Por Gideon Levy.
O dia 7 de outubro virou a Cisjordânia de cabeça para baixo.
Assim como em Israel, nada é mais como era antes de 7 de outubro entre Jenin e Hebron. Trata-se de uma ocupação com novas regras, mais cruel do que nunca. Nem um único tiro foi disparado pelos palestinos na Cisjordânia em 7 de outubro, nem na maioria dos muitos dias que se seguiram; no entanto, eles estão sendo punidos por Israel como nunca foram desde a Nakba.
O veredicto de que não há civis inocentes na Faixa de Gaza foi aplicado também aos habitantes da Cisjordânia, e é por isso que é permitido e necessário abusar deles mais do que nunca. A Cisjordânia, por sua vez, está reagindo com total impotência, de forma semelhante ao que aconteceu com seus moradores em 1967.Desde 7 de outubro, Israel vem adotando uma política de perseguição implacável e cada vez mais intensa, apesar do longo período que já se passou desde então. A punição imposta à Cisjordânia está se configurando como uma pena de prisão perpétua. Seus habitantes têm se comportado de maneira impecável do ponto de vista de Israel: submissos, sangrando e sem liderança. Eles não manifestaram nenhuma oposição significativa ao que está sendo feito aos seus irmãos em Gaza, mas isso não os ajudou. Seu pecado foi e continua sendo o fato de serem palestinos. Com ou sem terrorismo, a culpa é sempre deles.
O dia 7 de outubro, que possibilitou um genocídio em Gaza, também afrouxou todas as restrições na Cisjordânia. Enquanto Israel chorava seus mortos e reféns, os colonos foram rápidos em perceber uma oportunidade de ouro. Com seus sentidos aguçados, perceberam que aquele era o momento pelo qual vinham rezando todos esses anos: uma grande guerra motivada pelo desejo de vingança, sob cujo pretexto se pode fazer qualquer coisa.

A revolução na Cisjordânia ocorreu em várias frentes, bem planejada e coordenada, sufocando seus moradores de todas as direções possíveis. Isso incluiu a adoção de medidas draconianas que não foram revertidas desde então e que provavelmente estão destinadas a permanecer em vigor para sempre. O mal irrompeu de todas as direções, e Israel, a oeste da Linha Verde, desviou o olhar.
A Cisjordânia foi cercada de forma quase hermética. Centenas de portões amarelos que haviam sido instalados na entrada de todas as cidades e vilarejos palestinos foram fechados e trancados. Não há hoje nenhuma comunidade na Cisjordânia que não esteja sob, pelo menos, um cerco parcial. As principais entradas de cidades como Nablus, Hebron e Ramallah foram trancadas, assim como as entradas dos vilarejos, e os moradores são forçados a dirigir por estradas de terra. Não há mais estradas normais para os palestinos.
Esse cerco insano continua até hoje. Não tem nada a ver com segurança. Na semana passada, o consultor jurídico das Forças de Defesa de Israel (FDI) responsável pela Cisjordânia lembrou-se de observar que as FDI estavam restringindo ilegalmente a liberdade de movimento dos palestinos (conforme relatou o repórter do Haaretz, Yaniv Kubovich, na quinta-feira). É bom que ele tenha se lembrado, mas sua declaração não vai mudar nada. Os colonos querem estradas pelas quais os palestinos não possam circular, e é isso que eles vão ter.

A segunda calamidade que se abateu sobre os palestinos foi a proibição total de trabalhar em Israel, o que significa uma proibição total de ganhar a vida por quase três anos.
As incursões do exército também se tornaram mais frequentes e aleatórias do que antes. Em seguida, vieram os pogroms. E depois os “esquadrões de segurança” locais dos colonos, um nome enganoso para designar as milícias dos colonos. Cada coordenador de segurança local tornou-se um general e cada colono, um rei. Cerca de 150 postos avançados violentos foram estabelecidos, ocupando centenas de milhares de acres, mais do que qualquer outro programa de assentamento “oficial”.
E então surgiu o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, transformando prisões que abrigavam milhares de presos e detidos – alguns deles inocentes, a maioria dos quais são presos políticos, muitos outros mantidos em detenção sem julgamento – em horríveis centros de tortura. As pessoas estão morrendo de fome lá.
O exército também flexibilizou suas regras de combate. Desde 7 de outubro, mais de mil palestinos foram assassindos na pacífica Cisjordânia, incluindo mais de 200 crianças. Muito poucos deles representavam qualquer perigo para alguém, se é que representavam algum. Soldados que haviam servido na Faixa de Gaza, seus amigos invejosos e colonos perturbados e sanguinários adotaram o assassinato em massa e indiscriminado como modus operandi também na Cisjordânia.
Tudo isso aconteceu praticamente sem nenhuma atividade terrorista palestina na Cisjordânia. Tudo isso vem acontecendo há quase três anos, sem fim à vista. Talvez seja hora de dizer: já basta?
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