Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
A violência nas escolas costuma ser associada a agressões físicas, ameaças ou conflitos entre estudantes e professores. No entanto, existe uma forma de violência muito mais silenciosa e permanente, capaz de moldar trajetórias escolares e reforçar desigualdades sociais sem recorrer à força física. Trata-se da violência simbólica, conceito desenvolvido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu e tema da entrevista concedida pelo professor Pablo Moscatelli ao programa JTT, apresentado por Sofia Andrade e Raul Fitipaldi.
Professor em João Pessoa (PB) e atualmente realizando mestrado em Sociolinguística em Montevidéu, Pablo defende que a violência simbólica está presente quando a escola transforma os valores, a linguagem e os padrões culturais dos grupos dominantes em referência única de legitimidade. Nesse processo, diferenças culturais deixam de ser reconhecidas como riqueza e passam a ser tratadas como deficiência.
A violência que se naturaliza
Segundo o educador, a violência simbólica não se manifesta por meio da agressão física, mas por práticas, normas e crenças que parecem naturais no ambiente escolar. Ao impor um único modelo considerado “correto” de linguagem, comportamento ou conhecimento, a escola acaba legitimando desigualdades existentes na sociedade.
Para Pablo, quando a instituição escolar reproduz essas relações de poder, cria as condições para que outras formas de violência — como o racismo, o machismo, a xenofobia e a discriminação social — continuem sendo reproduzidas também fora da escola. A violência simbólica, afirma, é a base sobre a qual outras violências se desenvolvem.
O mito do fracasso escolar
Outro ponto central da entrevista é a crítica ao conceito tradicional de “fracasso escolar”. Para o professor, o sistema costuma atribuir exclusivamente ao estudante a responsabilidade pelo baixo desempenho, ignorando completamente as condições materiais e sociais em que vive.
Uma prova padronizada, explica, não considera se o aluno possui alimentação adequada, acesso à internet, espaço para estudar, estabilidade familiar ou mesmo tempo disponível para aprender. Ao descontextualizar essas condições, a escola transforma desigualdades sociais em aparentes insuficiências individuais.
Em sua avaliação, esse mecanismo constitui uma das expressões mais evidentes da violência simbólica.
A diversidade como problema
Pablo dedica especial atenção à questão linguística. Como professor de línguas, observa que muitos estudantes chegam às escolas trazendo formas próprias de falar, construídas em comunidades periféricas, quilombolas, indígenas ou rurais.
Em vez de reconhecer essa diversidade como parte da riqueza cultural brasileira, a escola frequentemente estabelece apenas um padrão considerado legítimo, desqualificando outras formas de expressão.
Essa lógica, segundo ele, ultrapassa o ensino da língua portuguesa e alcança todas as áreas do conhecimento, contribuindo para restringir o desenvolvimento crítico dos estudantes.
A escola não resolve sozinha
Apesar das críticas ao sistema educacional, Moscatelli ressalta que a escola não pode ser responsabilizada isoladamente pelos problemas que enfrenta.
A violência simbólica começa muito antes da sala de aula. Está presente nas desigualdades econômicas, na ausência de saneamento básico, na precariedade das moradias, na insegurança alimentar e na falta de políticas públicas permanentes.
Por isso, afirma, combater esse tipo de violência exige uma ação articulada do Estado, envolvendo educação, assistência social, saúde e infraestrutura.
Para o professor, mais importante do que criar novas leis é garantir sua implementação e acompanhamento contínuo.
Formação humana acima da competição
Durante a entrevista, Pablo também critica o modelo educacional fortemente orientado por exames, rankings e índices de aprovação.
Segundo ele, o sucesso da escola não pode ser medido apenas pelo número de estudantes aprovados em vestibulares ou universidades. A educação precisa priorizar a formação humana antes da preparação para provas.
“A escola está para formar seres humanos”, resume.
Essa perspectiva implica repensar tanto a formação inicial dos professores quanto as metodologias de ensino, valorizando práticas participativas, diversidade cultural e desenvolvimento da cidadania.
Educação para a democracia
Ao final da conversa, Pablo propõe uma educação comprometida com a emancipação dos estudantes.
Reconhecer as diferenças linguísticas, culturais e sociais não significa reduzir exigências pedagógicas, mas ampliar as possibilidades de aprendizagem e participação democrática.
Na sua visão, discutir violência simbólica é discutir o próprio sentido da educação pública. Enquanto a escola continuar reproduzindo as desigualdades da sociedade, dificilmente conseguirá cumprir sua principal missão: formar cidadãos críticos, livres e capazes de transformar a realidade em que vivem.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:
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