Movimento estudantil, subsídio e “falácias”: Ricardo Freitas analisa a crise do transporte na Grande Florianópolis

Foto: Reprodução

Redação.- Com a passagem municipal em Florianópolis custando R$ 7,70 e as tarifas intermunicipais executivas na Grande Florianópolis girando, em média, em torno de R$ 14,00 a R$ 14,40, o debate sobre transporte público voltou ao centro das discussões na capital catarinense. Manifestações estudantis, denúncias de precarização e anúncios de grandes obras estaduais escancaram prioridades distintas quando o assunto é mobilidade.

Movimento estudantil e desorganização popular

Para o economista e advogado Ricardo Freitas, especialista em transporte coletivo, o movimento estudantil tem papel histórico nas lutas por tarifa zero e transporte acessível na região. Segundo ele, no entanto, falta articulação mais ampla:

“A importância do movimento estudantil é muito grande, assim como a dos sindicatos. Mas falta organização popular, falta presença das centrais sindicais, falta uma política clara dos partidos comprometidos com o interesse público.”

Ricardo avalia que muitas mobilizações acabam deixando o ônus jurídico e financeiro para poucas entidades, o que desestimula novas ações mais estruturadas.

A tarifa se justifica?

Questionado sobre o valor cobrado, ele afirma que a tarifa só não é ainda maior em Florianópolis devido ao subsídio milionário pago pela prefeitura às empresas. Na região metropolitana, onde não há o mesmo subsídio municipal, as passagens ultrapassam facilmente os R$ 14,00.

“O argumento de que não há subsídio é uma falácia. A própria exorbitância da tarifa já funciona como subsídio.”

Ele questiona os cálculos da chamada “tarifa técnica” e critica a estrutura de custos do sistema, incluindo a privatização da infraestrutura dos terminais urbanos, cuja gestão foi transferida à iniciativa privada durante a administração da ex-prefeita Ângela Amin.

Segundo ele, a taxa de utilização paga pelos ônibus nos terminais, que em outros municípios é destinada ao poder público, em Florianópolis é repassada à própria estrutura privada ligada às empresas operadoras.

Fundo municipal e tarifa zero

Ricardo defende que a implantação da tarifa zero é viável. Ele cita como exemplo um projeto de lei que redigiu em Blumenau, criando um Fundo Municipal de Financiamento do Transporte, com fontes de receita que não dependem de novos impostos, como taxas para grandes empreendimentos, parte das multas de trânsito e receitas vinculadas à mobilidade urbana.

“O começo é planejamento: paralisa os aumentos e depois reduz gradualmente.”

Ele lembra que capitais como São Paulo e Belo Horizonte já adotam gratuidade em dias específicos, e que municípios de porte médio como Caucaia mantêm políticas de tarifa zero.

Infestação de insetos em ônibus

Enquanto o debate sobre financiamento estrutural avança lentamente, usuários denunciam problemas básicos no cotidiano do sistema.

Foram publicados nas redes sociais vídeos gravados nas linhas 221 (Tican/Ticen via Mauro Ramos) e 210 (Tican/Ticen Direto) que registram infestação de insetos dentro dos veículos.

Uma passageira relatou que precisou avisar outra usuária sobre uma barata subindo em seu cabelo. Segundo ela, os insetos circulavam pelo chão, janelas e até pela cabine do motorista.

O Consórcio Fênix, responsável pela operação do sistema na capital, informou que realiza dedetização semestral e que o veículo em questão passou por nova aplicação após a denúncia. A empresa também afirmou que estuda a troca do fornecedor do serviço e a adoção de novos procedimentos.

A situação, no entanto, reforça a insatisfação de usuários que pagam uma das tarifas mais altas do país e convivem com falhas estruturais.

Bilhões para a Via Mar e Marina

No mesmo período em que a discussão sobre transporte coletivo se intensifica, o governo estadual anunciou novos investimentos em grandes obras.

Durante evento de assinatura da licença ambiental para o Parque Urbano e Marina Beira-Mar, o governador Jorginho Mello confirmou o início da Via Mar, rodovia paralela à BR-101, com investimento estimado entre R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão, a ser posteriormente concedido via parceria público-privada.

O governador também destacou o aprofundamento do canal de acesso à Baía da Babitonga, no Norte do estado, obra de R$ 330 milhões executada pela iniciativa privada, além do investimento de R$ 350 milhões na Marina Beira-Mar.

Para críticos, os anúncios evidenciam uma prioridade clara: expansão rodoviária, portuária e empreendimentos náuticos avançam com rapidez, enquanto o transporte coletivo urbano permanece marcado por impasses, subsídios diretos às empresas e ausência de uma política estruturante de acesso universal.

Duas lógicas de mobilidade

De um lado, projetos bilionários estruturados em modelos de concessão e parceria público-privada.
De outro, estudantes e trabalhadores enfrentando tarifas elevadas, precarização do serviço e episódios que colocam em jogo a qualidade básica do sistema.

A mobilidade urbana em Florianópolis parece operar sob duas lógicas distintas: uma voltada à infraestrutura de grande escala e outra, cotidiana, que segue sem solução definitiva.

E no meio desse contraste, permanece a pergunta central: quem é, de fato, a prioridade quando se fala em transporte?

Assista à entrevista com Ricardo Freitas


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