
A entrevista conduzida por Max Blumenthal, do The Grayzone, com o ex-Boina Verde estadunidense Jordan Goudreau, revela uma história de bastidores da Operação Gideon — o plano malogrado de invasão marítima à Venezuela em 2020 que buscava capturar Nicolás Maduro e instalar Juan Guaidó no poder. O episódio, amplamente ridicularizado como o “Bahía de Cochinitos” (numa referência ao fiasco da Baía dos Porcos), esconde, porém, camadas profundas de envolvimento político, empresarial e de inteligência dos Estados Unidos.
Um golpe “privatizado”
Segundo Goudreau, a ofensiva, originalmente chamada Operação Edgemont, nasceu de um projeto híbrido entre empresários estadunidenses e figuras próximas ao governo de Trump. O nome central era o da empresa Global Governance, que pretendia lucrar com contratos de reconstrução, mineração e petróleo numa Venezuela “pós-Maduro”.
“Eles precisavam de alguém para remover o obstáculo”, contou Goudreau a Blumenthal. Esse “alguém” seria ele — contratado, segundo a entrevista, por intermediários ligados ao ex-chefe de segurança de Trump, Keith Schiller, e ao herdeiro do império Kraft, Rowan Kraft.

O envolvimento de Washington
Os documentos obtidos por The Grayzone e apresentados por Goudreau indicam que altos funcionários da Casa Branca e do Departamento de Estado sabiam do plano. Entre os nomes mencionados estão John Bolton, Elliott Abrams, Mike Pompeo e até assessores do então vice-presidente Mike Pence.
Goudreau afirma ter recebido autorização verbal para seguir com a operação e diz ter enviado relatórios e pedidos de informação (“RFIs”) a funcionários do governo. “Eu era um soldado. Recebi a missão e executei”, declarou.
A trama se complica quando entram em cena figuras da oposição venezuelana, como Leopoldo López, Lester Toledo e Jorge Bettencourt — este último, segundo Goudreau, com vínculos diretos com a CIA e a inteligência colombiana. A Colômbia, governada então por Iván Duque, teria dado apoio logístico à missão, permitindo campos de treinamento na fronteira e prometendo “liberdade de movimento” em troca de atacar o ELN.
Dinheiro, sabotagem e traição
O plano de Goudreau contava com financiamento inicial de 1,5 milhão de dólares de J.J. Rendón, estrategista político próximo de Guaidó. O contrato, assinado digitalmente com o próprio “presidente interino”, previa “capturar, deter e remover Maduro e seu regime”, com bônus de sucesso de 10 milhões de dólares.
Mas, segundo Goudreau, o acordo rapidamente se desfez em desconfiança e sabotagem. Ele acusa agentes da CIA e opositores venezuelanos de entregar as coordenadas de seu grupo às forças leais a Maduro. O resultado foi o desastre: pescadores venezuelanos capturaram os mercenários, e o mundo assistiu perplexo ao fiasco televisivo de uma tentativa de invasão terceirizada.
O duplo jogo da inteligência estadunidense
O ex-Boina Verde também aponta que a CIA nunca quis realmente a queda de Maduro, alegando que o fechamento da embaixada estadunidense em Caracas teria inviabilizado operações de “inteligência humana” e revelado divisões dentro do governo Trump. “O problema não era Maduro — era o controle sobre o tráfico e os contratos”, afirmou, insinuando que setores da inteligência preferiam a estabilidade do atual regime ao risco de um colapso imprevisível.
Entre o golpe e o negócio
Goudreau descreve uma geopolítica de mercenários e empresários dispostos a transformar a Venezuela em um projeto de “reconstrução lucrativa”, com contratos para companhias estadunidenses. Ao mesmo tempo, afirma que sua intenção era “garantir eleições livres”, não uma ocupação militar.
O relato, porém, expõe algo mais profundo: o entrelaçamento entre corporações, espiões e políticos em operações de mudança de regime que misturam o discurso humanitário ao interesse econômico — uma tradição antiga na política externa dos Estados Unidos.
O futuro de Goudreau e o eco de Gideon
Hoje, Jordan Goudreau enfrenta acusações federais de tráfico de armas. Ele alega ser vítima de lawfare, uma perseguição política para encobrir o envolvimento de altos escalões do governo estadunidense no complô. “Se eu for preso, é para me impedir de revelar informações classificadas”, disse a Blumenthal.
Enquanto isso, o cenário venezuelano segue tenso. A recente consagração de María Corina Machado com o Prêmio Nobel da Paz de 2025, somada às novas sanções e à retórica belicista de Washington, indicam que o projeto de “mudança de regime” pode ter apenas trocado de rosto.
Entrevista em inglês
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





