Por Carmen Parejo Rendón.
Nesta fase da história, a Europa parece perdida na autoconsciência, tanto a nível interno como no seu papel internacional. Berço dos grandes impérios coloniais, que durante séculos giraram o mundo em torno de suas capitais por meio da violência, da pilhagem e do mito da civilização, hoje se mostra incapaz de se reconhecer no espelho de seu próprio declínio. Não dirige mais a ordem mundial nem decide seu destino econômico ou militar. Presa em uma institucionalidade que desmantela os direitos sociais e garante a circulação desimpedida do capital financeiro, a Europa passou de um centro imperial a um imperialismo de segunda categoria subordinado à hegemonia dos EUA.
Em qualquer processo de perda, a negação é somente a primeira fase do luto. Em seguida, vêm geralmente a raiva, a negociação, a depressão e, finalmente, a aceitação. Mas a Europa parece ter estagnado nesta primeira fase.
Em primeiro lugar, nega sua decadência. Agarrando-se ao mito do estado de bem-estar social como se ele ainda existisse. Mas essa imagem idealizada só foi possível por causa de uma correlação concreta de forças: um forte movimento operário, o medo burguês do socialismo e a existência do bloco socialista como uma alternativa real.
Em troca da desmobilização, foi oferecido acesso a direitos. Mas, mesmo assim, esse modelo se baseava na pilhagem do Sul Global. Assim, a queda da URSS e a ofensiva liberal encerraram esse pacto. A partir da década de 1980, o capital europeu – alinhado com o Consenso de Washington – reorganizou-se para proteger o poder financeiro, através de tratados como o de Maastricht, privatizações massivas e cortes estruturais.
A suposta “superioridade” das questões sociais europeias está tornando-se cada vez mais falaciosa: segundo dados oficiais da Comissão Europeia, em 2024, 93,3 milhões de pessoas na União estavam em risco de pobreza ou exclusão social, o que equivale a 21,0% da população da UE. As privatizações, agora um gesto diário, mostraram sua face predatória: corrupção, bens públicos transformados em mercadorias e mortes. Na Andaluzia, por exemplo, mais de 300.000 mamografias foram encaminhadas para clínicas privadas, sob o argumento de falta de recursos públicos, apesar de falhas nos protocolos de rastreamento terem causado atrasos e perda de acompanhamento em casos de câncer de mama. Essa falácia agora se baseia em números reais, desigualdade crescente, precariedade massiva e o desaparecimento do acesso universal ao que antes se acreditava ser irrevogável.
Em segundo lugar, nega sua nova classe trabalhadora. O continente insiste em se imaginar branco, homogêneo, cristão… Mas a classe trabalhadora europeia não se encaixa mais nesse molde, se é que alguma vez o fez. As migrações forçadas devido a guerras, desapropriações e crises causadas pelo Norte transformaram sua composição.
Hoje coexistem profissões proletarizadas, precariedade digital, falsos autônomos e trabalhadores migrantes sem direitos. A extrema-direita explora essa diversidade para dividir, culpando o migrante pelos males sociais e escondendo a exploração. E setores da esquerda, presos na moralidade liberal, reduzem a questão a um problema humanitário. Mas não são vítimas estrangeiras: são trabalhadores, o esteio das cadeias de valor europeias. Sem eles, não há classe trabalhadora europeia. Sem reconhecê-lo, não haverá unidade de classe ou horizonte emancipatório.
Em terceiro lugar, nega sua subordinação geopolítica. Após a Segunda Guerra Mundial, o capital europeu optou por se alinhar com Washington: por medo do socialismo, pela necessidade de reconstrução e pelos interesses de classe. Assim, ele cedeu a soberania militar (OTAN), política e econômica. Este último é o mais invisível, apesar do fato de que a financeirização total entregou setores estratégicos – energia, bancos, infraestrutura – a fundos como o BlackRock dos EUA, que se tornou um ator poderoso em Bruxelas, Berlim e Madri. A Europa já não decide quem beneficia do seu crescimento e a que preço. As maravilhas do capitalismo avançado.
Em quarto lugar, nega a morte de seu próprio imperialismo. Ele se comporta como se ainda pudesse sustentar suas antigas esferas de influência. No Sahel, a França está respondendo arrogantemente ao colapso de seu domínio neocolonial. Na América Latina, o capital europeu continua a operar sob essas mesmas lógicas. E é por isso que eles estão em silêncio diante da ameaça militar direta e ilegal que os EUA estão realizando enquanto escrevo este artigo no Mar do Caribe contra a Venezuela.
No interior, as coisas não são muito diferentes. Em sua colonização “intraeuropeia”, os países do Oriente cumprem um duplo papel: como periferia econômica e como reserva ideológica. Nacionalismo reacionário e anticomunismo reciclado, úteis na narrativa ocidental contra a Rússia, onde a russofobia opera como um discurso de legitimação de um keynesianismo de guerra que eles propõem como uma “solução” mágica para seus problemas.
E, finalmente, ele nega a possibilidade de uma alternativa. Persistindo em se apresentar como uma referência moral, um modelo de civilização ou um bastião democrático, embora ninguém mais acredite nisso, enquanto expulsa migrantes para o mar, promove guerras e legisla para garantir um roubo em plena luz do dia do capital para o povo.
A Europa nega sua decadência, nega sua diversidade interna, nega sua subordinação geopolítica e nega, acima de tudo, a possibilidade de pensar um projeto diferente de seu próprio solo.
Aceitar a realidade significa uma ruptura política com as elites que sequestraram a Europa. São as capitais – e não os povos – que definem o rumo. E são eles que hoje nos impedem de ver que a Europa mudou, que o mundo mudou e que a esperança só pode renascer a partir de baixo. Da soberania popular desse povo plural que continua lutando. Esse mesmo povo que se recusa a ser cúmplice do genocídio em Gaza, que não quer mais guerras nem se armar até os dentes para um novo saque, agora em benefício do complexo militar-industrial, e que não está mais disposto a viver sob os ditames daqueles que os empobrecem. Se a Europa tem alguma saída digna, será a partir da ruptura com aqueles que a negam.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.
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