O colapso da Lagoa da Conceição: quando a cidade esquece que depende de um planeta vivo

O problema da Lagoa da Conceição não é apenas local. Ele é o reflexo de um fenômeno global que o professor Paulo Horta chama de Capitaloceno — a era em que o sistema econômico e produtivo transforma a natureza em recurso e o planeta em mercadoria.

Redação.- Há poucas décadas, mergulhar na Lagoa da Conceição era encontrar um espelho d’água cristalino, repleto de gramas marinhas, cavalos-marinhos e peixinhos nadando entre algas delicadas. Era possível ver os próprios pés dentro d’água, mesmo em suas partes mais fundas.

Hoje, esse cenário pertence à memória — e o que se revela é o colapso de um ecossistema inteiro, vítima de negligência, desinformação e de um modelo urbano que insiste em ignorar os limites da natureza.

Um equilíbrio milenar interrompido

Antes da chegada de europeus, a Lagoa da Conceição — parte da antiga ilha de Meiembipe — coexistia em harmonia com a Mata Atlântica. A vegetação cobria encostas e margens, formando filtros naturais que purificavam a água e regulavam o fluxo de nutrientes como nitrogênio e fósforo.

Esses elementos, quando em equilíbrio, sustentavam uma vida aquática saudável: algas, peixes e pradarias submersas que reciclavam nutrientes e oxigenavam a água. Era um sistema em perfeito balanço, mantido por séculos.

A urbanização e a perda da lagoa natural

Com o crescimento urbano desordenado, a lagoa perdeu suas funções naturais. A drenagem urbana sem tratamento, o esgoto doméstico lançado parcialmente em fossas, biodigestores e na Estação de Tratamento das Rendeiras — com lagoas de evapo-infiltração — resultou em um acúmulo tóxico de fertilizantes dissolvidos.

Nitrogênio e fósforo em excesso são, em essência, o veneno invisível da lagoa. Alimentam florações de algas e micro-organismos que consomem o oxigênio da água, provocando mortandade de peixes, mau cheiro e a chamada eutrofização: o colapso ecológico de um corpo d’água.

Capitaloceno: quando o lucro supera a vida

Mas o problema da Lagoa da Conceição não é apenas local. Ele é o reflexo de um fenômeno global que o professor Paulo Horta chama de Capitaloceno — a era em que o sistema econômico e produtivo transforma a natureza em recurso e o planeta em mercadoria.

Vivemos sob extremos climáticos, excesso de CO?, aquecimento global e chuvas intensas. Tudo isso amplifica a degradação das lagoas e baías brasileiras.

O que vemos em Florianópolis é um microcosmo da crise planetária: uma sociedade que destrói seus próprios filtros ecológicos enquanto normaliza a morte de peixes e o colapso dos ecossistemas.

A tragédia e seus desdobramentos

Em 2021, o rompimento da lagoa de infiltração da Estação de Tratamento da Casan despejou toneladas de efluentes e lama na Lagoa da Conceição.

Foi um crime ambiental. Meses depois, a morte em massa de peixes mostrou que o sistema estava saturado.

Três anos se passaram, e as soluções não vieram. Pior: a dragagem feita em julho de 2025, segundo o grupo Ecoando Sustentabilidade da Universidade Federal de Santa Catarina, pode ter revirado o sedimento contaminado, liberando metais pesados e nutrientes que reativaram florações de algas — o gatilho de uma nova crise distrófica.

A síndrome do sapo fervido

A sociedade de Florianópolis vive o que o professor chama de “síndrome do sapo fervido”.
A metáfora é simples: se colocamos um sapo em água fria e aquecemos lentamente, ele se adapta até morrer fervido, sem perceber o perigo.

Assim estamos nós — assistindo, paralisados, ao colapso gradual da Lagoa da Conceição e de tantos outros ecossistemas, sem agir com a urgência necessária.
Não há nada de natural na morte da lagoa. Há, sim, omissão institucional e social.

O que precisa mudar agora

O grupo Ecoando Sustentabilidade apresentou recomendações emergenciais ao poder público. Entre elas:

  • Remover a espuma e matéria orgânica acumulada na superfície da lagoa;

  • Implementar tratamento terciário de esgoto em todas as áreas que drenam para a laguna;

  • Interromper o bombeamento de efluentes da Estação das Rendeiras para as dunas da Joaquina;

  • Adotar soluções baseadas na natureza para o tratamento final dos efluentes;

  • Criar um sistema de monitoramento permanente, com participação de universidades e órgãos ambientais.

Essas ações não são apenas técnicas — são pedagógicas. São uma forma de relembrar que uma cidade viva depende de um planeta vivo.

Um apelo à consciência

“O colapso da Lagoa da Conceição não é normal — e muito menos natural”, alerta o professor Paulo Horta.

É um retrato do nosso distanciamento das culturas originárias que viveram em harmonia com esse território. Um espelho do quanto nos afastamos da ideia de pertencimento e reciprocidade com a Terra.

Enquanto o sistema continuar a “moer” natureza em nome do lucro, viveremos entre crises, achando-as normais — até que seja tarde demais para saltar da panela.
A escolha é nossa: continuar fervendo ou finalmente acordar.

Assista ao programa completo do EcoConsciência com o professor Paulo Horta no vídeo abaixo


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