“Caminhos do Desejo” revisita filme perdido e recoloca SC na história do Cinema Novo

Foto: Reprodução

Entre arquivos, latas de filme e memórias fragmentadas, o documentário “Caminhos do Desejo” resgata a trajetória de “O Preço da Ilusão”, considerado o primeiro longa-metragem produzido em Santa Catarina. A obra é dirigida pelo cineasta catarinense Andrei Santiago, formado em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e parte de uma pergunta central: como contar a história de um filme que praticamente desapareceu?

“Grande parte dele se perdeu. Então, só temos nove minutos, aí sete minutos finais se salvaram”, afirmou Andrei em entrevista ao Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras (JTT). O material remanescente foi encontrado apenas na década de 1980, preservado na Cinemateca. O restante se perdeu em meio à precariedade das políticas de preservação audiovisual da época e às dificuldades estruturais enfrentadas pela produção.

Produzido por Armando Carreirão e dirigido por Nilton Nascimento, “O Preço da Ilusão” teve no núcleo criativo os nomes de Iglê Malheiros e Salim Miguel, com colaboração de Emanuel Santos. Iglê se destaca como a primeira mulher roteirista de um longa-metragem em Santa Catarina. Segundo Andrei, “a parte mais criativa, que eu diria, é o roteiro da Iglê Malheiros e do Salim Miguel”, ressaltando a influência decisiva dela na construção da obra.

A estreia do filme, nos anos 1960, foi marcada por problemas técnicos. “Teve problemas de montagem, teve problemas de som do filme, questões de continuidade”, relatou o diretor. Parte do material precisou ser enviada a São Paulo para finalização, prática comum naquele período. Com o tempo, consolidou-se a narrativa de que o longa teria sido um fracasso.

O documentário questiona essa leitura. “O meu documentário questiona o que significa fracasso nesse contexto”, afirmou Andrei. Ele argumenta que, apesar das falhas técnicas, a produção movimentou a cidade e projetou Santa Catarina nacionalmente. “Eles fizeram Florianópolis ser colocada no mapa naquela época. Tem jornais de todo o Brasil falando de Florianópolis como uma vanguarda do cinema em Santa Catarina.”

O filme também dialoga com o movimento do Cinema Novo, que marcou o cinema brasileiro nas décadas de 1960 e 1970. “O Preço da Ilusão está colocado nesse movimento de uma maneira muito curiosa”, disse Andrei. Pouco depois da estreia, foi organizada a primeira Semana de Cinema Novo em Santa Catarina, em 1962. “Santa Catarina é meio que a vanguarda do Cinema Novo no Brasil, só que isso não aparece muito porque o filme em si é difícil de ver”, avaliou.

A pesquisa para o documentário levou cerca de dois anos e envolveu trabalho em arquivos e entrevistas. Andrei consultou o acervo do Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e utilizou entrevistas históricas de Iglê Malheiros e Salim Miguel gravadas nos anos 1980 pelo Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Também ouviu pesquisadores e cineastas como Marco Stroit, Zeca Pires, Adriane Canan, Maria Emília de Azevedo, Cândido Gazzone, Katia Klock e Detto, que participou das filmagens ainda criança.

Além do resgate histórico, o documentário propõe uma reflexão sobre o cenário atual. Para Andrei, “fazer cinema em Santa Catarina ainda é um ato político, é um ato de resistência”. Ele aponta a instabilidade nos editais de fomento e as oscilações nos investimentos públicos como desafios permanentes para o setor.

“Santa Catarina nem sempre foi esse estado marcado agora pelo conservadorismo”, afirmou. “Fazer um filme aqui é fazer um filme brasileiro também.”

A pré-estreia de “Caminhos do Desejo” ocorre no dia 27 de fevereiro, às 19h, no Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis. Após a exibição, haverá debate com o público e convidados. A entrada é gratuita.


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