Após um mês de protestos contra as medidas econômicas do presidente Daniel Noboa, especialmente a eliminação do subsídio ao diesel, que elevou o preço do galão de 1,80 para 2,80 dólares, a Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) anunciou nesta quarta-feira o “fim da greve” diante da repressão brutal das forças de segurança contra os manifestantes, que deixou três mortos, 296 feridos, 205 detidos e 15 desaparecidos temporariamente, segundo a Aliança pelos Direitos Humanos do Equador.
Em um discurso divulgado pelas redes sociais da Conaie, seu presidente, Marlon Vargas, declarou: “Diante dessa realidade, tomamos uma decisão difícil, mas necessária: o fim da greve, desobstruir as vias e nos retirar para nossos territórios para proteger a vida de nosso povo”.
O líder indígena exigiu ao presidente Daniel Noboa “desmilitarizar nossas comunidades, libertar os detidos e indenizar as famílias das vítimas”. Ele pediu às bases que continuassem e ampliassem o horizonte da resistência: “Nossa luta não termina. Continua em unidade, a partir das assembleias territoriais permanentes, preparando a campanha pelo Não à Consulta, em defesa da democracia e dos direitos do povo”.
? #COMUNICADO | Ante la brutal represión ordenada por el Gobierno de #DanielNoboa, con tres fallecidos y decenas de heridos, hemos tomado una decisión difícil pero necesaria: el cese del #ParoNacional2025, el despeje de las vías y el repliegue a los territorios para proteger la… pic.twitter.com/QVhpkn60wR
— CONAIE (@CONAIE_Ecuador) October 22, 2025
Uma revolta nacional e demandas mais amplas
O que começou como uma reivindicação pelo aumento do combustível se transformou em uma revolta nacional com demandas mais amplas: redução do IVA de 15% para 12%, aumento do salário básico, maior investimento social, defesa do território contra a mineração e rejeição do referendo convocado pelo Executivo para 16 de novembro, que inclui a possibilidade de uma Assembleia Constituinte e a autorização de bases militares estrangeiras.
A província de Imbabura, na serra norte, tornou-se o epicentro do conflito. Comunidades de Otavalo, Cotacachi e Antonio Ante mantiveram, na manhã desta quarta-feira, bloqueios em mais de 11 vias principais, enquanto nos acessos a Pichincha e Loja foram registrados cortes intermitentes.
Diante da legítima resistência popular, as forças públicas intervieram com militares e policiais sob o estado de exceção, que proíbe o fechamento de estradas, e empregaram força brutal contra os manifestantes.
Organizações de direitos humanos denunciaram uma repressão crescente: três pessoas mortas, entre elas o comunitário Efraín Fuerez, de 46 anos, e José Guamán, de 30, ambos por impactos de bala, e Rosa Elena Paqui, de 61 anos, morta por inalação de gases lacrimogêneos. Além disso, 296 cidadãos ficaram feridos durante os protestos, 205 foram detidos e 15 desapareceram temporariamente, conforme a Aliança pelos Direitos Humanos do Equador.
Foram documentadas detenções violentas, inclusive dentro de residências, e tiros diretos contra o corpo de manifestantes. Dias atrás, um tiro da força pública privou o comunitário Jaime S., do povo Kitu Kara, de seu olho direito. Sob a aparência de um comboio humanitário, o Estado equatoriano criou um comboio da morte notório por intensificar a repressão aos protestos sociais.
Criminalização das mobilizações
A paralisação confirmou o autoritarismo de Noboa e a relutância do governo em dialogar. Apesar de um encontro inicial entre o ministro do Interior, John Reimberg, e líderes locais de Imbabura, o diálogo nacional se rompeu. Em vez de promover aproximações e ouvir as comunidades, o governo anunciou que “não há condições para continuar as conversas” e acusou a Conaie de descumprir acordos anteriores e usar as mobilizações para fins políticos.
“A partir de agora, qualquer coisa que acontecer será responsabilidade deles”, advertiu Reimberg, uma declaração que a Conaie classificou como “uma ameaça aberta”.
Por sua vez, a liderança indígena rejeitou a versão oficial sobre o fim da greve e ratificou sua decisão de continuar as mobilizações até que o governo reverta a medida sobre o combustível e libere os detidos.
O conflito se desenvolve em meio a uma crescente tensão política, marcada pela perda de popularidade de Noboa e pelas críticas de setores sociais ao acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que teria impulsionado a eliminação do subsídio.
Noboa subestimou os movimentos indígenas
Analistas como Francisco Jiménez, ex-ministro do Governo, alertaram que o Executivo subestimou a capacidade de mobilização indígena e falhou em estabelecer canais de diálogo legítimos. “Os governos não podem impor com quem se sentam para negociar. Se as organizações não reconhecem o interlocutor, o diálogo não funciona”, afirmou Jiménez.
Com o passar das semanas, os protestos se espalharam para Quito, Cuenca e Guayaquil, onde estudantes, trabalhadores e coletivos sociais aderiram à greve.
A mobilização indígena, uma das mais prolongadas desde os dias de 2022 contra Guillermo Lasso, evidenciou a fratura entre o governo e os povos originários, bem como o descontentamento com o custo de vida e a insegurança.
Enquanto isso, o referendo de 16 de novembro se perfila como um novo ponto de tensão política.
A Conaie e seus aliados já anunciaram que farão campanha pelo “Não”, em rejeição à agenda de Noboa, que consideram capituladora e neoliberal.
Para mitigar os efeitos da medida, o governo implementou bônus compensatórios para transportadores que variam entre US$ 400 e US$ 1.800 mensais, embora a Conaie considere essas ajudas insuficientes e excludentes e tenha alertado repetidamente sobre o impacto da medida no aumento do custo de bens e serviços e na precarização das famílias.

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