O efeito Flávio Bolsonaro na musculatura de Jorginho Mello. Por Amanda Miranda.

Por Amanda Miranda.

É como se Jorginho Mello tivesse injetado testosterona na sua musculatura eleitoral. O efeito da cada vez mais confirmada candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência causou um impacto real na cena pré-eleitoral de Santa Catarina, empoderando a ala ideológica do bolsonarismo e fazendo o governador pisar e escantear aliados políticos previsíveis que já estavam com um pé no seu palanque.

Estou falando do Centrão, especialmente da federação União-Progressistas e do MDB, que estão na base de sustentação política de Jorginho Mello e que perderam a vaga mais robusta que Jorginho tinha a oferecer em uma aliança: a de candidato a vice. Jorginho escolheu para seu vice Adriano Silva (Novo), prefeito de Joinville cortejado por ser uma novidade com alta aprovação e volume de votos.

“A direita se uniu em Santa Catarina. Que seja exemplo para o Brasil”, diz a legenda do vídeo no qual o governador apresenta a aliança. Um soco direto no MDB, que era visto por parte da ala ideológica do PL como uma aliança arriscada por compor com o governo Lula na cena federal.

A presença do 22 na urna na disputa à presidência deu robustez ao projeto de reeleição do governador, que tem alta aprovação. Mas seu movimento não deixa de ser arriscado. Jorginho pode ter jogado o MDB para fora do seu palanque e não vão faltar braços para acolhê-los. Hoje, o principal adversário do governador é o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), que atualmente também tem um nome presidenciável para chamar de seu na urna, o de Ratinho Junior. O PT também ensaia uma tentativa de aproximação com a sigla.

O gesto de Jorginho antecipa um possível movimento: o de bancar a chapa Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni para o Senado. Isso porque a vaga do senado que hoje estaria com Esperidião Amin (Progressistas) passa a ser ainda mais cobiçada pelos partidos do centrão. Uma saída à direita agradaria à base radical e à família Bolsonaro, que sempre manifestou apoio a essa configuração.

Com três partidos escanteados de uma vez só para acolher o pequeno e pouco expressivo Novo, Jorginho também anula um adversário político e corta suas asas em pleno voo. Analistas atentos sabem que Adriano Silva é uma promessa da política catarinense e uma ameaça à perpetuação do governador no poder. Começar seu voo fora de Joinville na vaga de vice é praticamente se enterrar em meio a raposas faltando ainda metade do mandato de prefeito que poderia lhe alçar para lugares mais expressivos.

Esquerda com balão de ensaio

E para onde foi a esquerda nisso tudo? Para um lugar que não chega a ser surpreendente, mas que levanta muitas questões. Desde o início da semana, um comunicador aqui, outro ali, começou a propagar o nome do ex-deputado Gelson Merísio como um possível candidato pelo PSB, com apoio do PT. Ontem, sexta-feira, uma foto dele com Décio e Ana Paula Lima mostrou que a aproximação existe e é concreta.

Neste cenário, Décio Lima, que foi candidato ao governo e chegou ao segundo turno em 2022, sairia como senador. Também neste cenário, não haveria o número 13 na urna regional, enfraquecendo ainda mais a candidatura do presidente Lula em Santa Catarina. A ação, no entanto, também foi articulada com o presidente, que está a par de tudo o que acontece por aqui.

Outro risco de uma aliança inesperada destas é perder um espaço importante no debate público para levantar pautas progressistas e contrapor os discursos de ódio e intolerância que se multiplicam no Estado. Um candidato sem identificação histórica com a esquerda não é capaz de fazer isso.

É nítido e visível que a esquerda não vai entrar na majoritária para vencer a eleição, mas pode entrar para fazer uma bela campanha de resgate de valores da democracia, da justiça social e dos direitos humanos. Para isso, precisa de alguém bom de conversa, que esteja nesta luta e que enfrente e confronte adversários extremistas sem medo.

Outra proposta que começa a surgir é a de dialogar com o MDB a partir do “fora” que a sigla tomou de Jorginho Mello. Conversar não custa nada e este seria um desenho inédito na cena local. Para quem não lembra, a última vez que MDB e PT estiveram juntos no palanque foi em 2002, na primeira eleição do presidente Lula, quando Santa Catarina compôs a onda de apoio ao partido e Luiz Henrique da Silveira precisou dele para vencer Esperidião Amin no segundo turno.

Embora o discurso de lideranças pareça alinhado na direção de que buscar a polarização não seria um bom negócio, a militância tem todo o direito de estranhar. Meses atrás, o nome do ex-senador Paulo Bauer foi levantado como boia de salvação e a repercussão foi a pior possível. É nítido que o eleitor progressista de Santa Catarina está mais próximo de alguém que venda uma imagem de resistência do que de conciliação em um cenário de radicalização à direita.

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