
Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.
Ontem, de novo, a lama, depois de tanto avisar que ia sair, saiu. E
foi descendo, levando gente, levando casa, levando sonho, trazendo a
morte. Logo senti quando gritaram desesperados, mostrando bem que
havia mudado o rumo das coisas. “De novo?”… olha… me entenda bem.
Eu tava meio que esperando, confesso. Porque essas coisas são meio que
feitas pra acontecer mesmo. Não é bem surpresa. Surpresa é só o
acontecer, não o fato. Entende? E ali, do alto daquele lugar qualquer,
ouvi o barulho do fim que vinha chegado lento, mas intenso e perverso.
Era um barulho que rachava o coração. Barulho que não se ouve sempre,
que não se mostra ou reproduz. Barulho terrível! Vi descendo com a
força que não se luta contra. A força que, pra ser franco, só dá pra
fugir. O céu podia estar bonito, mas virou um azul morte. Como se mata
sem pôr a mão? Depois, quando a desgraça tá feita, fica corpo pra
contar, casa pra erguer, o nada… fica o corre pra lá e pra cá. Fica
uma despedida que não precisava. E não tem o que fazer. A cidade vira
uma história horrenda contada pelos anos que vão seguir e a gente fica
pra depois como a conversa com os homens que fizeram isso. A gente viu
esse evento outro dia, lembra? Faz tempo não. Então… que que deu?
Nada! Se bem que dar em algo é como querer que um punhado de dinheiro
resolva a dor. Deve ser por isso o quão rápido já vieram oferecendo um
cheque. Esse povo faz tudo por dinheiro e acha que o dinheiro vai
resolver tudo. Que as notas vão limpar essa lama de sangue. Vieram
rapidinho dar cheques pra tentar resolver a ferida. Quero ver resolver
o homem que ficou um tempão embaixo da terra vivo torcendo por
resgate, mas que não agüentou. Quero ver resolver o homem que tava na
luta pelo pão e foi, deixando a fome com seus. Quero ver sarar o
coração de quem ficou boiado naquele troço nojento e, por Oxalá, foi
salvo. Mas fica ali a ferida, a dor. Quero ver chamar de acidente,
mesmo tendo já vivido isso. Isso eu quero ver. Resolve não. Os bichos
tão tudo morrendo. É verdade que essa lama deixa também o chão doente?
Que além das vidas, o chão também fica marcado? Que que vai nascer
depois? Porque depois… olha… aí te conto com a calma de quem já
viu isso. Depois vai ficar boiando o assunto como aquele tanto de
peixe boiando. Até que alguém vai pegar e jogar no lixo, como joga
fora aquele tanto de peixe boiando. Pra esse povo não tem lei. Eles
podem desgraçar tudo que não vai ter problema. Às vezes parece que a
vida é um bilhete. Se pega um pedaço de papel e escreve. Quem lê,
depois, vai largar de canto, amassado. E só vão lembrar na próxima
faxina quando ver aquele pedaço de papel na mesa. Aí joga no lixo. É
isso! É! A vida é um bilhete. Bilhete escrito pelas mãos de gente que
faz de tudo descartável. Um bilhete escrito pelas mãos de quem tem
dinheiro.
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