Professora denuncia perseguição política após atividade sobre prevenção à violência ser alvo de vereador em MS

Professora de Mato Grosso do Sul denuncia perseguição política após organizar uma roda de conversa sobre prevenção de relacionamentos abusivos entre adolescentes. A atividade, respaldada por leis e projetos educacionais, foi suspensa após pressão externa e virou alvo de ataques nas redes sociais. O caso reacende o debate sobre autonomia escolar, liberdade de ensinar e proteção de educadores que trabalham temas ligados aos direitos humanos e ao enfrentamento da violência.

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

A professora X (resguardamos seu nome a pedido da própria professora), docente efetiva da Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul, denunciou ter sido alvo de perseguição política, intimidação e exposição pública em razão de uma atividade pedagógica que seria realizada na Escola Estadual Rui Barbosa, em Campo Grande.

Mestre em Ensino de Ciências pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e doutoranda na mesma instituição, Carla atua nas áreas de formação de professores, gênero, sexualidade, direitos humanos e práticas pedagógicas voltadas à proteção de estudantes.

Segundo a professora, o episódio iniciou em torno da realização da roda de conversa “Relacionamento abusivo, que bicho é esse?”, prevista para ocorrer em 11 de junho de 2026. A atividade integrava o projeto “Do Mapeamento ao Cuidado: Estratégias de Expressão para um Ambiente Escolar Seguro”, desenvolvido no âmbito do Programa Estadual de Iniciação Científica e Tecnológica (PICTEC/FUNDECT).

A proposta envolvia estudantes bolsistas e tinha como objetivo discutir prevenção das violências, identificação de relacionamentos abusivos, respeito, consentimento, canais de denúncia e mecanismos de proteção para adolescentes.

“A atividade possuía finalidade pedagógica, científica e preventiva. Não era uma ação partidária nem pessoal. Fazia parte de um projeto institucional desenvolvido com estudantes e respaldado por legislação específica”, afirma a docente.

Além do caráter educacional, a ação estava amparada pela Lei Estadual nº 5.579/2020, que institui em Mato Grosso do Sul a Semana de Conscientização e Combate ao Relacionamento Abusivo. A proposta também dialogava com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Lei Maria da Penha e a Lei Federal nº 14.164/2021, que inclui conteúdos sobre prevenção da violência contra a mulher nos currículos escolares.

Tentativa de fiscalização gera preocupação

Conforme o relato da professora, na manhã do dia 11 de junho, a direção da escola recebeu a informação de que uma pessoa vinculada à assessoria do vereador de Campo Grande, Rafael Tavares, compareceria à unidade escolar para acompanhar a atividade.

A notícia gerou preocupação entre a equipe gestora, especialmente em relação à exposição dos estudantes participantes do projeto.

Segundo Carla, diante do risco de constrangimentos e da possibilidade de utilização política da atividade, a direção da escola entrou em contato com ela e, em consenso, decidiu suspender temporariamente a roda de conversa para preservar alunos, professores e a própria instituição.

A docente questiona a legitimidade da iniciativa.

“A escola pertence à rede estadual e está vinculada à Secretaria de Estado de Educação. Não há competência legal de um vereador para fiscalizar atividades pedagógicas desenvolvidas pela rede estadual de ensino”, argumenta.

Vídeos nas redes sociais ampliaram a exposição

Após a suspensão da atividade, o vereador publicou vídeos em suas redes sociais nos quais mencionou a professora, a escola e o conteúdo da roda de conversa.

Nas gravações, a atividade foi associada à chamada “doutrinação ideológica”, e a atuação da docente passou a ser vinculada a posições políticas supostamente incompatíveis com o ambiente escolar.

Segundo Carla Karine, as publicações provocaram uma onda de ataques virtuais, comentários ofensivos, manifestações misóginas e constrangimentos públicos.

Ela afirma que a exposição ultrapassou o debate político e atingiu diretamente sua reputação profissional e sua saúde emocional.

“Uma atividade destinada à prevenção da violência contra adolescentes acabou transformada em alvo de ataques políticos. Meu nome, meu trabalho e minha trajetória profissional passaram a ser questionados publicamente por pessoas que sequer conheciam o projeto”, relata.

Violência política de gênero e perseguição a educadoras

A professora entende que o episódio não pode ser analisado como um caso isolado.

Segundo ela, existem relatos de outras educadoras da capital sul-mato-grossense que também teriam sido alvo de exposições públicas semelhantes ao desenvolver atividades relacionadas a direitos humanos, igualdade de gênero ou combate à violência.

Para Carla, o caso revela uma forma de violência política de gênero dirigida contra mulheres que atuam na educação pública.

“Quando uma professora é atacada por trabalhar temas relacionados à proteção de meninas, adolescentes e mulheres, não estamos falando apenas de divergência política. Estamos diante de uma tentativa de silenciamento”, afirma.

A docente destaca ainda que o combate à violência doméstica, ao abuso sexual e aos relacionamentos abusivos constitui uma política pública prevista em legislação nacional e estadual.

Impactos na saúde e medidas adotadas

A repercussão do caso teve consequências diretas para a saúde da professora.

Segundo seu relato, os ataques sofridos provocaram uma crise de ansiedade que exigiu atendimento médico e afastamento temporário de suas atividades profissionais.

Diante da situação, Carla registrou boletim de ocorrência, formalizou denúncias junto aos órgãos competentes e encaminhou pedidos de providências à Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul.

Ela também reúne documentação, registros das publicações e demais elementos relacionados ao episódio para eventual responsabilização dos envolvidos.

Solidariedade e repercussão nacional

O caso repercutiu no programa JTT – Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras, do Portal Desacato, em que o jornalista Raul Fitipaldi manifestou solidariedade pública à professora e criticou o que classificou como uma crescente onda de intimidação contra profissionais da educação.

Durante o programa, Raul afirmou que os ataques a professores vêm se repetindo em diferentes regiões do país e não podem ser tratados como fatos isolados.

Segundo ele, a atividade planejada pela professora possuía respaldo legal, científico e pedagógico, tendo como foco a proteção de estudantes e a prevenção das diversas formas de violência que afetam adolescentes.

O jornalista questionou a presença de representantes políticos em atividades escolares e comparou o caso a outros episódios recentes de pressão sobre educadores e gestores escolares.

Para Raul, a tentativa de transformar uma ação preventiva em suposta “doutrinação ideológica” representa uma distorção do debate público e ameaça a autonomia pedagógica das escolas.

Ele também criticou que temas como feminismo, igualdade de gênero e enfrentamento da violência contra mulheres sejam frequentemente utilizados como alvo de campanhas políticas.

“Estamos falando de uma professora que desenvolve uma atividade prevista em lei, destinada à prevenção da violência. O problema apontado contra ela não é o conteúdo pedagógico, mas o fato de ela defender direitos das mulheres e discutir mecanismos de proteção para adolescentes”, observou.

Ao comentar o caso, o jornalista relacionou a situação aos elevados índices de violência doméstica, feminicídio, abuso sexual infantil e agressões contra mulheres registrados no Brasil.

Para ele, iniciativas educacionais voltadas à conscientização e prevenção dessas violências deveriam receber apoio institucional, e não perseguição política.

Debate sobre liberdade de ensinar e autonomia escolar

O episódio reacende um debate nacional sobre liberdade de cátedra, autonomia pedagógica e limites da atuação de agentes políticos dentro das escolas públicas.

Especialistas em educação têm alertado para o crescimento de iniciativas que buscam constranger professores, monitorar conteúdos pedagógicos e associar temas relacionados aos direitos humanos a disputas ideológicas.

Entidades educacionais defendem que ações voltadas à promoção da cidadania, ao combate às violências e à proteção de crianças e adolescentes fazem parte das responsabilidades da escola pública e encontram respaldo em diversas legislações brasileiras.

Enquanto aguarda manifestações oficiais das instituições responsáveis, Carla Karine afirma que seguirá buscando proteção institucional e responsabilização pelos danos sofridos.

“Não se trata apenas de mim. Quando uma professora é exposta por desenvolver uma atividade legal, científica e pedagógica, toda a comunidade escolar é afetada. Defender a educação também é defender o direito de crianças e adolescentes a um ambiente seguro e livre de violência”, conclui.

Assista ao comentário de Raul Fitipaldi sobre o caso da professora


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