Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
Durante um evento recente, o professor da Sorbonne Carlos Moreno voltou a defender o conceito da chamada “cidade de 15 minutos”, modelo urbano que propõe que as necessidades básicas da população — trabalho, educação, saúde, comércio, lazer e serviços — possam ser atendidas a poucos minutos de caminhada ou de bicicleta da residência.
A ideia ganhou notoriedade mundial após ser adotada em Paris pela prefeita Anne Hidalgo e hoje inspira projetos urbanos em diversos países. Mas, para os brasileiros, especialmente os estudiosos da arquitetura e do urbanismo, essa proposta desperta uma pergunta inevitável: será que essa ideia já não havia sido colocada em prática muito antes?
A resposta é, em grande medida, sim.
Embora Carlos Moreno tenha sido o responsável por formular o conceito contemporâneo da “cidade de 15 minutos”, Brasília nasceu, ainda no fim da década de 1950, com princípios muito semelhantes. O Plano Piloto concebido por Lúcio Costa e os edifícios projetados por Oscar Niemeyer organizaram a cidade em unidades de vizinhança — as famosas superquadras — planejadas para oferecer à população escolas, comércio, igrejas, áreas verdes, espaços esportivos e equipamentos públicos a uma curta caminhada.
O objetivo era simples e revolucionário: permitir que a vida cotidiana pudesse acontecer no próprio bairro, reduzindo deslocamentos desnecessários e fortalecendo a convivência comunitária.
Décadas antes de o conceito ganhar um nome, Brasília já experimentava uma cidade baseada na proximidade.
É verdade que o crescimento urbano da capital, a expansão para cidades satélites, a dependência do automóvel e mudanças nas políticas urbanas acabaram descaracterizando parte desse projeto original. Muitos moradores passaram a enfrentar longos deslocamentos diários, distanciando Brasília do ideal concebido por seus criadores.
Mesmo assim, a lógica permanece viva nas superquadras mais preservadas, onde ainda é possível realizar boa parte das atividades diárias caminhando por poucos minutos.
A contribuição de Carlos Moreno foi atualizar essa visão para os desafios contemporâneos: mudanças climáticas, congestionamentos, redução das emissões de carbono, qualidade de vida e fortalecimento do comércio de bairro. Seu mérito pode estar em sistematizar um conceito aplicável às grandes metrópoles do século XXI.
Isso, porém, não diminui o pioneirismo brasileiro.
Oscar Niemeyer e Lúcio Costa jamais utilizaram a expressão “cidade de 15 minutos”. Mas imaginaram bairros completos, caminháveis, arborizados e capazes de integrar moradia, serviços e convivência muito antes de esse modelo se tornar uma referência internacional.
Talvez seja hora de reconhecer que uma das ideias urbanísticas mais discutidas do mundo possui raízes importantes na experiência brasileira. Mais do que uma coincidência, trata-se da demonstração de que boas soluções urbanas não surgem do nada: elas evoluem, são reinterpretadas e reaparecem conforme os desafios de cada época.
Ao revisitar Brasília, percebe-se que o futuro das cidades talvez tenha começado há mais de seis décadas, nas pranchetas de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
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