Por Carmen Parejo Rendón.
“Un-American” não significa simplesmente “antiestadunidense”, mas “não estadunidense”, alguém alheio ao corpo nacional. Essa foi a operação ideológica central: transformar a luta de classes em uma infiltração estrangeira.
Essa mesma tradição se manifestou durante a Guerra Civil Espanhola. Quando o fascismo europeu transformou a Península Ibérica em um campo de ensaio da guerra que viria depois, milhares de voluntários acorreram para defender a República por meio das Brigadas Internacionais.
Dos Estados Unidos viajaram cerca de 2.800 voluntários do Batalhão Abraham Lincoln; três quartos haviam pertencido ao Partido Comunista dos Estados Unidos ou às suas juventudes, e mais de oitenta eram afro-americanos.
Em 1937, em plena segregação racial nos Estados Unidos, Oliver Law, comunista negro nascido no Texas, foi nomeado comandante do Batalhão Abraham Lincoln, tornando-se o primeiro afro-americano a comandar tropas brancas estadunidenses em combate. A Espanha representou para eles uma experiência de internacionalismo e também a imagem concreta de uns Estados Unidos diferentes.
Diante desse cenário, o Estado estadunidense colocou em prática uma estratégia dupla. De um lado, promoveu a integração parcial da classe trabalhadora por meio do New Deal, uma forma de conciliação social — fordista e keynesiana, com todas as ressalvas necessárias — que permitiu transformar o Partido Democrata e conter, desde dentro do sistema, uma conflitividade operária alimentada pela Grande Depressão, pelo desemprego em massa e pelo crescente prestígio das ideias socialistas.
O fato de Donald Trump ter aproveitado o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos para renovar o velho discurso anticomunista não responde apenas a uma necessidade eleitoral nem ao temor diante dos setores de esquerda do Partido Democrata. Responde ao medo de reconhecer que não existe uma única história estadunidense, limpa e obediente ao mito nacional, mas uma história permanentemente em disputa.
Por outro lado, houve repressão aberta: vigilância, deportações, listas negras e criminalização de anarquistas, sindicalistas, socialistas e comunistas. Das batidas de Palmer à consolidação do aparato federal de inteligência sob J. Edgar Hoover, passando posteriormente pelo macartismo, construiu-se uma guerra sem quartel contra esse outro Estados Unidos possível.
O chamado Comitê de Atividades Antiamericanas (House Un-American Activities Committee) é uma tradução que distorce, ou pelo menos suaviza, seu sentido político: Un-American não significa simplesmente “antiestadunidense”, mas “não estadunidense”, alguém alheio ao corpo nacional. Essa foi a operação ideológica central: transformar a luta de classes em uma infiltração estrangeira. Seria falso afirmar que essa operação não teve êxito. Teve. Durante décadas, o anticomunismo esvaziou de conteúdo político boa parte do movimento sindical, disciplinou a indústria cultural, destruiu organizações e transformou a palavra “comunista” em uma acusação, em vez de uma posição política. Ainda assim, não conseguiu encerrar a contestação.
As lutas pelos direitos civis, o movimento negro, os Panteras Negras, figuras como Angela Davis e as mobilizações contra a guerra demonstraram que esse outro Estados Unidos continuava existindo sob novas formas. Mais tarde, a desindustrialização, a crise financeira de 2008, a precarização do trabalho, o empobrecimento da juventude e a crise da hegemonia internacional voltaram a abrir fissuras. Nelas reapareceram protestos antirracistas, estudantis, sindicais e anti-imperialistas; uma nova conflitividade operária, visível na Starbucks, na Amazon, na indústria automobilística, na Boeing, na hotelaria e na educação; além de organizações socialistas, comunistas e anarquistas, desde o Partido Comunista dos Estados Unidos até o Partido pelo Socialismo e a Libertação, o Partido Comunista Revolucionário e a Alternativa Socialista.
A isso soma-se o crescimento dos Socialistas Democráticos da América (DSA) dentro do campo democrata, tendo Zohran Mamdani como uma de suas figuras mais visíveis. Suas posições não representam uma contestação total ao capitalismo, mas expressam algo que Trump compreende melhor do que aparenta: a luta de classes nunca desapareceu dos Estados Unidos; apenas permaneceu, por algum tempo, mais eficazmente contida.
Assim, voltando ao ponto de partida, a frase de Trump revela todo o seu significado. O fato de ter aproveitado o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos para renovar o velho discurso anticomunista não responde apenas a uma necessidade eleitoral nem ao receio diante dos setores progressistas do Partido Democrata. Responde ao medo de reconhecer que não existe uma única história estadunidense, limpa e fiel ao mito nacional, mas uma história em permanente disputa.
Diante do país dos proprietários, dos colonizadores, dos escravistas, dos banqueiros, dos monopólios e dos aparatos repressivos, sempre existiu outro Estados Unidos: o dos trabalhadores organizados, dos povos originários em resistência, dos internacionalistas, dos comunistas, dos anarquistas, dos sindicalistas e daqueles que ainda se perguntam por que a riqueza de poucos deve sustentar-se sobre a precariedade de tantos. Trump pretende declarar essa tradição como “não estadunidense” porque reconhecê-la significaria admitir o óbvio: os Estados Unidos, como qualquer outro país, não são uma essência; são uma luta. E essa luta, ao longo de 250 anos, também foi uma luta de classes.
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