Terra Brasilis: quando o absurdo quer governar

No Hospício Brasilis, Raul Fitipaldi conecta três absurdos recentes: o pastor de peruca em “missão secreta”, o vereador que defende a chinelada como educação e a coroação de um arcanjo como “comandante espiritual” da Nação. Mais que bizarrices isoladas, são sintomas de um país em que querem misturar fé, violência e política.

Redação.- Raul Fitipaldi consegue ligar os pontos do nosso grotesco cotidiano e mostrar como eles formam uma paisagem maior — e mais preocupante. No comentário em vídeo que chamou de No hospício Brasilis, ele costura três episódios recentes que, sozinhos, já seriam pitorescos; juntos, revelam um retrato sombrio da desorganização social e institucional que nos governa.

Primeiro, o “pastor araponga”: um bispo que, disfarçado de peruca e shortinho, sai em “investigação pessoal” e acaba filmado às escondidas. O vexame vira tentativa de extorsão. O que poderia ser apenas anedota se torna sintoma: líderes religiosos, isentos de impostos e com crescente poder político, já não se constrangem em expor contradições que corroem sua própria autoridade moral.

Depois, a tribuna. Um vereador, em tom de nostalgia pedagógica, defende a “havaiana voadora” como método de educação. Entre uma piada e outra, normaliza a violência contra crianças e transfere ao lar — e ao castigo físico — a responsabilidade que deveria ser compartilhada pelo Estado e pela escola. Não é somente folclore: é uma pedagogia da violência, reproduzida por quem deveria legislar para proteger os mais vulneráveis.

E, por fim, Brasília. No coração de um Estado que a Constituição definiu como laico, uma cerimônia solene coroou São Miguel Arcanjo como “comandante espiritual da Nação”. Ato simbólico que, mais do que piedade, expressa a tentativa de submeter a política à fé única, excluindo a pluralidade religiosa e cultural que compõe o país.

Pastor disfarçado, vereador da chinelada e freira coroando arcanjo: três caricaturas que, na verdade, são engrenagens de um mesmo processo. Um Brasil em que fé se mistura com poder, violência é legitimada como tradição e a política se transforma em ritual. O resultado é um país cada vez mais distante dos princípios de uma democracia laica, justa e inclusiva.

É sobre isso — a naturalização do absurdo como prática cotidiana — que Raul Fitipaldi convida a refletir em seu comentário. Vale a pena assistir na íntegra: No hospício Brasilis.


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