
A Argentina sempre tem um problema, e é a dívida. Entre todas as questões em debate — e aquelas não debatidas, mas gritadas na mídia e em plataformas públicas —, esta é a pedra angular que deve ser abordada.
Precisamos nos esforçar para entender alguns dos gráficos, porque as evidências que conseguimos apresentar neles acabam explicando a qualquer cidadão argentino que o “déficit zero” é uma cortina de fumaça.
A dívida da Argentina aumentou entre 2014 e 2015 sob Cristina Fernández de Kirchner em US$ 20 bilhões.
Aumentou US$ 100 bilhões sob Mauricio Macri e US$ 40 bilhões sob Alberto Fernández.
Acrescente-se a isso o crescimento de US$ 76 bilhões em apenas um ano e meio sob Javier Milei.
O total do período, como pode ser visto na tabela a seguir, é que, apesar dos pagamentos feitos entre 2014 e 2025, a dívida aumentou cerca de US$ 220 bilhões.
Segundo o FMI, a Argentina foi um dos países com mais controles de capital no mundo em 2015, o que, segundo a teoria neoliberal, conspira contra a liberdade de mercado e, consequentemente, o investimento e o crescimento econômico.
Em 2017, segundo a mesma fonte do FMI, tínhamos menos regulamentações do que a Suíça. Macri começou desmantelando todas as barreiras ao controle do fluxo de dólares. Ele introduziu o DJAI (Declaração Antecipada de Importação), suspendeu os limites para pagamentos de importação e, de forma mais decisiva, estendeu os prazos para os exportadores liquidarem sua moeda estrangeira no mercado local.
Primeiro, ele estendeu esse prazo para um ano, depois para cinco, depois para dez e, finalmente, em novembro de 2017, com o Decreto 893/17, eliminou completamente a obrigação.
Qual a importância disso para o fluxo de divisas?
Isso significava que um exportador podia receber pagamentos no exterior e deixar seus dólares em uma conta no exterior, sem precisar vendê-los no mercado único e livre de câmbio.
Na prática, o efeito foi brutal: ao analisar a balança de pagamentos (que registra as exportações em valor FOB) e compará-la com a balança cambial (que mede os dólares efetivamente ingressados ??no mercado), fica claro que, entre 2016 e o ??terceiro trimestre de 2019, mesmo que todos os dólares retidos no exterior tivessem sido usados ??para pagar dívidas comerciais de importações, cerca de US$ 29 bilhões permaneceram não recebidos.
E, nesse ínterim, contribuindo para as causas endêmicas do endividamento da Argentina, os US$ 45 bilhões foram solicitados ao FMI.
O que teria acontecido na Argentina se, em 2019, os quase US$ 30 bilhões que a equipe de Macri (Caputo, Dujovne, Sturzenegger etc.) decidiu deixar o país “livremente” estivessem disponíveis?
A resposta é que, apesar de toda a dívida criminosa assumida, a margem de manobra do Estado teria sido decisivamente outra.
Complementamos as informações da tabela anterior com a seguinte, que mostra quanto dessa dívida está atualmente em pesos e quanto está em dólares, em agosto de 2025.
E chegamos a este presente, onde Milei, o Ministro Luis Caputo e sua equipe tentam enfaixar e amarrar o Frankenstein que escolheram criar, que anuncia o colapso.
Pode haver uma economia que pague juros de até 80% e tenha uma inflação anual projetada inferior a 30%? Vamos falar então de juros.
O que são juros capitalizáveis ??da dívida pública?
Esses juros são adicionados ao principal devido, em vez de serem pagos na data estipulada no instrumento que os emitiu.
Capital + juros adicionados: aumenta o estoque da dívida, o que gera mais juros (no futuro).
A partir de 2024, o governo começou a emitir dívida com juros compostos mensais. Para um projeto que visa “reduzir a inflação por meio da emissão de dívida”, isso faz sentido.
O argumento apresentado foi que isso transferiria a “bomba-relógio” dos passivos remunerados do Banco Central para o Tesouro. Mas isso não é verdade.
Se considerarmos janeiro de 2024, esses “passivos remunerados” somavam 28,1 trilhões de pesos (esse total é a soma de repos passivos, Nobac e Leliq).
A que equivalem esses 28,1 trilhões de pesos? Cerca de US$ 34 bilhões.
Por que emitiu uma dívida tão grande, que compromete o futuro e projeta uma carga tributária maior para quitá-la?
Porque quanto mais atrativa a taxa de juros oferecida pelos instrumentos emitidos pelo Estado, menos atrativo se torna comprar dólares no presente.
O que é notável nesse frenesi da dívida é que os juros capitalizados atingiram uma média de US$ 1,297 bilhão por mês durante o primeiro ano de Javier Milei no cargo.
E em 2025? Até agora, neste ano, esses juros atingiram uma média mensal de US$ 3,987 bilhões. Foram US$ 3 bilhões em janeiro, US$ 5 bilhões em junho e US$ 14 bilhões em julho.
US$ 14 bilhões em juros em um único mês!
O Governo diz que não há dinheiro. Mas “gasta” em juros o equivalente a mais de cinco vezes o que gasta com todas as pensões.
A dívida pública bruta da Administração Nacional não diminuiu, mas sim cresceu sob o governo Milei e o Ministro Luis Caputo. Entre dezembro de 2023 e julho de 2025, cresceu 20%, ou o equivalente a US$ 76 bilhões.
Portanto, não é que o programa esteja funcionando: essas despesas estão ocorrendo agora, mas não estão sendo pagas, e seu adiamento não é gratuito.
O próprio Fundo Monetário Internacional recomenda que “idealmente, as transações e outros fluxos econômicos sejam registrados pelo regime de competência”.
Por quê? Porque, pelo regime de fluxo de caixa, o Estado apresenta gastos menores. Mas isso é falso: apenas porque “adianta” uma despesa que já ocorreu economicamente (a dívida cresceu). Capital + juros = novo capital sobre o qual são calculados novos juros, e assim por diante, mês após mês.
Enquanto isso, e com os enormes juros que o Estado paga, os dólares são vendidos livremente. Os 12 bilhões do FMI e milhares mais, tanto do FMI quanto de outras organizações relacionadas.
Mas chega um momento em que não há taxa de juros em pesos que compense o risco de desvalorização. E é aí que tudo termina. Aconteceu com Martínez de Hoz em meados da ditadura, aconteceu com De La Rúa sob Cavallo e aconteceu com o próprio Caputo sob Macri.
Portanto, as tabelas a seguir mostram claramente a evolução da verdadeira tragédia argentina, que é a dívida resultante da fuga.
Tabela 1: dívida em 1975; dívida que Alfonsín recebeu ao final da ditadura (1983); dívida deixada por Alfonsín (1989); dívida multiplicada por Cavallo e Menemismo (2001); dívida deixada pelo Kirchnerismo (2015); dívida multiplicada pelo Macrismo (2019).
Segundo dados do Banco Mundial, enquanto em 1975 a dívida externa total da Argentina representava apenas 15,1% do PIB, em 2002 a dívida externa representava 151,8% do PIB.
O Centro para a Implementação de Políticas Públicas para a Equidade e o Crescimento (Cippec) explica que, desde dezembro de 2015 — quando Macri assumiu o cargo — a dívida pública tem aumentado constantemente. A uma taxa de câmbio real constante, passou de 53% para 75%.
Tabela 2: A relação dívida/PIB de 2004 a 2021. Os dois melhores anos desses 17 foram 2011 e 2012.
Tabela 3: Quanto a dívida cresceu, quanto de juros foi pago sobre ela e quantos bilhões de dólares foram perdidos entre 1975 e o desastre pós-Menem de 2001.
A dívida se multiplicou quase em linha com a drenagem da dívida, e essa drenagem acompanhou os pagamentos de juros sobre a dívida (a famosa “carga tributária”).
Os números mostram que o problema fiscal se deve à dívida e à drenagem da dívida, não aos gastos.
Autores:
Germán Pinazo, Doutor em Ciências Sociais – Vice- reitor da Universidade Nacional de General Sarmiento – UNGS.
Darío Bursztyn, Licenciado em Sociología – UBA
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