Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
Quando se fala em movimentos latino-americanos de memória e justiça, o exemplo mais conhecido costuma ser o das Madres de Plaza de Mayo, surgidas na Argentina durante a ditadura militar de 1976-1983. No entanto, décadas antes, na República Dominicana, mulheres já protagonizavam uma luta semelhante: esposas, mães e viúvas de presos, assassinados e desaparecidos do regime de Rafael Leónidas Trujillo. Sem a mesma projeção internacional, elas construíram um dos primeiros repertórios de resistência feminina do continente.
Terror de Estado e desaparecimentos
A ditadura de Trujillo governou a República Dominicana entre 1930 e 1961, marcada por repressão sistemática, tortura, exílio forçado e assassinatos políticos. Estudos históricos e arquivos nacionais documentam perseguições contínuas a opositores desde os anos 1930.
Além das execuções conhecidas, muitas famílias jamais receberam os corpos de parentes presos pelo aparelho repressivo. O desaparecimento forçado — depois amplamente associado às ditaduras do Cone Sul — já aparecia como instrumento político no Caribe dominicano.
Mulheres que transformaram luto em denúncia
Diante da ausência de respostas oficiais, várias mulheres assumiram publicamente a busca por maridos, filhos e irmãos. Visitavam quartéis, delegacias e prisões; escreviam cartas; recorriam à Igreja; buscavam apoio internacional; preservavam nomes que o regime tentava apagar.
Entre essas figuras simbólicas estiveram as mulheres ligadas ao movimento clandestino Movimiento Revolucionario 14 de Junio, principal rede de resistência ao trujillismo.
As Mirabal e o crime que chocou o continente

As Hermanas Mirabal — Patria, Minerva e María Teresa — tornaram-se ícones não apenas por seu brutal assassinato em 1960, mas também pelo trabalho de apoio a presos políticos e familiares perseguidos. Testemunhos históricos indicam que participaram da mobilização de mães e esposas de opositores encarcerados.
Os maridos de Minerva e María Teresa também foram presos e as irmãs viajavam até o cárcere de Puerto Plata para visitá-los. Foi justamente numa dessas viagens de retorno, em 25 de novembro de 1960, que Patria, Minerva e María Teresa foram interceptadas por agentes do regime, espancadas e assassinadas, num crime encoberto como “acidente”. O motorista Rufino de la Cruz também foi morto.
Após a morte de Trujillo, outras viúvas continuaram a luta contra a impunidade dos remanescentes do regime e dos governos posteriores.
O caso emblemático de Minerva Mirabal
Minerva Mirabal deixou dois filhos pequenos. Seu marido, Manolo Tavárez Justo, líder junto com ela do Movimento Revolucionário 14 de Junio, seria executado em 1963 pelo Triunvirato que sucedeu ao governo democrático de Juan Bosch. Minerva foi uma figura central na articulação política do movimento e na sua orientação insurrecional, em sintonia com o contexto revolucionário caribenho da época.
A trajetória da família mostra como, na República Dominicana, a condição de viúva política tornou-se também condição de militância memorialista: mulheres que perderam maridos e parentes assumiram a tarefa de sustentar a narrativa histórica diante do silêncio estatal.
Antecedentes das Madres de Plaza de Mayo

As Madres argentinas inovaram ao ocupar semanalmente o espaço público com lenços brancos e marchas circulares. Mas alguns elementos centrais de sua ação já apareciam na experiência dominicana:
* transformação da maternidade e viuvez em linguagem política;
* busca pública por desaparecidos;
* denúncia internacional da violência estatal;
* preservação dos nomes das vítimas;
* enfrentamento feminino a regimes militarizados.
A diferença principal foi de escala e contexto. Na Argentina, a repressão atingiu dezenas de milhares e ocorreu sob intensa cobertura internacional. Na República Dominicana, o isolamento do país e a Guerra Fria limitaram a visibilidade externa dessas precursoras.
Memória ainda insuficientemente reconhecida
Hoje, museus e pesquisadores dominicanos buscam recuperar essa história, incluindo iniciativas de memória, marchas e demandas por verdade e justiça.
Reconhecer as viúvas dos desaparecidos de Trujillo como antecedentes das Madres de Plaza de Mayo não reduz a singularidade argentina. Pelo contrário: amplia a genealogia latino-americana da resistência feminina e mostra que, antes dos lenços brancos em Buenos Aires, já havia mulheres caribenhas enfrentando o terror com fotografias nas mãos, memória na voz e coragem no corpo.
Fontes:
Archivo General de la Nación Dominicana – coleções históricas sobre vítimas do regime.
https://colecciones.agn.gob.do/opac/ficha.php?codopac=OPPUB&idpag=1704478581&informatico=00230332PI&utm
Biografia de Minou Tavárez Mirabal. https://en.wikipedia.org/wiki/Minou_Tav%C3%A1rez_Mirabal
Biografia de Manolo Tavárez Justo
https://es.wikipedia.org/wiki/Manolo_Tav%C3%A1rez_Justo?utm
Itinerarios del exilio antitrujillista http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1794-88862018000200033
“Vanguardia del Pueblo – Órgano de difusión oficial del Partido de la Liberación Dominicana” https://vanguardiadelpueblo.do/1960/11/25/agentes-de-la-dictadura-de-trujillo-asesinan-las-hermanas-mirabal/
“Familiares de desaparecidos exigen justicia en República Dominicana | HISPANTV”. https://www.hispantv.com/noticias/dominicana/351686/victimas-desapariciones-dictadura-trujillo-balaguer
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