Bolívia na encruzilhada: o esgotamento do ciclo plurinacional e o avanço conservador

Jorge Richter alerta: após 20 anos, o ciclo do Estado Plurinacional boliviano se esgota. Sem renovação de lideranças, o MAS se fragmenta e abre espaço para a direita neoliberal. A Bolívia vive uma encruzilhada histórica.

Raul Fitipaldi recebeu o cientista político boliviano Jorge Richter no programa Alexandria de A Noite Livre do Portal Desacato, em um alerta para toda a América Latina. Richter identifica que, após vinte anos de processo de mudança iniciado com a refundação do Estado Plurinacional em 2009, a Bolívia atravessa uma fase crítica. O projeto que antes deu protagonismo a setores historicamente marginalizados começa a mostrar sinais de desgaste, burocratização e ausência de renovação de lideranças.

Segundo o analista, o Movimento ao Socialismo (MAS) perdeu sua capacidade de oxigenar-se, transformando-se em máquina administrativa em vez de continuar a ser um motor de transformações. Isso abriu espaço para que forças conservadoras — ligadas ao neoliberalismo, ao Fundo Monetário Internacional e às elites históricas — reconquistassem espaço. Richter sublinha a contradição entre um projeto que nasceu da inclusão e o risco de retorno a governos que desprezam o caráter plurinacional, reduzindo-o a um “estorvo” para a ordem econômica liberal.

Outro ponto central é a falta de debate sobre questões estruturais: a persistência do racismo nas instituições, o poder corporativo das Forças Armadas e os limites constitucionais do presidencialismo. O próprio desgaste em torno da sucessão de Evo Morales mostrou a fragilidade do movimento, que não conseguiu renovar-se sem divisões. O resultado, afirma Richter, é a fragmentação do bloco popular e a possibilidade de que a Bolívia volte a ser governada por elites conservadoras fascinadas pela tutela estadunidense.

As palavras do cientista político não são apenas diagnóstico da Bolívia, mas também um espelho para toda a região. Elas lembram que revoluções não são conquistas definitivas: precisam ser constantemente reinventadas para não sucumbirem à burocratização ou às disputas personalistas. O risco atual não é apenas a derrota eleitoral de uma esquerda, mas o empalidecimento de um projeto de convivência plural, solidário e descolonizador.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:


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