O Peru vive um dos momentos políticos mais tensos de sua história recente. A apuração da eleição presidencial segue cercada por controvérsias, denúncias de irregularidades e mobilizações populares, enquanto a diferença entre os candidatos Roberto Sánchez e Keiko Fujimori permanece extremamente apertada. Em entrevista ao programa Diálogo Internacional, da AM 530, a socióloga e ex-ministra peruana Anahí Durand afirmou que o processo eleitoral está sendo marcado por acontecimentos que levantam sérias dúvidas sobre sua transparência.
Segundo Durand, a disputa ganhou novos contornos quando os votos do exterior começaram a ser contabilizados. Até então, Sánchez mantinha vantagem no território peruano. A mudança de tendência ocorreu após a chegada das atas provenientes de outros países, especialmente de Estados Unidos e Argentina, cuja administração eleitoral ficou sob responsabilidade dos consulados após alterações nas normas de transporte do material eleitoral. Para a ex-ministra, a demora de vários dias na entrega de documentos vindos de Buenos Aires e a falta de explicações convincentes para o atraso justificam pedidos de revisão e auditoria.
Outro ponto que gera críticas é o custo para impugnar atas eleitorais. De acordo com Durand, cada recurso exige o pagamento de taxas consideradas elevadas para organizações populares e movimentos de esquerda. Enquanto setores ligados ao fujimorismo contam com amplo apoio financeiro e jurídico, as forças progressistas recorreram a campanhas de arrecadação popular para custear os pedidos de revisão. A situação, segundo ela, cria uma desigualdade estrutural no acesso aos mecanismos de contestação previstos pela legislação eleitoral.
?? | PERÚ VOTA: Marchas de seguidores del partido de Roberto Sánchez “contra el fraude” en Lima la noche del sábado. pic.twitter.com/KqlZugEhkC
— AlertaNewsPlus (@AlertaNewsPlus) June 14, 2026
A tensão institucional ocorre em um contexto de forte polarização política. Durand sustenta que o país ainda vive os efeitos da destituição e prisão do ex-presidente Pedro Castillo, evento que desencadeou grandes protestos populares entre 2022 e 2023. As mobilizações foram reprimidas com violência e deixaram dezenas de mortos, mas também contribuíram para o surgimento de uma nova liderança popular oriunda das regiões andinas, amazônicas e rurais do país.
Para a socióloga, esse movimento não desapareceu. Ao contrário, parte dele teria sido canalizada para a disputa eleitoral atual. Lideranças que participaram dos protestos, muitas delas criminalizadas ou acusadas de terrorismo por autoridades e meios de comunicação, conquistaram representação parlamentar e passaram a ocupar espaço institucional. Esse fenômeno demonstra, segundo Durand, que existe um sujeito político popular disposto a continuar disputando os rumos do país tanto nas ruas quanto nas urnas.
Enquanto os recursos eleitorais seguem em análise, cresce a mobilização de apoiadores de Sánchez em diversas regiões do Peru. Manifestantes exigem transparência na contagem dos votos e denunciam o que consideram uma tentativa de consolidar uma narrativa de vitória inevitável de Keiko Fujimori antes da conclusão de todos os procedimentos legais. A preocupação central é que uma eventual definição por uma margem mínima de votos aprofunde ainda mais a crise de legitimidade das instituições peruanas.
Mais do que uma disputa entre dois candidatos, a eleição peruana transformou-se em um embate sobre o futuro da democracia no país. De um lado, forças vinculadas ao legado do fujimorismo e ao atual establishment político; de outro, setores populares que emergiram com força nos últimos anos e reivindicam maior participação política. O resultado final poderá não apenas definir quem ocupará o Palácio de Governo, mas também indicar qual projeto de país prevalecerá em um Peru marcado por profundas divisões sociais, regionais e políticas.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo
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