A política de austeridade do presidente Javier Milei volta a enfrentar resistência nas ruas da Argentina nesta terça-feira (13), com a realização de uma nova Marcha Federal Universitária que promete reunir dezenas de milhares de estudantes, professores, pesquisadores e trabalhadores da educação em todo o país. O ato central ocorrerá na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, mas manifestações simultâneas também estão previstas nas principais cidades argentinas.
A mobilização expõe uma das faces mais profundas do projeto econômico de Milei: o desmonte acelerado do financiamento público das universidades e da pesquisa científica sob o argumento do equilíbrio fiscal. Segundo o Conselho Interuniversitário Nacional (CIN), o orçamento real das universidades sofreu uma queda de 45,6% entre 2023 e 2026, enquanto instituições denunciam que os recursos atuais equivalem a apenas 40% do valor disponível em janeiro de 2023.
Embora Milei apresente o ajuste como uma “cirurgia sem anestesia” necessária para conter a inflação e reorganizar as contas públicas, o impacto social da política começa a produzir rachaduras visíveis em setores historicamente estratégicos para o desenvolvimento argentino. Universidades públicas, responsáveis pela formação da maior parte dos profissionais do país e por grande parte da produção científica nacional, relatam dificuldades para manter laboratórios funcionando, pagar despesas básicas e sustentar programas de bolsas estudantis.
A crise universitária também revela um traço recorrente das experiências ultraliberais na América Latina: o tratamento da educação pública não como investimento social e soberano, mas como gasto a ser comprimido em nome das metas fiscais. O resultado costuma ser conhecido na região — precarização do ensino, fuga de cérebros, aumento da desigualdade e dependência tecnológica externa.
Para o público brasileiro, o cenário argentino oferece um alerta familiar. O Brasil também viveu, nos últimos anos, tentativas de estrangulamento orçamentário das universidades federais e dos órgãos de pesquisa, frequentemente acompanhadas de discursos que associavam o ensino público à ineficiência ou ao desperdício. A diferença é que, na Argentina de Milei, o ajuste assume proporções ainda mais radicais, impulsionado por uma lógica de choque permanente contra o Estado.
Outro elemento que agrava a tensão é o descumprimento, pelo governo argentino, da Lei de Financiamento Universitário aprovada e ratificada pelo Congresso. A comunidade acadêmica denuncia que o Executivo ignora deliberadamente mecanismos legais de recomposição orçamentária, enquanto os salários docentes acumulam perdas históricas de poder de compra, já abaixo dos níveis registrados em 2004.
A nova marcha universitária representa, portanto, mais do que uma disputa salarial ou administrativa. Ela simboliza o choque entre dois projetos de país: um baseado na ideia de que educação, ciência e universidade pública são pilares de soberania e mobilidade social; outro que subordina essas áreas exclusivamente às exigências do ajuste fiscal e da lógica de mercado.
O tamanho da mobilização desta terça-feira poderá indicar até que ponto a sociedade argentina está disposta a aceitar os custos sociais do experimento econômico de Milei — um modelo que segue sendo celebrado por setores do mercado financeiro, mas que enfrenta crescente desgaste entre trabalhadores, estudantes e parte significativa da população afetada pelo corte de direitos e serviços públicos.
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