
Por Mirella Schuch.
Há dois séculos, em 11 de outubro de 1825, nascia a primeira romancista negra brasileira, em São Luís do Maranhão. Se você não tivesse lido o subtítulo desta reportagem, saberia responder quem foi a primeira romancista negra brasileira? Apesar de ser pioneira e sua literatura ter sido digna de nota nos jornais em sua época, foi só um século depois de sua morte (1917) que ressurgiu, a partir de pesquisas acadêmicas, no cenário da literatura brasileira. E é com o propósito de dar luz a nomes de mulheres importantes da nossa história que viveram antes do século XX, como o de Maria Firmina dos Reis, que o projeto chapecoense Oriri lança sua terceira temporada nas mídias sociais.
Diferente das outras temporadas, nesta o público tem a oportunidade de conhecer a história da romancista a partir da linguagem dos quadrinhos. A designer Aurieli Adam foi quem deu a ideia para a produtora e responsável por roteirizar os quadrinhos, Bruna Meoti, de, através do projeto, contar a história de uma mulher importante para além da dança e de fazer isso a partir das HQs, visto que teve a experiência de ilustrar quadrinhos para as redes sociais quando realizou seu Trabalho de Conclusão de Curso. “Eu sempre quis que o Oriri tomasse esse caminho, pois histórias escondidas existem em todas as áreas. A gente conversou sobre várias possibilidades, e conforme fomos pesquisando, percebemos alguns nomes interessantes dentro da literatura. Escolhemos a Firmina pois ela trazia com sua história aquilo que nosso projeto busca: viveu anteriormente ao século 20, uma mulher incrível, que deixou sua marca na literatura e na sociedade e foi contra as convenções de sua época, cujos feitos não devem ser escondidos”, comenta Bruna, idealizadora do Oriri.
Aurieli conta que o processo de criação dos quadrinhos foi livre, pois assim como as outras personagens da história retratadas pelo Oriri, também não contavam com a aparência fiel de Maria Firmina dos Reis, mas que adaptar quadrinhos para as redes sociais é sempre um desafio. “Existem algumas representações da Firmina, como ilustrações e estátuas, e foi um trabalho em conjunto com a Bruna sintetizar a história e representar visualmente a personagem. Na primeira sequência de quadrinhos publicada, Maria Firmina conversa com o narrador, que a ajuda a descobrir quem ela é, e tivemos essa ideia justamente para fazer esse paralelo sobre a história da escritora ter sido esquecida e que seus feitos precisam ser reconhecidos”, destaca a ilustradora.
Além da série de histórias em quadrinhos, esta temporada do Oriri conta com um artigo robusto sobre a história de Maria Firmina, publicado na Academia.edu e disponível gratuitamente para leitura. A licenciada em História, Samara Albuquerquer, deu vida ao texto, após uma rebuscada investigação em livros, artigos, monografia e arquivos que preservam a obra e vida da romancista.
|
Um spoiler do artigo sobre Maria Firmina dos Reis… Destaque na literatura brasileira de autoria feminina e negra, Maria Firmina dos Reis é a primeira mulher e também mulher negra além de nordestina a escrever um romance no Brasil. Nasceu no Maranhão do século 19, lugar em que produziu romances, crônicas, poesias, contos e músicas. Atuou como professora de primeiras letras, vindo a se tornar, mais tarde, Mestra Régia. Em sua literatura, não ignorava a realidade que viveu e presenciou durante sua vida, criando mundos fictícios em que os escravizados contam suas histórias e se libertam. Na sua literatura também mostra que é da mesma natureza a negação da humanidade aos negros e a opressão vivida pelas mulheres, tornando sua escrita distinta das outras em seu tempo, que romantizam a escravização, já que o mercado de escravos era forte no país. Ela foi uma das poucas escritoras que desafiou esse sistema, sendo uma mulher negra que ergeu a voz para revelar as histórias da escravidão em um tempo em que a sociedade era estruturada no patriarcado e as mulheres não podiam integrar profissões longe do ambiente doméstico. Apesar de ser pioneira e sua literatura ter sido digna de nota nos jornais em sua época, foi só um século depois de sua morte que ressurgiu, a partir de pesquisas acadêmicas, no cenário da literatura brasileira. Leia o artigo completo em Academia.edu.
|
A pesquisadora Samara Albuquerquer explica que ao escrever o artigo lançou um olhar interseccional sob Maria Firmina dos Reis, abordando as multiplicidades da romancista ser uma mulher negra, escritora e professora no século XIX até o início do século XX, momento histórico em que era legalizada a escravidão de pessoas negras e indígenas no Brasil. “Nesse olhar de querer trazer diversas perspectivas da vida de Firmina, no início da pesquisa não encontrava muitos trabalhos acadêmicos sobre a vida dela. Existem trabalhos importantíssimos sobre sua história que só estão disponíveis de forma física, não encontrando online, e na pesquisa historiográfica eu utilizei muitos dos relatos do trabalho de Morais Filho (1975) e a pesquisa de Agenor Gomes (2022) – eles tiveram acesso a diversas fontes primárias e infelizmente não estão disponíveis online todos os documentos digitalizados desses arquivos, então busquei pesquisas que possuem esse acesso direto a fontes físicas que me trazem veracidade na minha pesquisa sobre Maria Firmina. Acessei também jornais disponíveis na biblioteca nacional online que possuem seus textos de literatura poética, de contos que foram publicados e romance divulgado”, destaca a pesquisadora.
A social media do projeto, Maiara Copini, expressa que a cada temporada do Oriri, descobre novas histórias e conhece mulheres incríveis que fizeram história e deixaram marcas que ninguém pode apagar, e complementa: “Foi através da escrita e do ensino que Maria Firmina lutou pelos direitos dos negros, usou as palavras como arma, e essa luta permanece viva até hoje. O que ela começou não terminou com sua partida, sua resistência ecoa em sua história, e recontar essa história é também uma forma de continuar lutando ao lado dela. Participar desta temporada, assim como das anteriores do projeto, é sempre transformador”, finaliza.
Oriri: inclusão e acessibilidade
Ao valorizar a história de Maria Firmina dos Reis, o projeto não apenas resgata a memória de uma importante figura cultural, mas também contribui para a educação histórica e para o fortalecimento da identidade cultural brasileira.
A inclusão de recursos de acessibilidade, como legendagem alternativa e vídeos em Libras nas publicações das mídias sociais do projeto, assegura a democratização do conteúdo, tornando-o acessível. E isso se fez possível porque a proposta é executada pelo Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Política Nacional Aldir Blanc. Para ficar por dentro das próximas histórias a serem desvendadas pelo Oriri, siga e acompanhe o projeto pelo Instagram, Facebook, Linktr.ee, Tik Tok e site.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





