
Luiza Soeiro para Desacato.info
O ano de 2026 mal começou e Santa Catarina já soma quatro feminicídios em apenas nove dias. A rapidez com que os números se acumulam não só revelam uma sequência de crimes, já conhecida, mas expõe uma estrutura social que naturaliza a violência de gênero e falha sistematicamente em proteger mulheres.
Na manhã de 9 de janeiro, o Oeste catarinense foi palco de um crime brutal. Em União do Oeste, Juvilete Kviatkoski e sua filha, Mariana Vitória Cuochinski, de apenas 15 anos, foram assassinadas dentro de casa pelo companheiro e pai das vítimas. O duplo feminicídio escancara um fato conhecido, o agressor costuma estar dentro do lar.
Poucos dias antes, em Chapecó, Marivane Fátima Sampaio foi morta após ser atacada pelo ex-companheiro, que não aceitava o fim do relacionamento. A agressão ocorreu na noite de 2 de janeiro, e a vítima não resistiu aos ferimentos. Mais um caso em que o término de uma relação é tratado como afronta, e não como direito.
O primeiro dia do ano também foi marcado por violência extrema. Em São João Batista, na Grande Florianópolis, Stephanny Cassiana foi assassinada ao tentar proteger uma amiga e a filha dela de um homem agressor. Morreu por intervir, por não se calar, por tentar impedir mais uma tragédia anunciada.
Esses crimes não são fatos isolados. Em Santa Catarina, a violência contra mulheres segue alarmante. Em 2024, o estado registrou 51 feminicídios, mantendo a média de uma mulher assassinada por semana. Somente até novembro de 2025, já haviam sido contabilizados ao menos 47 casos, mostrando que a tendência permanece alta. Além disso, mais de 30 mil medidas protetivas foram solicitadas no último ano, enquanto cerca de 26% delas foram descumpridas, escancarando a fragilidade da rede de proteção. Nos últimos dez anos, o número ultrapassa 500 mulheres mortas por violência de gênero em território catarinense, revelando um problema estrutural, contínuo e negligenciado pelo poder público.
Mesmo diante dessa realidade alarmante, o poder público segue falhando. Apenas 10% dos municípios brasileiros contam com Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher. Em Santa Catarina, não há sequer uma unidade da Casa da Mulher Brasileira. A ausência de políticas públicas, de investimentos e de uma rede de proteção eficiente transforma o Estado em cúmplice por omissão.
Stephanny, Marivane, Juvilete e Mariana não são estatísticas. São mulheres arrancadas da vida por um sistema que tolera a violência, protege agressores e abandona vítimas. Enquanto o discurso oficial fala em segurança, os corpos seguem caindo.
Chega de feminicídio.
As mulheres querem, e precisam viver.
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