Com dinheiro público, Florianópolis contrata Padre Fábio de Melo para celebrar centenário da Ponte Hercílio Luz

Por Luiza Soeiro para Desacato.info.

Na semana em que Florianópolis comemorou os 100 anos da Ponte Hercílio Luz, a prefeitura anunciou o nome de Padre Fábio de Melo como um dos convidados musicais da noite. A informação passou por boa parte da imprensa local como um dado neutro, uma atração entre outras, um cantor popular escalado para uma festa pública. 

Mas não existe neutralidade nessa escolha, e é sobre isso que preciso falar.

Quero deixar minha posição clara desde o início, para que não haja espaço para mal-entendido: sou contra qualquer exposição religiosa financiada com dinheiro público — seja ela católica, evangélica, espírita, umbandista ou de qualquer outra tradição. O princípio do Estado laico, consagrado no artigo 19 da Constituição Federal de 1988, é categórico: é vedado à União, aos estados e aos municípios “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança”. 

A comemoração de um bem público com verba municipal não é espaço de nenhuma fé.

Padre Fábio de Melo não é apenas um cantor que, por acaso, usa batina. Sua persona artística é indissociável do seu ministério religioso. Contratá-lo para um evento cívico e dizer que está sendo contratado um músico é escolher, com dinheiro público, qual símbolo religioso merece ocupar o centro da festa da cidade. 

Em junho de 2025, o IBGE divulgou o Censo das Religiões. Os dados para Santa Catarina são eloquentes: as religiões de matriz africana (Umbanda e Candomblé) foram as que mais cresceram proporcionalmente no estado nos últimos doze anos. De 0,2% da população em 2010, chegaram a 0,8% em 2022. Em números absolutos, foram de aproximadamente 9 mil para mais de 52 mil pessoas. Uma quadruplicação.

Ao mesmo tempo, os católicos, que ainda são maioria, ainda sim recuaram de 73,5% para 64,3% da população catarinense. A cidade está mudando, e junto com ela a sociedade muda também. A curadoria do poder público, ao que tudo indica, não.

Esses mais de 52 mil catarinenses de tradição afro-religiosa também cruzam a Ponte Hercílio Luz, também pagam o IPTU e o ISS que financiam os eventos da prefeitura, também habitam este território. 

A pergunta que fica é simples: quando é que eles foram convidados para a festa?

O embranquecimento como projeto

A resposta, infelizmente, não surpreende quem conhece a história de Florianópolis. A cidade carrega consigo um projeto histórico de embranquecimento territorial que não começou ontem. Como nos lembra Abdias do Nascimento em O Genocídio do Negro Brasileiro (1978), o branqueamento não se opera apenas pela eliminação física, ele se dá também pela invisibilização cultural, pela negação sistemática de que determinadas presenças existem, pertencem e têm direito ao espaço público.

O racismo à brasileira opera, em grande parte, pela omissão,  pela ausência de nomes nos cartazes, de rostos nos palcos, de tradições nas comemorações oficiais. Não é preciso proibir o Candomblé para apagá-lo, basta nunca convidá-lo.

Já dizia Silvio Almeida, racismo não é uma anomalia, e sim a norma de funcionamento das instituições. Quando a prefeitura de Florianópolis naturaliza a presença de símbolos católicos em espaços públicos sem sequer cogitar outras representações, ela está sendo coerente com uma estrutura que sempre elegeu quem cabe na cidade e quem deve permanecer invisível.

Quem não aparece na festa aprende, mais uma vez, que aquele território não foi feito para ele.

Insisto: o problema não é o Padre Fábio de Melo como artista. O problema é o Estado fazendo escolhas religiosas com dinheiro coletivo e fazendo-as de forma que reproduz, sistematicamente, a hegemonia de uma única tradição cultural e religiosa sobre as demais.

Se a prefeitura tivesse convidado uma Mãe de Santo para conduzir um momento na programação, qual seria a reação? Se tivesse escalado um Babalorixá para cantar para a cidade, o evento teria acontecido da mesma forma? A resposta honesta a essas perguntas revela mais sobre Florianópolis do que qualquer discurso oficial sobre diversidade.

Este artigo expressa a opinião da autora e não representa necessariamente a posição institucional do Portal Desacato.

 


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