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Pessoalmente, não tenho remorso. Se houve erros, houve erros.
Mas um homem precisa ter uma linha de conduta, não é?
Klaus Barbie
Quando Klaus Barbie passou a integrar o quadro de funcionários de uma agência de inteligência norte-americana em 1947, já havia vivido várias vidas de maldade humana. Barbie havia caçado opositores dos nazistas na Holanda, perseguindo-os com cães. Ele havia trabalhado com os esquadrões da morte móveis dos nazistas na Frente Oriental, massacrando eslavos e judeus. Dirigiu durante dois anos a Gestapo em Lyon, torturando até a morte judeus e combatentes da Resistência francesa (entre eles o líder do movimento, Jean Moulin). Após a libertação da França, Barbie participou da frenética onda de assassinatos dos nazistas antes que os Aliados entrassem na Alemanha. E, apesar de tudo, a carreira desse atroz criminoso de guerra mal teve uma pausa antes de ele garantir um cargo remunerado pelos EUA na Alemanha do pós-guerra. Barbie foi transferido pouco depois da Europa por seus novos patrões, seguindo a “rota dos ratos” até a Bolívia. Lá, ele começou uma nova vida extraordinariamente semelhante à anterior: trabalhando para a polícia secreta, cumprindo ordens dos chefes do tráfico de drogas e participando do contrabando de armas por toda a América do Sul. Suas antigas habilidades como torturador passaram a ser muito procuradas.
No início dos anos 60, Barbie estava trabalhando novamente para a CIA visando colocar no poder um criminoso apoiado pelos EUA. Nos anos seguintes, esse velho nazista tornou-se uma figura central no Programa Condor, inspirado pelos EUA, cujo objetivo era reprimir levantes populares e manter ditadores controlados pelos EUA no poder em toda a América Latina. Barbie ajudou a organizar o chamado “golpe da cocaína” de 1980, quando uma junta de generais bolivianos tomou o poder, massacrando a oposição de esquerda e lucrando bilhões com o boom da cocaína, da qual a Bolívia era a principal fornecedora. Durante todo esse tempo, Barbie foi um dos homens mais procurados do planeta. Mesmo assim, Barbie prosperou até 1983, quando foi finalmente repatriado para a França para ser julgado por seus crimes. Nesta sórdida história de conluio entre agências de inteligência americanas, fascistas e criminosos, ninguém representa mais claramente os males desse tipo de aliança do que Klaus Barbie.
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Em 18 de agosto de 1947, três homens tomavam uns drinques em um café em Memmingen, na zona da Alemanha ocupada pelos americanos. Um deles era Kurt Merck, um ex-oficial da agência de inteligência militar da Alemanha nazista, a Abwehr. Merck havia trabalhado na França durante a guerra e fora capturado pelos serviços de inteligência americanos, que o interrogaram e logo o contrataram. O segundo era o tenente Robert Taylor, um oficial americano do Corpo de Contra-Inteligência do Exército (Counter–Intelligence Corps, CIC). O terceiro homem era Klaus Barbie, na época foragido dos franceses e dos soviéticos e o número três em uma lista anglo-americana dos membros da SS mais procurados. Barbie havia sido brutalmente interrogado pelos britânicos e não tinha nenhum interesse em repetir a experiência.
Merck era um velho amigo de Barbie. Apesar da rivalidade entre a Gestapo e a Abwehr, os dois haviam trabalhado juntos na França e se davam bem. Merck estava mais do que disposto a garantir ao oficial americano que Barbie seria uma boa contratação. Merck havia sido recrutado pelo CIC em 1946, numa época em que as agências de inteligência americanas tentavam recrutar talentos nazistas. O pretexto do CIC para essa caça de talentos doentia era extirpar e reprimir uma suposta rede das Juventudes Hitlerianas, cujos membros mais fanáticos haviam jurado continuar a luta sem levar em conta as condições de rendição que haviam sido assinadas.
Mas o verdadeiro interesse do CIC em Barbie não tinha nada a ver com os chamados Werwolf das Juventudes Hitlerianas. A contratação de Barbie como agente do CIC estava condicionada à sua disposição de compartilhar informações sobre as técnicas de interrogatório dos britânicos e sobre as identidades dos membros da SS que os britânicos haviam tentado recrutar como agentes. Barbie ficou encantado em colaborar, especialmente considerando que esse entusiasta torturador havia levado alguns hematomas quando foi interrogado pelos próprios britânicos.
Durante os quatro anos seguintes, o terceiro homem mais procurado da SS na Alemanha trabalhou para o CIC. Os estadunidenses instalaram Barbie em um hotel em Memmingen, trouxeram sua família de Kassel e o pagaram, em parte, em espécie — cigarros, remédios, açúcar e gasolina —, mercadorias que ele depois vendia a bom preço no mercado negro. Depois de inicialmente informar sobre as intenções e técnicas dos britânicos, a principal missão de Barbie, conforme consta em um memorando do CIC, era entregar relatórios sobre “as atividades dos serviços de inteligência franceses na zona de ocupação francesa e seus agentes que operam na zona de controle estadunidense”.
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Em 1948, o governo francês havia recebido a informação de que Barbie estava vivendo sob a proteção dos EUA em algum lugar da Alemanha. Os franceses estavam mais ansiosos do que nunca para capturar Barbie, que já havia sido condenado à morte à revelia por seus crimes de guerra. Barbie era necessário para testemunhar no julgamento iminente de René Hardy, o membro da Resistência que escapou da tortura de Barbie ao delatar Jean Moulin. Mas o CIC não tinha a menor intenção de entregar sua presa mais valiosa aos franceses, nem mesmo por empréstimo, para o julgamento de Hardy.
Os responsáveis por Barbie no CIC, que viam os franceses como aliados de Stalin, não conseguiam dormir pensando na possibilidade de Barbie revelar informações sobre seus patronos estadunidenses. Eugene Kolb, o oficial de inteligência do Exército estadunidense que havia trabalhado com Barbie durante um ano, disse que este não poderia ser devolvido aos franceses porque “sabia demais sobre nossos agentes na Europa e a agência de inteligência francesa estava repleta de comunistas”. A opinião de Kolb é corroborada pelos documentos do CIC, que sugerem que a Sûreté francesa tinha a intenção de “sequestrar Barbie, revelar suas conexões com o CIC e envergonhar os EUA”.
Assim, em dezembro de 1950, os Estados Unidos decidiram levar Barbie e sua família para a “rota dos ratos”, uma rota de fuga da Europa para agentes nazistas criada pelos oficiais do CIC, o tenente-coronel James Milano e Paul Lyon. Lyon e Milano vinham transferindo nazistas para fora da Alemanha, Áustria e Europa Oriental desde 1946 para enviá-los à Argentina, Chile, Peru, Brasil e Bolívia. O líder dessa operação também era um criminoso de guerra, o padre Krunoslav Draganovic, um sacerdote croata que supervisionou o envio de centenas de milhares de judeus da Iugoslávia para a morte nos campos de concentração nazistas. Quando o governo fascista na Croácia começou a desmoronar-se no final da guerra, o padre refugiou-se no Vaticano. Então, Draganovic aproveitou-se do seu cargo na Cruz Vermelha e no Vaticano para retirar centenas de criminosos de guerra da Europa.
Muitos dos primeiros recrutas de Draganovic eram membros do regime Ustaša, os esquadrões da morte sob o controle do ditador croata Ante Pavelic, responsável por um dos massacres mais sangrentos da guerra. Centenas de milhares de sérvios — algumas estimativas falam em mais de dois milhões — foram assassinados pelas forças de Pavelic para satisfazer seu desejo doentio de transformar a Croácia em um “Estado 100% católico”. Em seu escritório, Pavelic mostrava aos visitantes seu troféu favorito: um pote com mais de dezoito quilos de olhos humanos extraídos de suas vítimas sérvias.
Em 1947, o CIC contratou o padre Draganovic para ajudá-los a se livrar de alguns de seus agentes e recrutas mais problemáticos, especificamente cientistas, médicos, agentes de inteligência e engenheiros nazistas. O acordo foi fechado em Roma pelo oficial do CIC Paul Lyon, que observou que Draganovic havia estabelecido “vários canais de evacuação clandestinos para vários países sul-americanos, destinados a diversos tipos de refugiados europeus”. Draganovic não agia por altruísmo, nem mesmo quando se tratava de seus antigos parceiros nazistas. Ele exigiu das agências de inteligência estadunidenses 1.400 dólares por cada criminoso de guerra que cruzasse sua porta, e as agências de inteligência estadunidenses pagaram de bom grado o preço exigido. Uma nota de um oficial de inteligência do Departamento de Estado dos EUA explicava que “o Vaticano justifica sua participação pelo desejo de infiltrar não apenas países europeus, mas também países latino-americanos, com pessoas de todas as tendências políticas, desde que sejam anticomunistas e favoráveis à Igreja Católica”.
Temendo que Barbie pudesse escapar de suas mãos, os franceses protestaram diretamente junto a John J. McCloy, o Alto Comissário dos EUA na Alemanha. McCloy respondeu friamente que os EUA não entregariam Barbie aos franceses para sua possível execução “porque as alegações dos cidadãos de Lyon podem ser descartadas como meros rumores”. McCloy sabia que isso não era verdade: em 1944, o nome de Barbie aparecia em destaque no próprio escritório de McCloy, em uma lista chamada CROWCASS (Central Registry of War Criminals and Security Suspects, Registro Central de Criminosos de Guerra e Suspeitos de Segurança), na qual Barbie era identificado como procurado e capturado por “assassinato de civis e tortura e assassinato de pessoal militar”.
Barbie não era, de forma alguma, o único membro da SS que McCloy e seus comparsas tentaram proteger da justiça. Outro deles foi o braço direito de Adolf Eichmann, o barão Otto von Bolschwing. Esse ex-oficial da SS foi contratado em 1945 pelo CIC, onde rapidamente se tornou um dos ativos mais produtivos da agência, entrevistando e recrutando ex-oficiais da SS. Von Bolschwing foi posteriormente transferido para a CIA, onde aplicou sua experiência na Alemanha Oriental. Assim como Barbie, von Bolschwing era um criminoso de guerra de alto escalão, tendo sido um dos gurus ideológicos de Eichmann na questão judaica, ajudando-o a redigir o plano para “expurgar a Alemanha dos judeus” e roubar-lhes a riqueza.
Foi von Bolschwing quem comandou um dos massacres mais brutais da guerra: o assassinato de centenas de judeus em Bucareste. O pogromo de Bucareste é descrito com detalhes angustiantes pelo historiador Christopher Simpson em seu notável livro *Blowblack*. Como escreve Simpson: “Centenas de inocentes foram reunidos para serem executados. Algumas das vítimas foram esquartejadas em um frigorífico municipal, penduradas em ganchos para carne e marcadas com ferros em brasa como ‘carne kosher’. Foram degoladas em uma profanação intencional das leis kosher. Algumas foram decapitadas. ‘Sessenta cadáveres de judeus [foram encontrados] nos ganchos usados para corpos de bovinos’, telegrafou para Washington o embaixador estadunidense na Romênia, Franklin Mott Gunther, após o pogromo. ‘Todos haviam sido esfolados… [e] a quantidade de sangue ao redor [era uma prova de que] haviam sido esfolados vivos’. Entre as vítimas, de acordo com testemunhas oculares, havia uma menina de não mais de cinco anos, que foi abandonada pendurada pelos pés como um bezerro sacrificado, seu corpo coberto de sangue.”
Em 1954, von Bolschwing foi transferido para os Estados Unidos. Richard Helms, que havia ajudado a recrutar muitos desses criminosos, defendeu a proteção e o uso de pessoas como von Bolschwing, afirmando que “não estamos nos escoteiros. Se quiséssemos estar nos escoteiros, então teríamos nos juntado aos escoteiros”. Uma maneira típica de racionalizar superficialmente suas práticas de recrutamento.
Os responsáveis por Barbie no CIC tomaram precauções extraordinárias para proteger seu recruta. Eugene Kolb rejeitou a ideia de que Barbie pudesse ter torturado fisicamente alguém, argumentando que “ele era um interrogador talentoso” e que, por esse motivo, “Barbie não precisava torturar ninguém”. Na verdade, há provas de sobra de que Barbie era um monstro sádico cuja prioridade profissional era infligir dor e, por fim, a morte, mais do que extrair informações de forma sutil. A experiência de Barbie como torturador baseava-se no uso de chicotes, agulhas sob as unhas, drogas e, de maneira singular, eletricidade transmitida por meio de pinças nos mamilos e nos testículos. Sua carreira ascendente na SS, antecipada por suas partidas de vôlei com Heinrich Himmler em Berlim em 1940, foi abruptamente interrompida quando ele espancou Jean Moulin até a morte sem conseguir obter nenhuma informação dele. Mesmo assim, uma geração depois, Barbie e seus agentes da CIA cooperariam entusiasticamente para aplicar suas velhas técnicas a opositores de esquerda na Bolívia e em outros lugares.
No que diz respeito ao antissemitismo de Barbie, seus superiores da inteligência estadunidense chegaram a sair em sua defesa. O tenente Robert Taylor afirmou que Barbie “não era um antissemita, era simplesmente um nazista leal”. Outro relatório do CIC sustentava que Barbie “não demonstrava um entusiasmo particular pela ideia de matar judeus”. Na verdade, Barbie começou sua carreira como oficial do SD, uma subunidade da SS encarregada por Reinhard Heydrich com a tarefa de resolver o “problema” judeu o mais rápido possível.
Barbie foi transferido desse “campo de treinamento” na Holanda, em julho de 1941, para a Frente Oriental, onde se juntou às chamadas “unidades para tarefas especiais” da SS, os Einsatzgruppen. A esses esquadrões da morte móveis foi atribuída a tarefa de assassinar todos os comunistas e judeus que pudessem encontrar na Rússia ou na Ucrânia, sem levar em conta — segundo a fria expressão de Heydrich — “sua idade ou sexo”. Em menos de um ano, esses esquadrões da morte errantes sob o comando de homens como Barbie mataram mais de um milhão de pessoas. Eles serviram de modelo para os esquadrões da morte da CIA no Vietnã — o Programa Fênix da CIA e outras operações semelhantes — e na América Latina, onde equipes de assassinos patrocinadas pela CIA na Guatemala, em El Salvador, no Chile, na Colômbia e na Argentina aplicaram métodos semelhantes de terror brutal, matando centenas de milhares de pessoas. Não há nada, em termos de ferocidade, que diferencie os massacres liderados por Barbie na Europa Oriental das operações em My Lai ou El Mozote.
Recompensado com uma nova promoção por seu trabalho na Frente Oriental, Barbie foi transferido para Lyon em 1942. Uma de suas tarefas era ajudar a cumprir a recente ordem de Himmler de que a SS na França deportasse pelo menos 22.000 judeus para os campos de concentração no Leste. Barbie assumiu a tarefa com entusiasmo. Sua equipe invadiu os escritórios da Union Générale des Israelites de France em Lyon e apreendeu os registros com os endereços de órfãos e outras crianças judias. Naquele mesmo dia, Barbie prendeu mais tarde cerca de cem judeus, enviando-os para a morte em Auschwitz e Sobibor. Em seguida, Barbie dirigiu-se ao orfanato judeu de Izieu, detendo 41 crianças com idades entre três e 13 anos, juntamente com seus professores. Todos foram enviados em caminhões para os campos de extermínio nazistas. Barbie lamentava-se a seu superior em seu relatório sobre a batida na escola: “Infelizmente, nesta operação não foi possível apreender dinheiro ou objetos de valor”.
Durante sua passagem por Lyon, Barbie vivia em constante excitação diante do sofrimento dos prisioneiros que mantinha na prisão de Montluc. O SS aparentemente sentia um prazer sádico em confinar seus prisioneiros em celas por dias a fio com os cadáveres mutilados de seus amigos. Ele reunia os membros da Resistência francesa detidos para submetê-los a execuções simuladas, aplicar ferros em brasa nas solas dos pés e nas palmas das mãos, mergulhar repetidamente suas cabeças em vasos sanitários cheios de urina e excrementos, e incitar seu cão alsaciano preto, Wolf, a morder seus órgãos genitais. A tortura de Lise Leserve nas mãos de Klaus Barbie foi particularmente horrível. Ele acorrentou seu corpo nu a uma viga e a espancou com uma corrente com pontas.
Esses eram os pontos mais marcantes do histórico de serviço do homem que, em 1951, foi enviado pelos serviços de inteligência militar dos Estados Unidos, juntamente com sua família, para um apartamento seguro na Áustria. Lá, Barbie recebeu um curso intensivo de espanhol e recebeu 8.000 dólares em dinheiro. A Barbie foi fornecida, por cortesia dos falsificadores locais, uma nova identidade: Klaus Altmann, mecânico. Em uma piada sinistra, o próprio Barbie escolheu o sobrenome “Altmann”, que era o nome do rabino na cidade natal de Barbie, Trier. O rabino Altmann havia sido uma figura proeminente da resistência antinazista até 1938, quando teve de se exilar na Holanda, onde foi descoberto pelos nazistas em 1942 e enviado para a morte em Auschwitz. De Viena, os Barbie viajaram pela “rota dos ratos” de Draganovic para a Argentina e depois para a Bolívia. Um relatório interno do CIC observava triunfalmente sobre o resgate desse criminoso de guerra que “foi providenciada a disposição final de um indivíduo extremamente sensível”.
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Em 23 de abril de 1951, Klaus Barbie e sua família chegaram a La Paz, uma cidade que o jovem Che Guevara chamaria mais tarde de “a Xangai da América”. O Che, que visitou La Paz no verão de 1953, descreveu-a como habitada por “uma rica variedade de aventureiros de todas as nacionalidades”. Alguns desses aventureiros, incluindo Barbie, com quem o Che pode ter se cruzado inadvertidamente nas ruas ou nos bares de La Paz, com o passar do tempo e com a ajuda da CIA, ajudariam a rastrear e assassinar o revolucionário quinze anos depois nas selvas de Vallegrande.
Ao chegar à Bolívia, os Barbie foram calorosamente recebidos pelo padre Rogue Romac, outro dos exilados do padre Draganovic. O verdadeiro nome de Romac era Osvaldo Toth, um padre croata procurado por crimes de guerra. Toth ajudou Barbie a estabelecer um negócio lucrativo destruindo a floresta tropical da Bolívia. Os nazistas fizeram uma pequena fortuna operando serrarias nas florestas próximas de Santa Cruz e depósitos de madeira em La Paz. Mas Barbie logo começou a se sentir inquieto e não conseguiu mais esconder suas ambições políticas. Rapidamente foi recrutado e colocado em ação pelo governo protofascista de Víctor Paz Estensorro, a quem assessorou em questões de segurança interna juntamente com os exilados nazistas Heinz Wolf e um tal de Herr Müller. Müller era um ex-promotor nazista que havia condenado à morte os jovens líderes do movimento de resistência A Rosa Branca. Seu crime: ter distribuído panfletos contra os nazistas na Universidade de Munique em 1943.
Barbie se mostrou tão útil ao governante boliviano que, em 7 de outubro de 1957, ele e sua família foram recompensados com um prêmio muito cobiçado: a cidadania boliviana, um status que frustraria tentativas de extraditá-lo para a Europa. Os documentos de cidadania de Barbie foram assinados pessoalmente pelo vice-presidente boliviano Hernán Siles Zuazo, que, muitos golpes de Estado depois, seria forçado a entregar Barbie aos caçadores de nazistas franceses.
O homem que conquistou a confiança da CIA foi o general René Barrientos Ortuño. Barrientos não era um desconhecido para Barbie; na verdade, os dois já vinham conspirando secretamente para derrubar Paz Estenssoro há algum tempo. O momento chegou em 1964, quando o palácio presidencial foi invadido e Paz Estenssoro se viu diante de uma escolha simples: ele poderia “fazer uma viagem para o cemitério ou para o aeroporto”. Paz Estenssoro fez as malas e embarcou em um avião com destino à Argentina. O golpe de Estado de Barrientos levou a Bolívia de volta às garras da ditadura militar. Mas, dessa vez, o governo dos Estados Unidos não hesitou e assumiu o controle firme do exército boliviano, enviou dezenas de assessores estadunidenses a La Paz e convidou 1.600 oficiais do exército boliviano para os EUA a fim de treiná-los em bases militares estadunidenses. Esse grupo incluía vinte dos generais bolivianos de mais alto escalão.
Foi nessa época que os franceses reativaram a busca por Barbie. Começaram a procurá-lo na América do Sul e enviaram repetidamente telegramas ao governo dos EUA perguntando por seu paradeiro. Os EUA negaram possuir qualquer tipo de informação sobre seu antigo agente, mesmo quando a CIA e outras agências de inteligência sabiam muito bem que ele estava trabalhando para o regime de Barrientos. Barbie garantiu-se uma posição no corpo de segurança interna de Barrientos, conhecido como Departamento 4, de onde planejou operações de contra-insurgência e instruiu seus subordinados em técnicas nazistas de interrogatório e terror de Estado. Barbie também usou essa posição para colocar novamente em prática sua ideologia de eugenia política: nessa ocasião, suas vítimas foram as tribos indígenas bolivianas, que ele considerava genética e culturalmente inferiores.
Barrientos e Barbie não perderam tempo em atacar os mineiros de estanho, e o exército e a polícia secreta de Barbie realizaram uma série de incursões sangrentas nas quais assassinaram centenas de mineiros e sindicalistas. Os líderes dos sindicatos e dos partidos da oposição foram forçados ao exílio, levando as minas de estanho — que na época eram a principal fonte de renda da economia boliviana — à crise. Barrientos tentou substituir a renda perdida das minas pelo petróleo, concedendo enormes concessões ao redor da cidade de Santa Cruz à Gulf Oil. Em troca, Barrientos recebeu o que a empresa eufemisticamente chamou de “contribuições de campanha”. A Gulf também presenteou Barrientos com um helicóptero, um presente que a empresa garantiu ter feito por instruções da CIA. Como veremos, foi um presente que voltaria para perseguir o general.
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Os movimentos revolucionários se multiplicavam por toda a América Central e do Sul, e a CIA temia, com razão, que a Bolívia, com sua mistura de camponeses indígenas e grupos sindicais radicais, fosse um terreno fértil para a revolta.
Os dois nazistas uniram forças para criar a Transmaritania, uma empresa de logística que, com o passar do tempo, geraria milhões em lucros. Barbie dividiu os lucros convidando para o conselho de administração de sua empresa alguns dos figurões do governo boliviano, incluindo o chefe das Forças Navais da Bolívia, o chefe do Estado-Maior do Exército e o diretor da polícia secreta boliviana, o general Alfredo Ovando Candía. Essa empresa de logística começou transportando farinha, algodão, estanho e café, mas logo passou a lidar com uma carga muito mais lucrativa: drogas e armas. A fonte da maioria dessas armas, incluindo lanchas militares, tanques e aviões de combate, enviadas por Barbie e Schwend a regimes por toda a América do Sul, era uma empresa sediada em Bonn chamada Merex.
A Merex era controlada por outro ex-nazista protegido pelos EUA: o coronel Otto Skorzeny, o paraquedista favorito de Hitler e o homem que havia resgatado Benito Mussolini da prisão. Durante o auge da Contra, a operação de Oliver North conseguiria que a Merex fechasse um acordo de armamento de dois milhões de dólares, ressaltando assim a continuidade das alianças com nazistas em todas as agências estadunidenses: da Inteligência Militar à OSS, à CIA e ao Conselho de Segurança Nacional de Reagan. Pelo menos uma das pessoas ligadas à Transmaritania era um agente da CIA: Antonio Arguedas Mendieta, que atuou como ministro do Interior durante o regime de Barrientos e estava na folha de pagamento da CIA há muitos anos quando começou a fazer negócios com Barbie.
Um ano depois de Barrientos assumir o poder, Che Guevara desapareceu do radar da CIA. O diretor da CIA, Richard Helms, acreditava que o revolucionário havia sido assassinado após um rompimento com Fidel Castro, na sequência da defesa veemente do Che de manter uma linha revolucionária num momento em que Fidel estava moderando sua retórica. Helms estava enganado. O Che havia passado mais de um ano nas selvas do Congo, ajudando a orquestrar um movimento revolucionário para derrubar o ditador Mobutu, instalado pela CIA. Mais tarde, em 1967, agentes da CIA souberam que o Che estava liderando uma revolução entre os camponeses nos Andes bolivianos. Um esquadrão especial de agentes da CIA e boinas verdes foi enviado a La Paz. Quatro dos novos assessores eram veteranos cubanos de planos anteriores da CIA contra o Che e Castro, incluindo Aurelio Hernández e Félix Rodríguez.
Nesse momento crítico, a CIA, mais uma vez, recorreu a Barbie em busca de ajuda. Atuando através de intermediários do governo de Barrientos, como Ovando Candía e Arguedas, a agência abriu um canal de comunicação com Barbie que duraria toda a década de 1970, e ele enviava um fluxo constante de informações aos seus superiores em Langley. É quase certo que Barbie, graças à sua proximidade com o general Ovando Candía, desempenhou um papel na localização e no assassinato do Che.
Assim como faziam os nazistas, o general Ovando Candía exigiu uma prova da identidade do Che depois que ele havia sido fuzilado por ordem de Barrientos. O general inicialmente ordenou que o Che fosse decapitado e que sua cabeça fosse enviada para La Paz. Félix Rodríguez, o agente da CIA que roubou o relógio do Che e um saco de tabaco para seu cachimbo do cadáver, afirma que convenceu o general de que fazer algo assim seria contraproducente. Ovando cedeu, ordenando, em vez disso, que as mãos do Che fossem amputadas e embalsamadas. Seu corpo foi enterrado perto de uma pista de pouso em Vallagrande e exumado e devolvido a Cuba em 1997.
As mãos preservadas do Che e seu diário acabaram finalmente nas mãos do ministro do Interior (e agente da CIA) Antonio Arguedas. Mas, em 1968, Arguedas desertou do regime de Barrientos, divulgou secretamente o diário do Che sobre sua campanha na Bolívia e fugiu para Cuba com as mãos embalsamadas do líder guerrilheiro.
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Em 1969, Barrientos faleceu quando seu helicóptero da Gulf Oil caiu em circunstâncias suspeitas. Sua morte abriu caminho para a curta presidência do general Ovando Candía. O governo de Ovando Candía durou menos de um ano antes de ele perder as eleições para o general nacionalista Juan José Torres. Torres libertou da prisão os companheiros do Che, Régis Debray e Ciro Bustos, e fez aberturas ousadas ao governo chileno de Salvador Allende e à Cuba de Castro. Seu governo também expropriou terras pertencentes a empresas estrangeiras, incluindo as lucrativas concessões mineradoras controladas pela Gulf Oil.
Essa reviravolta nos acontecimentos não foi bem recebida pela CIA, que tanto havia investido na Bolívia. Planejou-se outro golpe. Desta vez, o general escolhido foi Hugo Banzer Suárez, um homem treinado pelo exército estadunidense em Fort Hunt, na chamada Escola de Golpes (a Escola das Américas), no Panamá. Banzer mostrou-se um aluno aplicado e ganhou a Ordem do Mérito Militar do Exército dos EUA. Ele também era um velho conhecido de Klaus Barbie, que desempenhou um papel crucial nesse golpe.
O golpe contra o presidente Torres ocorreu em agosto de 1970. Uma semana antes, Torres havia planejado viajar a Santiago do Chile para se reunir com Allende. Mesmo para o que se vivia na Bolívia, a derrubada do governo de Torres foi notória por sua extrema violência e pelos esforços que o novo regime adotou para erradicar os elementos de esquerda do país. As universidades, consideradas “focos” de radicalismo, foram fechadas; os mineiros de estanho foram novamente reprimidos; e mais de 3.000 sindicalistas e militantes de esquerda foram presos para interrogatório e “desapareceram”. A embaixada soviética foi fechada e as relações com Cuba e o Chile esfriaram. A Gulf Oil foi generosamente indenizada por seus ativos expropriados.
Barbie justificou a natureza violenta do golpe de Banzer ao jornalista brasileiro Dantex Ferreira, argumentando que as simpatias de esquerda de Torres representavam uma ameaça para toda a América do Sul. “O que a Bolívia fez em 1967 para se defender contra um golpe do Che Guevara foi condenado em muitos lugares do mundo”, afirmou Barbie. Por seu papel ao ajudar na conspiração para o sangrento golpe de Banzer, Barbie foi nomeado coronel honorário e tornou-se assessor remunerado tanto do Ministério do Interior quanto do notório Departamento 7, o braço de contra-insurgência do Exército boliviano. Ambas as instituições foram infiltradas e amplamente financiadas pela CIA. Além disso, tanto os registros da CIA quanto do Executivo boliviano mostram que Barbie repassou informações à CIA sobre pessoas suspeitas de serem agentes soviéticos e cubanos na América do Sul. Barbie também enviou a Langley cópias de documentos que roubou da embaixada peruana e informações sobre as operações da agência de inteligência chilena, a DINA.
Um relatório boliviano sobre Barbie não poupa elogios ao seu serviço ao governo de Banzer: “Um dos aspectos mais importantes do trabalho de Barbie foi aconselhar Banzer sobre como adaptar efetivamente o exército para a repressão interna, em vez de para a agressão externa. Muitas das características do exército, que mais tarde se tornariam norma, foram desenvolvidas pela primeira vez por Barbie no início dos anos 70. O sistema de campos de concentração… tornou-se uma norma para prisioneiros políticos e militares de destaque.”
Os nazistas continuaram assessorando a polícia secreta militar sobre métodos de interrogatório de prisioneiros, que parecem não ter evoluído muito desde os dias de Barbie em Lyon. “Com Barbie, eles [o exército boliviano] aprenderam a usar técnicas de eletrochoque e a supervisão médica para manter o suspeito vivo até que tivessem acabado com ele.”
O governo boliviano pagava a Barbie 2.000 dólares por mês por seus serviços de consultoria. Mas isso representava uma pequena parte de sua renda, já que ele também obtinha enormes lucros com a venda de armas ao exército boliviano. Muitas dessas compras foram pagas com fundos fornecidos pelo exército estadunidense, que apoiava financeiramente as forças armadas bolivianas.
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Os anos 70 foram uma década próspera para Barbie, que proferia inúmeras palestras sobre o novo fascismo sul-americano, frequentemente em vigílias à luz de velas nos chamados auditórios de Thule, decorados com bandeiras nazistas e demais iconografias do Terceiro Reich. Esse criminoso de guerra também viajava livremente: no final dos anos 60 e 70, Barbie visitou os EUA pelo menos sete vezes e, incrivelmente, também voltou à França, onde afirmou ter depositado uma coroa de flores no túmulo de Jean Moulin.
Os padres e missionários católicos eram um dos grupos que Barbie e Banzer perseguiam com especial zelo, já que Banzer acreditava que eles haviam sido “infiltrados por marxistas”. Padres foram presos para serem interrogados, e foram perseguidos, torturados e assassinados.
A organização criminosa de Suárez seria conhecida como a Máfia de Santa Cruz e detinha o quase monopólio das plantações de cocaína mais produtivas do mundo: 80% da cocaína mundial era produzida em suas plantações no Alto Beni. Suárez era o principal fornecedor de folhas e pasta de cocaína para o cartel de Medellín e possuía uma das maiores frotas aéreas privadas do mundo, que utilizava para transportar a maior parte de sua pasta de cocaína para os laboratórios colombianos. Os aviões que transportavam a cocaína decolavam de um aeródromo privado pertencente à rede de Suárez. O restante da pasta de cocaína era enviado para a Colômbia por meio da empresa de Barbie, a Transmaritania.
À medida que a operação de Suárez crescia para se tornar um império avaliado em bilhões de dólares, ele recorreu a Barbie para que o ajudasse com seus crescentes problemas de segurança. Barbie reuniu diligentemente seu bando de narcomercenários, que o nazista havia batizado de “Os noivos da morte”. Entre suas fileiras havia dois ex-oficiais da SS, um terrorista supremacista da Rodésia e Joachim Fiebelkorn, um neofascista de Frankfurt.
Barbie designou quinze guarda-costas para Suárez, para que vigiassem todos os seus passos. Ele garantiu que os clientes colombianos pagassem suas encomendas e enviou bandos armados de “Os Noivos da Morte” em incursões na selva para destruir as operações de traficantes rivais. As armas dos homens de Barbie eram fornecidas, gratuitamente, pelo governo de Banzer, que, por sua vez, as havia comprado da empresa de armas de Barbie.
Em meados da década de 1970, a economia boliviana estava em ruínas. Banzer, seguindo o conselho de seu bom amigo de Santa Cruz, Roberto Suárez, elaborou um plano ousado para salvar a Bolívia: ordenou que se plantasse coca nos campos de algodão que enfrentavam dificuldades econômicas. Entre 1974 e 1980, a área destinada à produção de cocaína triplicou, levando um agente da DEA a observar que “alguém por lá plantou um monte de plantas”. Esse enorme aumento na oferta fez com que o preço da cocaína caísse drasticamente, alimentando um novo mercado e, com ele, o auge dos cartéis da Colômbia. Enquanto o preço da cocaína nas ruas em 1975 era de 1.500 dólares por grama, em 1986 havia caído para 200 euros por grama.
“Os líderes do exército boliviano começaram a exportar cocaína e pasta base como se fosse um produto legal, sem qualquer pretensão de controle de narcóticos”, lembrava um ex-agente da DEA, Michael Levine. “Ao mesmo tempo, houve um aumento tremendo da demanda dos EUA. A ditadura boliviana rapidamente se tornou a principal fonte de abastecimento dos cartéis colombianos, que se formaram durante esse período. E os cartéis, por sua vez, tornaram-se os principais distribuidores de cocaína em todos os Estados Unidos. Esse foi realmente o início da explosão do tráfico de coca nos anos 80.”
Para ajudar na causa, Barbie contou com a ajuda do terrorista italiano Stefano “Alfa” Delle Chiaie. Naquela época, Delle Chiaie era procurado pela polícia após o assassinato, em Washington D.C., do chileno Orlando Letelier, cometido por um parceiro do italiano, Michael Townley, o agente norte-americano a serviço da polícia secreta de Pinochet. Delle Chiaie trouxe consigo para a Bolívia um grupo de 200 terroristas argentinos, veteranos da “guerra suja”. Em uma referência aos assassinos de William Colby no Vietnã, Delle Chiaie chamou seu bando de sicários de “os comandos Fénix”.
Delle Chiaie tinha suas próprias ligações com a CIA, que remontavam ao final da Segunda Guerra Mundial. O jovem italiano, que havia construído uma carreira nas gangues de rua de Roma e Nápoles, tornou-se protegido do conde Junio Valerio Borghese, o fascista italiano conhecido como “o príncipe negro”. Borghese havia chefiado o aparato de inteligência de Mussolini e caçado e assassinado milhares de combatentes da resistência italiana. No final da guerra, Borghese foi capturado pelos comunistas italianos, que queriam executar o carniceiro por seus crimes. Mas o lendário agente da CIA James Jeus Angleton, então na OSS, ao saber do destino que pesava sobre “o príncipe negro”, correu para Milão e salvou Borghese do pelotão de fuzilamento. “O príncipe negro” passou alguns meses na prisão e depois passou a trabalhar na campanha da CIA para suprimir a esquerda italiana.
Delle Chiaie foi recrutado de sua gangue de rua pelo grupo neofascista P-2, no qual intimidou comunistas italianos, iniciou uma série de atentados a bomba e, em 1969, planejou um golpe de Estado contra o governo italiano. Quando o golpe fracassou, Delle Chiaie e Borghese fugiram para a Espanha de Franco, onde supervisionaram ataques secretos contra os independentistas bascos. De Madri, Delle Chiaie relançou sua carreira como consultor internacional sobre terrorismo de extrema direita, prestando serviços a Jonas Savimbi, líder das forças da UNITA em Angola apoiadas pela CIA, a José López Rega, o arquiteto dos esquadrões da morte da Argentina, e ao ditador chileno que a CIA ajudou a chegar ao poder, Augusto Pinochet.
Em 17 de julho de 1980, ocorreu o golpe da cocaína na Bolívia. Jornais e estações de rádio progressistas foram bombardeados, as universidades foram fechadas e as tropas mascaradas de Barbie e Delle Chiaie, armadas com metralhadoras, varreram as ruas de La Paz atirando de dentro de ambulâncias. Eles convergiram para o centro da resistência, o prédio da COB, sede do sindicato nacional da Bolívia. Lá dentro estava Marcelo Quiroga, um líder sindicalista recém-eleito deputado e que havia convocado uma greve geral. As portas foram dinamitadas e “Os noivos da morte” entraram abrindo fogo. Quiroga foi rapidamente localizado e abatido. Gravemente ferido, ele e dezenas de sindicalistas foram levados para os quartéis do exército, onde foram espancados e torturados com choques elétricos, conforme ordenado por Barbie. As mulheres foram estupradas. O cadáver de Quiroga foi encontrado três dias depois nos arredores de La Paz, crivado de tiros, espancado, queimado e castrado.
No dia seguinte, o general García-Meza tomou posse como novo presidente da Bolívia. Sem demora, nomeou o general Arce Gómez ministro do Interior. Barbie foi escolhido como chefe das forças de segurança interna da Bolívia e a Delle Chiaie foi atribuída a tarefa de garantir o apoio internacional ao regime, que veio rapidamente da Argentina, do Chile, da África do Sul e de El Salvador.
Nas semanas seguintes ao golpe, milhares de líderes da oposição foram detidos e levados ao maior estádio de futebol de La Paz. Seguindo o precedente da Argentina, foram fuzilados em massa e seus cadáveres foram jogados nos rios e barrancos nos arredores da capital. Os Noivos da Morte começaram a vestir uniformes confeccionados à imagem dos da SS, e Arce Gómez e Barbie os mobilizaram para reprimir “o crime organizado”.
Em uma demonstração de apoio à guerra internacional contra as drogas, o novo regime boliviano rapidamente lançou uma campanha contra o tráfico de drogas. Barbie foi nomeado seu supervisor. A operação tinha três objetivos: amenizar as críticas dos EUA e da ONU ao papel da Bolívia no tráfico de drogas, eliminar 140 rivais do monopólio de Suárez e reprimir impiedosamente os opositores políticos ao regime. Estima-se que, durante o ano seguinte, os generais envolvidos no negócio da cocaína embolsaram cerca de dois bilhões de dólares com o tráfico de drogas. No fim, a situação na Bolívia tornou-se tão escandalosa que os patrocinadores do regime nos EUA decidiram retirar seu apoio. García-Meza foi obrigado a renunciar em agosto de 1981 e deixou a Bolívia como um homem rico, consolidando a posição de seu país como principal fornecedor de cocaína.
Barbie e Delle Chiaie permaneceriam na Bolívia por mais um ano e meio. A polícia italiana e a DEA estadunidense haviam planejado uma operação para capturar Delle Chiaie em 1982, mas este havia fugido da Bolívia após ser alertado por um contato seu na CIA. Em 25 de janeiro de 1983, Barbie foi preso e posteriormente entregue aos franceses. Ele foi extraditado para a França, onde foi julgado e encarcerado na prisão de Montluc, palco de muitos de seus crimes. Após sua prisão, Barbie foi questionado por um jornalista francês se sentia algum tipo de remorso. “Pessoalmente, não tenho remorso”, respondeu ele, “se houve erros, houve erros. Mas um homem precisa ter uma linha de trabalho, não é?”
Mas enquanto Barbie definhava na prisão, o império da cocaína que ele ajudara a construir prosperava. Mais ainda, depois que os mentores do golpe da cocaína fugiram, a situação se deteriorou. A quantidade de cocaína produzida na Bolívia disparou de 35.000 toneladas métricas anuais em 1980 para 60.000 toneladas métricas anuais no final dos anos 80. Quase toda a produção era destinada à venda nos EUA. A cocaína representava 30% do PIB do país. Em 1987, a Bolívia arrecadava três bilhões de dólares por ano com a venda de cocaína, mais de seis vezes o valor do restante de suas exportações. Em 1998, estimava-se que 70.000 famílias bolivianas dependiam do cultivo da coca, apesar de ganharem menos de 1.000 dólares por ano por seu árduo trabalho. “Se o tráfico de drogas desaparecesse da noite para o dia, haveria desemprego galopante”, comentou Flavio Machicado, ex-ministro das Finanças da Bolívia, “haveria protestos e violência aberta.”
Nos anos 80, a DEA e a CIA viajaram para a Bolívia para treinar e armar as tropas de choque bolivianas contra o tráfico de drogas, os Leopardos. Logo se descobriu que muitos dos Leopardos haviam iniciado uma parceria lucrativa com os plantadores de coca e os traficantes de drogas. Uma investigação do Congresso dos EUA em 1985 revelou que “nem um único hectare de coca foi erradicado desde que os EUA estabeleceram seu programa de assistência contra o tráfico de drogas em 1971”.
Sobre a reportagem
Esta reportagem tem origem em uma série de artigos que escrevi para a edição impressa da CounterPunch e outras revistas do noroeste dos Estados Unidos, hoje extintas, como a Ilium’s Burning (sobre a rede Gehlen) e a Pseudotsuga (sobre a “Operação Paperclip”), sobre o recrutamento por agências de inteligência estadunidenses e a contratação de criminosos de guerra nazistas após a Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, foram publicados no livro Whiteout: the CIA, Drugs and the Press (Verso, 1998). Grande parte dos documentos sobre a relação de Klaus Barbie com as agências de inteligência estadunidenses provém do elaborado relatório de Allan Ryan para o Departamento de Justiça dos EUA, cujas conclusões, apesar de tudo, são uma tentativa de branquear essa colaboração. Ryan afirma, de forma inacreditável, que Barbie era apenas um criminoso de guerra nazista, a quem as agências de inteligência estadunidenses ajudaram a fugir da Europa, e sustenta que os EUA não tiveram nenhum contato com Barbie após sua chegada à América do Sul. Ambas as afirmações são ridículas. Três livros indispensáveis sobre a carreira de Barbie como nazista e a serviço das agências de inteligência estadunidenses são Klaus Barbie, de Tom Bower; The Nazi Legacy, de Manus Linklater e Neal Ascherson; e Klaus Barbie, de Erhard Dabringhaus (um dos responsáveis por Barbie no aparato de inteligência estadunidense). O épico documentário de Marcel Ophuls, *Hotel Terminus: a vida e a época de Klaus Barbie*, também foi uma fonte importante na redação deste texto. O comércio de cocaína da Bolívia é detalhado minuciosamente em Cocaine Wars, de Paul Eddy. Michael Levine oferece um relato arrepiante do golpe da cocaína de 1980 em seu livro, The Big White Lie. Drug War Politics, de Eve Bertram e outros, é a melhor compilação que encontrei sobre os fracassos da política estadunidense contra o narcotráfico desde Reagan para os países da América Latina e para os próprios EUA.
Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.
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