Florianópolis, SC – A professora Mariana Joffily, do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), coordena uma pesquisa que mapeia espaços de memória instalados em antigos centros de repressão e tortura da América Latina. O estudo faz parte de uma rede de pesquisadores do Brasil, Argentina, Chile e Estados Unidos e contribui para a construção do futuro memorial do DOI-Codi de São Paulo, um dos principais órgãos de repressão política da ditadura militar brasileira.O projeto, intitulado “Situando o DOI-Codi na contrainsurgência latino-americana”, analisou experiências em países como Argentina, Chile, México, Paraguai e Uruguai. Entre os locais visitados está o memorial Circular de Morelia 8, na Cidade do México, instalado em um antigo centro de operações da polícia política mexicana. Os levantamentos buscam identificar modelos de preservação da memória e ações educativas que possam subsidiar a implantação do memorial brasileiro.
Segundo Mariana Joffily, os espaços cumprem papel fundamental na preservação da memória histórica e na defesa dos direitos humanos.
“Diferente de museus, estes lugares têm uma história e uma marca da função que desempenharam. São a prova material da violência”, afirma a pesquisadora.
Propostas educativas
Como resultado das visitas técnicas realizadas pela rede de pesquisadores, foram desenvolvidas três propostas pedagógicas destinadas aos visitantes do futuro memorial do DOI-Codi/SP. O material está em fase de testes e deverá integrar atividades voltadas principalmente a estudantes do ensino fundamental e médio.
As ações incluem o estudo das trajetórias de ex-presos políticos, a análise comparativa de espaços de memória latino-americanos e atividades participativas para que os estudantes proponham ideias para a construção do memorial.
Livro investiga carreira de torturadores
Além da pesquisa sobre memória e repressão, Mariana Joffily lançou em 2025 o livro “Torturadores – perfis e trajetórias de agentes da repressão na ditadura militar brasileira”, escrito em parceria com a pesquisadora francesa Maud Chirio. A obra é um dos poucos estudos dedicados à análise dos perpetradores da violência de Estado durante a ditadura brasileira.
A pesquisa utilizou extenso levantamento documental, incluindo folhas de alteração militar, que registram cursos, promoções, avaliações e funções desempenhadas pelos agentes. A partir do cruzamento de diferentes fontes, as autoras identificaram fatores que favoreceram a adesão de militares aos órgãos de repressão, como oportunidades de ascensão profissional, especialização e reconhecimento institucional.
“Torturadores não se fazem sozinhos. São um fenômeno sociopolítico que vai muito além da questão do desvio ou da patologia individual”, destaca Mariana Joffily.
Reflexões para o presente
O estudo também aponta permanências de práticas e valores institucionais originados durante a ditadura. Segundo a pesquisadora, compreender o funcionamento dos aparatos repressivos contribui para o fortalecimento da democracia e para a prevenção de violações de direitos humanos no presente.
Especialista em história do tempo presente, Mariana Joffily desenvolve pesquisas sobre ditaduras no Cone Sul, repressão política, transições democráticas e contrainsurgência, sendo referência nacional na área.





