A inversão dos papéis na cobertura sobre a Palestina: como a mídia (re)vitimiza o opressor sionista

Por Francisco Fernandes Ladeira.

A troca de prisioneiros entre o Estado de Israel e o Hamas, ponto inicial do “Plano de Paz” proposto por Donald Trump, deu novo fôlego à grande mídia brasileira em sua empreitada discursiva de defesa do genocídio do povo palestino.

Se o bloqueio da entrada de alimentos em Gaza imposto pelo regime sionista, as imagens de crianças palestinas esqueléticas e os planos de Netanyahu de anexar o enclave palestino fizeram com que os noticiários da imprensa hegemônica, de certa forma, recuassem no apoio explícito ao genocídio, nos últimos dias, os reencontros dos prisioneiros do Hamas com seus familiares reavivaram os discursos que buscam vitimizar os israelenses e demonizar os palestinos. Ou seja, são linhas editoriais que invertem os papéis de opressores e oprimidos.

Por outro lado, os corpos de palestinos entregues por Israel com sinais de tortura e execução sumária tiveram pouca visibilidade. As vidas de árabes – assim como as de outros povos não brancos e “selvagens” – não têm valor. Logo, podem ser vítimas da necropolítica.

Além de enfatizar os “dramas humanos” enfrentados pelos cidadãos israelenses “sequestrados” há dois anos – e não ter a mesma alteridade com os palestinos que sofreram por décadas nas masmorras sionistas –, a grande mídia também recorreu à velha narrativa de culpar o Hamas pela situação infernal vivida pela população de Gaza.

Na quinta-feira (16/10), o jornal O Globo noticiou que, após o recuo do exército de Israel, o Hamas passou a empregar execuções públicas em Gaza, o que “remete às punições que o Talibã defendeu e voltou a praticar quando reassumiu o poder no Afeganistão”.

Não estou defendendo execuções, mas é importante lembrar que se tratava de informantes do sionismo dentro da Palestina, isto é, traidores de seu próprio povo (tal como María Corina Machado em relação aos venezuelanos). Um jornalismo minimamente sério e comprometido com a multidimensionalidade dos fatos não omitiria essa informação.

Conforme a história nos mostra, a pena capital contra informantes é uma prática comum quando o que está em jogo é a luta de colonizados contra seus colonizadores. Porém, para a publicação da família Marinho, em Gaza houve “choques entre facções rivais” e “tentativa do Hamas de restabelecer seu domínio sobre Gaza”.

Já a descabida associação entre Hamas e Talibã comprova a desonestidade jornalística da mídia hegemônica. O grupo palestino, a despeito de suas contradições, chegou ao poder pela via eleitoral, goza de certa popularidade e luta pela autodeterminação de um povo que está sob ocupação colonial há décadas.

O Talibã, sim, é um grupo fundamentalista que oprime sua própria população. Exceto em poucos grupos da esquerda delirante (como o PCO), o grupo afegão não encontra apoio entre setores progressistas. O único ponto em comum entre Hamas e Talibã é a religião islâmica (que, nas narrativas midiáticas, é praticamente sinônimo de “terrorista”).

Dessa forma, a mensagem midiática é clara: os palestinos se matam entre si, independentemente das ações de Israel. Temos, consequentemente, o velho discurso colonial sobre os “selvagens” não saberem governar a si mesmos. Isso também já ocorreu em relação a africanos e ameríndios. Não foram os europeus quem dizimaram grande parte desses povos, mas “confrontos internos”. Depois são só os bolsonaristas que cometem “negacionismo histórico”.

As setenta mil vítimas da atual etapa do genocídio (isso numa contagem conservadora) simplesmente sumiram dos noticiários. A comoção é muito maior com poucos israelenses vivos do que com milhares de crianças mortas em Gaza – o mais letal infanticídio de todos os tempos em termos proporcionais.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

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