Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
O memorando de entendimento firmado entre Irã e Estados Unidos, apresentado como um passo para a redução das tensões no Oriente Médio, é recebido com cautela e desconfiança por grande parte da população iraniana. A avaliação é do analista político e professor iraniano Meisam Ajlaqui, que falou diretamente da cidade de Qom, no Irã, durante entrevista ao programa Diálogo Internacional, da rádio argentina AM 530.
Segundo Ajlaqui, embora o acordo seja visto internacionalmente como uma oportunidade para evitar uma nova escalada militar na região, muitos iranianos questionam se Washington cumprirá os compromissos assumidos. “Desde o princípio tivemos dúvidas e continuamos com as mesmas dúvidas. Falando em nome do povo, existe uma grande desconfiança sobre o cumprimento das condições por parte dos Estados Unidos”, afirmou.
A desconfiança, explica o analista, está relacionada ao histórico das relações entre os dois países. Ele recorda a retirada unilateral dos Estados Unidos do acordo nuclear firmado em 2015, durante o primeiro governo de Donald Trump, além de episódios anteriores de confrontação. “Ninguém gosta da guerra, mas nós conhecemos a experiência que tivemos. Houve acordos rompidos e ataques durante processos de negociação”, observou.
Israel é visto como principal obstáculo
Para Ajlaqui, um dos maiores desafios para a implementação do memorando é a continuidade das operações militares israelenses no Líbano. Ele afirma que a manutenção dos ataques compromete a credibilidade do entendimento e reforça a percepção de que Israel busca inviabilizar qualquer tentativa de estabilização regional.
“Não acreditamos que seja possível construir um entendimento sólido com os Estados Unidos sem considerar o papel de Israel. O governo israelense continua realizando ataques, e isso enfraquece qualquer perspectiva de paz duradoura”, declarou.
O analista destacou ainda que a população iraniana acompanha com preocupação o aumento das vítimas civis nos conflitos regionais e considera que a ausência de reações mais contundentes da comunidade internacional contribui para a continuidade da violência.
Avaliação da guerra
Ao analisar os recentes confrontos envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, Ajlaqui sustenta que os objetivos estratégicos anunciados por Washington não foram alcançados. Segundo ele, a mudança de regime em Teerã, o desmantelamento do programa nuclear iraniano, a eliminação da capacidade de mísseis do país e o controle sobre recursos estratégicos não se concretizaram.
“Se analisarmos os objetivos declarados pelos Estados Unidos, nenhum deles foi alcançado. O Irã sofreu perdas humanas importantes, mas conseguiu preservar suas estruturas políticas e militares fundamentais”, argumentou.
Na visão do professor iraniano, a resistência do país alterou a percepção internacional sobre seu papel geopolítico e fortaleceu sua posição estratégica, especialmente em relação ao Estreito de Ormuz, rota por onde passa uma parcela significativa do comércio mundial de petróleo.
Mudanças regionais
Ajlaqui também observou uma mudança nas relações entre o Irã e alguns países da região. Embora tenha ressaltado que as relações com o Iraque já vinham se fortalecendo há anos, ele destacou sinais de aproximação por parte da Arábia Saudita e de outros países do Golfo.
Segundo ele, governos da região passaram a questionar a eficácia das garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos após os recentes episódios de conflito. “Há uma percepção crescente de que os países da região precisam resolver seus próprios problemas sem depender de intervenções externas”, afirmou.
Mobilização popular
Contrariando a imagem frequentemente difundida por veículos de comunicação ocidentais, Ajlaqui descreveu um cenário de forte mobilização popular em apoio à resistência iraniana.
De acordo com ele, manifestações e concentrações públicas têm ocorrido regularmente desde o início dos ataques, reunindo cidadãos em praças e espaços públicos. “As pessoas continuam nas ruas, demonstrando unidade nacional. Mesmo quem possui críticas ao governo entende que a defesa do país é uma questão coletiva”, disse.
O analista argumenta que a pressão externa acabou produzindo o efeito contrário ao esperado por Washington e Tel Aviv, fortalecendo o sentimento de coesão interna.
Futuro incerto
Apesar da assinatura do memorando, Ajlaqui acredita que a estabilidade continua longe de ser garantida. Para ele, o acordo inaugura outra etapa de negociações políticas, mas não elimina o risco de novos confrontos.
“O povo iraniano deseja viver em paz. Queremos enviar nossos filhos à escola sem medo de ataques. Mas a confiança só poderá existir quando houver garantias concretas de que a guerra não voltará a acontecer”, concluiu.
Enquanto diplomatas discutem os mecanismos de implementação do memorando, o acordo permanece cercado por expectativas e incertezas. Para Teerã, a verdadeira prova de sua eficácia será o cumprimento dos compromissos assumidos e a redução efetiva das tensões que há décadas marcam a relação entre Irã, Estados Unidos e Israel.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo
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