Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
A nova série mexicana da Netflix, Ninguém nos viu partir (Nadie nos vio partir), traz sequências reveladoras sobre como o audiovisual global continua a representar Israel e a apagar a Palestina.
A trama gira em torno de um pai pertencente a uma conservadora comunidade judaico-sionista do México que, convencido e orientado por seu próprio pai, sequestra os dois filhos após descobrir a infidelidade da esposa. É o avô quem planeja e articula toda a fuga, garantindo os recursos e os contatos necessários para que o filho leve as crianças por vários países até chegar a Israel.

Valeria, a mãe, empreende uma longa viagem atrás das suas crianças e chega finalmente a Israel. Em uma passagem que parece se situar em um deserto — inexistente na vida real — perto de Tel Aviv, a câmera mostra duas mulheres de niqab e uma menina de hijab. São palestinas, mas a palavra “Palestina” jamais é dita. O Oriente Médio surge como um cenário genérico, espiritual e exótico, sem povo nem história. As mulheres árabes são figurantes silenciosas, utilizadas apenas para compor o clima “oriental” de uma jornada emocional. A ocupação sionista não aparece, e a estética substitui a política.

Em outra cena, Valeria encontra seus filhos em um kibutz — que, na vida real, fica no deserto do Naqab (Negev), embora a série nunca esclareça onde está — e toca a sirene. Valeria corre com suas crianças para o abrigo, onde outras mães protegem bebês e filhos pequenos. A cena é intensa, filmada para gerar empatia e medo. O espectador é levado a sentir o pavor israelense diante das explosões que iluminam o céu ao longe. Mas o enquadramento nunca mostra quem está sendo bombardeado, dando a entender que é Israel, a eterna vítima. As luzes são apenas ruído, abstração, ameaça. A dor tem lado: é a dor israelense.
Antes disso, na África do Sul, o pai sequestrador fala com admiração sobre o kibutz israelense como um modelo de convivência comunitária, sugerindo-o como inspiração para militantes antiapartheid. O contraste é eloquente: solidarizar-se com a causa antirracista na África do Sul enquanto se ignora a ocupação colonial de Israel sobre a Palestina. O diálogo revela mais uma contradição moral que a série nunca problematiza — o privilégio de reconhecer o racismo de um sistema enquanto se normaliza o de outro. A série ecoa a lógica da colonização, transformando o símbolo do apartheid israelense em modelo de comunidade e solidariedade.
Esses elementos não são acidentais. Eles compõem uma linguagem política travestida de neutralidade estética. Israel aparece como espaço humano, emocional, civilizado, verde. A Palestina é deserta e silenciosa. O sofrimento palestino, sistemático e cotidiano, não existe. O espectador global, guiado pela narrativa da Netflix, é ensinado a ver o mundo pelas lentes do ocupante — e a sentir empatia apenas por ele.

Como explicou Edward Said em Orientalismo, o Ocidente constrói um “Oriente” imaginário para afirmar a sua própria inocência. Ninguém nos viu partir faz o mesmo: transforma o apartheid em paisagem, o medo israelense em drama universal e o desaparecimento palestino em normalidade.
No fim, o título da série ganha novo sentido. Ninguém nos viu partir — e ninguém viu as mulheres palestinas, as crianças, nem o povo nativo daquele território. Porque a câmera, como o poder, escolheu não ver.
Referências
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SAID, Edward W. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
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MASSAD, Joseph. The persistence of the Palestinian question. Routledge, 2006.
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PAPPÉ, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. Editora, KKYM, 2024.
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AZOULAY, Ariella. The civil contract of photography. Zone Books, 2008.
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KAPLAN, E. Ann. Trauma culture: The politics of terror and loss in media and literature. Rutgers University Press, 2005.
Tali Feld Gleiser é cofundadora e diretora geral do Portal Desacato. É apresentadora e produtora do programa Do Rio ao Mar.

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