movimento antivacina, nas teorias conspiratórias e em diversas formas de negacionismo contemporâneo.

O papel da dissonância cognitiva

Parte dessa resistência pode ser explicada pela chamada dissonância cognitiva.

Quando uma informação ameaça convicções profundamente enraizadas, o cérebro tende a proteger a sua estrutura de crenças, rejeitando os novos dados em vez de reorganizar a sua visão de mundo.

Mudar de opinião exige esforço intelectual, emocional e identitário.

Por isso, reconhecer que fomos manipulados por narrativas coloniais, midiáticas ou políticas costuma ser um processo doloroso.

Educação midiática como resistência

Thiago Skarnio destacou que enfrentar esse cenário exige muito mais do que combater notícias falsas individualmente.

É necessário desenvolver educação midiática, fortalecer a capacidade crítica da população e incentivar práticas simples, como verificar fontes, desconfiar de manchetes sensacionalistas e compreender quem financia determinadas narrativas.

Ao mesmo tempo, defendeu a construção de alternativas tecnológicas baseadas em software livre e redes descentralizadas, capazes de reduzir a dependência das grandes plataformas comerciais.

Enquanto poucas empresas controlarem os fluxos globais de informação, também controlarão parte significativa da formação da opinião pública.

Questionar é o primeiro passo

Talvez a principal mensagem do debate tenha vindo da própria experiência compartilhada por Emi Pandolfo.

Ela afirmou que compreender as estruturas de opressão não apenas amplia a consciência política, mas também ajuda as pessoas a entenderem violências que antes pareciam naturais, seja no ambiente de trabalho, nas relações sociais ou na vida cotidiana.

Questionar não significa abandonar todas as certezas. Significa aceitar que nenhuma convicção deve estar acima da investigação dos fatos.

Num mundo em que algoritmos transformam emoções em mercadorias e plataformas lucram com a polarização permanente, cultivar o pensamento crítico talvez seja uma das formas mais importantes de resistência.

Assista ao programa completo no vídeo abaixo:


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