O eixo Teerã-Caracas, a divisão na resistência anti-imperialista global

Apesar da incerteza em relação à Venezuela, a resistência do Irã pode levar a uma derrota estratégica que frustre os planos dos EUA e de Israel.

Por Arantxa Tirado.

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos bombardearam Caracas para sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua companheira, Cilia Flores. Também em 3 de janeiro, mas no ano de 2020, os EUA atacaram com drones as imediações do aeroporto de Bagdá para assassinar o general Qasem Soleimani, chefe das Forças Quds, a elite da Guarda Revolucionária Iraniana. A coincidência da data nessas duas ações não é casual, como o presidente Donald Trump fez questão de destacar na coletiva de imprensa em que anunciou a operação na Venezuela.

Semanas depois, em 28 de fevereiro, Israel e os EUA decidiram iniciar uma nova fase de sua guerra aberta contra o Irã, assassinando, entre outros, o líder supremo da República Islâmica, Ali Khamenei, justamente no momento em que representantes iranianos se encontravam em Genebra negociando um novo acordo nuclear com os EUA. Novamente surgiram referências cruzadas quando Trump falou em reproduzir no Irã o inovador modelo de mudança de regime aplicado na Venezuela após 3 de janeiro, quando os EUA, para surpresa de todos, decidiram manter a vice-presidenta Delcy Rodríguez como presidenta interina, à frente de um processo de transformação em três etapas (estabilização, recuperação e transição) comandado pelos EUA.

As repetidas tentativas de paralelismo não mostram apenas o alcance planetário das agressões dos EUA, voltadas para um domínio geopolítico global, ou sua vontade de repetir uma fórmula de negociações para o controle neocolonial dos recursos energéticos da Venezuela. São, acima de tudo, um fio que conecta, como parte de uma mesma ameaça, dois povos que decidiram autodeterminar-se e exercer um controle soberano sobre sua riqueza petrolífera. O impacto geopolítico de sua aliança tornou-se uma dor de cabeça para os interesses dos EUA e de Israel.

Duas revoluções sob o ataque do imperialismo

Os processos de transformação política vividos pelo Irã e pela Venezuela ao longo dos séculos XX e XXI têm pouco em comum, embora ambos os países tenham passado por rupturas revolucionárias a partir de suas próprias coordenadas históricas, culturais e políticas. A consolidação de novas lideranças que defendiam a soberania nacional levou, inevitavelmente, ao confronto com os interesses dos EUA em suas respectivas áreas de influência geopolítica, a Ásia Ocidental e a América Latina e o Caribe.

Assim, tanto a Revolução Islâmica de 1979, na qual acabou se impondo um sistema teocrático em detrimento das forças progressistas e comunistas que haviam participado da luta contra o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, quanto a Revolução Bolivariana, que teve início em 1999 com a chegada ao governo de Hugo Chávez, representam um novo momento na política interna, mas também na política externa de ambos os Estados, que acabarão por assumir uma clara liderança anti-imperialista na esfera global.

Os EUA têm implementado uma política voltada para isolar e enfraquecer a República Islâmica do ponto de vista político e econômico. Essa política de cerco, que também atingiu a Venezuela, baseou-se tanto em sanções diretas — que atualmente somam mais de 1.500 no caso do Irã, tornando-o o país mais sancionado do mundo — quanto em outras ações de guerra, executadas também por Israel, como o assassinato seletivo de líderes políticos ou cientistas do programa nuclear iraniano.

No caso da Venezuela, o país acumula, desde 2014, mais de 1.000 medidas coercitivas unilaterais, sendo o terceiro país mais sancionado. No entanto, nos últimos meses, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro (OFAC, na sigla em inglês) concedeu algumas licenças que permitem transações econômicas e financeiras de empresas dos EUA com instituições venezuelanas e revogou as sanções individuais contra Delcy Rodríguez.

A República Islâmica é vista por Israel como uma ameaça existencial por liderar o eixo de resistência ao sionismo. O Irã construiu uma rede de alianças políticas e militares que lhe conferiram influência em vários países da Ásia Ocidental, como o Líbano, a Síria de Bashar al-Assad, o Iraque pós-Hussein, o Iêmen ou a Palestina. Portanto, a hegemonia iraniana na Ásia Ocidental entra em conflito direto com o projeto do Grande Israel e com a vontade de reconfiguração geopolítica regional que os EUA se propõem para assumir o controle dos hidrocarbonetos por meio de governos alinhados com Washington e Tel Aviv.

A Venezuela, por sua vez, possui as principais reservas comprovadas de petróleo do mundo. Nas últimas décadas, liderou um bloco contra-hegemônico de poder na América Latina e no Caribe, impulsionando iniciativas de concertação política e econômica como a ALBA-TCP, a Unasul ou a CELAC, colocando seu petróleo a serviço da integração regional e buscando reforçar mecanismos institucionais e alianças em defesa da multipolaridade no sistema internacional.

O eixo Teerã-Caracas

Se as ações da República Bolivariana e da República Islâmica, separadamente, já fossem suficientes para despertar o alarme nos EUA e em Israel, a assinatura, a partir de 2002, de mais de 270 acordos de cooperação, bem como o estabelecimento de uma aliança de alto interesse estratégico mútuo, aprofundada sob as presidências de Hugo Chávez e Mahmud Ahmadinejad, foi o golpe final.

O Irã e a Venezuela, países alvo de sanções e em confronto aberto tanto com os EUA quanto com Israel, optaram por cooperar para amenizar o impacto das sanções, além de se fortalecerem mutuamente. Criaram empresas mistas e, inclusive, um Banco Venezuela-Irã. Em sua última visita ao Irã, em outubro de 2010, o presidente Hugo Chávez expressou isso com clareza: “Se países independentes como o Irã e a Venezuela unissem seus potenciais, nosso poder contra o imperialismo aumentaria consideravelmente”.

Mas a aliança tinha, igualmente, uma visão geopolítica na qual estava presente a vontade de construir um bloco contra-hegemônico de poder no sistema internacional. E aí residia o principal desafio. Em anos anteriores, Chávez havia falado de como “Teerã e Caracas devem prestar ajuda às nações revolucionárias por meio da expansão e consolidação de seus laços”. O presidente Mahmud Ahmadinejad enfatizava essa ideia: “Prestar assistência às nações oprimidas e revolucionárias e expandir a frente anti-imperialista são duas das missões cruciais de nossos países”.

Analistas de inteligência dos EUA, de Israel e do mundo ocidental começaram a se alarmar. Os jornais dedicaram inúmeros artigos a tratar do eixo Teerã-Caracas como uma ameaça à segurança dos EUA e de seus aliados, reproduzindo as versões que acusavam a Venezuela de abrigar militantes do Hezbollah e de utilizar a ponte aérea entre as duas capitais, iniciada em 2007, com escala em Damasco, como via para o transporte de armas, drogas e dinheiro. Essa imagem de cooperação política, apresentada como cooperação entre dois Estados “terroristas”, foi reforçada pela indústria audiovisual com a famosa série Homeland.

Além disso, os EUA e Israel viam com preocupação a defesa que a Venezuela fazia do direito do Irã de desenvolver seu programa nuclear, tema usado atualmente para justificar a guerra aberta de ambos os países contra o Irã. Em setembro de 2005, a Venezuela foi o único país que se opôs, alegando falta de provas, a uma resolução da Agência Internacional de Energia Atômica das Nações Unidas (AIEA) que acusava o Irã de violar o Tratado de Não Proliferação de 1978. Dos EUA chegou-se a insinuar que Chávez poderia estar enviando urânio venezuelano para Teerã. Mas, como tudo o que tinha a ver com a relação Teerã-Caracas, tratava-se de acusações sem qualquer prova.

O vínculo que a Venezuela e o Irã estabeleceram nas últimas décadas tem sido apresentado nos documentos de inteligência e segurança dos EUA como uma ameaça. No entanto, de uma perspectiva anti-imperialista, o chamado eixo Teerã-Caracas pode ser classificado como um exercício legítimo de construção de um bloco contra-hegemônico de poder, voltado para o fortalecimento do mundo multipolar. Uma aliança que agora se encontra em perigo devido à mudança de cenário ocorrida na Venezuela.

A fissura no eixo da resistência anti-imperialista global

O ponto de inflexão ocorreu no último dia 3 de janeiro. O sequestro do presidente Maduro foi comemorado pelo ministro dos Assuntos da Diáspora de Israel como “um golpe fatal no eixo global do mal e uma mensagem clara para Ali Khamenei”. A mensagem se confirmou, semanas depois, com o assassinato de Khamenei pelos bombardeios dos EUA e de Israel.

Não se pode negar que o sucesso da operação venezuelana, do ponto de vista dos EUA, impulsionou seu erro de cálculo ao entrar em uma guerra aberta contra o Irã ao lado de Israel. Os destinos da Venezuela e do Irã parecem, portanto, entrelaçados, mas o desenrolar dos acontecimentos colocou ambos os países em uma situação diametralmente oposta em relação ao seu agressor. A fórmula inovadora de mudança de regime executada na Venezuela, defendida por Trump como um modelo a ser reproduzido no Irã, encontrou resistência do Estado persa e trastornou os planos do imperialismo norte-americano de colocar essas duas peças do tabuleiro geopolítico sob seu controle.

Enquanto Caracas optou pelo pragmatismo com uma negociação diplomática que chama, sottovoce, de recuo tático, iniciando um novo momento nas relações com os EUA repleto de concessões aos interesses norte-americanos que, no entanto, são apresentadas pelos dirigentes venezuelanos como decisões soberanas; Teerã compreendeu que a única forma de sobreviver a longo prazo é resistir lutando, uma vez que iniciar um novo processo de negociação com os EUA, ou chegar a acordos, não é garantia de respeito nem de paz, como ficou demonstrado em 28 de fevereiro.

Com o sequestro do presidente Maduro, chegou o aparente sequestro da política externa venezuelana. Assim, após os ataques ilegais e unilaterais dos EUA e de Israel contra o Irã, que incluíram o assassinato de 168 meninas de uma creche, o Ministério das Relações Exteriores venezuelano publicou um comunicado inédito no qual condenava e lamentava profundamente que, em um contexto em que se desenvolviam negociações, tivesse sido escolhida “a via militar por meio de ataques contra a República Islâmica do Irã, desencadeando nas últimas horas uma escalada perigosa e imprevisível de acontecimentos, incluindo as represálias militares indevidas e condenáveis contra alvos localizados em diferentes países da região por parte do Irã”. Após mencionar as vítimas civis inocentes e fazer a correspondente defesa da paz e da solução pacífica dos conflitos, instava as partes a voltarem à mesa de diálogo. O comunicado criticava a resposta do Irã sem qualquer menção explícita aos responsáveis pelos ataques. Isso gerou tanta polêmica na Venezuela, um país onde estavam ocorrendo manifestações populares de apoio em frente à Embaixada iraniana, que o comunicado foi retirado das redes sociais.

O impacto global do 3 de janeiro venezuelano

O 3 de janeiro venezuelano está causando um impacto que vai além das relações da Venezuela com seus aliados estratégicos, afetando os equilíbrios geopolíticos que haviam sido estabelecidos na América Latina e no Caribe, bem como entre essa região e o resto do mundo. O seqMadurouestro do presidente Maduro e o novo momento de tutela neocolonial sobre as autoridades venezuelanas enfraquecem as possibilidades de reforçar um bloco contra-hegemônico de poder no sistema internacional. Um bloco formado pelos países que, apesar de suas diferenças políticas, representam um contrapeso à ordem norte-americana, precisamente em um contexto de transformações da ordem mundial, quando mais se precisa construir um contrapoder ao imperialismo reinante.

Mas o dia 3 de janeiro não afetou apenas as relações com Teerã, mas também com Havana, provocando um distanciamento visível que atende ao interesse dos EUA de isolar as resistências anti-imperialistas e neutralizá-las. O fato de a Venezuela ter cortado o fornecimento de petróleo à ilha nos últimos meses, certamente por exigências de Washington, cria um cenário mais favorável para levar a Revolução Cubana ao limite. Os EUA falam abertamente em repetir em Cuba a fórmula venezuelana, buscando líderes dispostos a liderar um processo de desmantelamento de seu sistema, neste caso, do socialismo. Por enquanto, Cuba tem apenas um 3 de janeiro em sua história, o de 1961, quando decidiu romper relações com os EUA e iniciar uma nova inserção geopolítica no mundo.

Portanto, a jogada dos Estados Unidos na Venezuela é uma manobra complexa em que se entrelaçam o controle geoeconômico e a reconfiguração geopolítica global. Em sua última Estratégia de Segurança Nacional, o governo Trump estabelece como prioridade expulsar os concorrentes extracontinentais que impedem sua plena hegemonia no hemisfério ocidental. Portanto, pôr fim à Revolução Bolivariana e à Revolução Cubana teria um duplo objetivo: acabar com processos que desafiam os EUA e expulsar os desafiantes hegemônicos da região que, segundo os EUA, conseguiram penetrar por culpa de Cuba e da Venezuela. O sonho dourado da doutrina Monroe.

Em conclusão, ao analisar os movimentos diplomáticos públicos e as declarações das atuais autoridades venezuelanas, voltadas para recuperar a normalidade econômica da Venezuela por meio de seu pleno retorno aos mercados internacionais com a aprovação do governo Trump, o eixo Teerã-Caracas parece estar se desintegrando. Se a ruptura acabar se confirmando, os EUA e Israel conquistarão uma vitória que vai muito além do simbólico. Mas, apesar da incerteza sobre o futuro da Revolução Bolivariana, a resistência do Irã pode levar a uma derrota estratégica dos EUA que prejudique seus planos para a Ásia Ocidental, a América Latina e o mundo. O horizonte de possibilidades está aberto.

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