Virada geopolítica russa

Por Rita Coitinho, para Desacato.info.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial os EUA, sob a presidência de Harry Truman, lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão, tornando-se a primeira potência nuclear do mundo. Todas as declarações seguintes do presidente Truman indicam que o principal objetivo do governo dos EUA era afirmar a preponderância do país no cenário mundial e, a partir de uma aliança com a Europa, isolar e enfraquecer a URSS. Em 29 de agosto de 1949, contudo, a URSS realizou um bem-sucedido teste de arma atômica, utilizando um dispositivo de implosão, o RDS-1 (Primeiro Relâmpago), em uma área deserta do Cazaquistão. Tornava-se, assim, a segunda nação com capacidade nuclear bélica. Inaugurou-se, ali, uma era de corrida armamentista, que resultaria no congelamento do poder mundial, dividido em dois grandes e poderosos blocos.

Se, por um lado, o mundo vivia o fantasma permanente de uma guerra nuclear, de outro o poderio dos dois lados opostos acabou garantindo uma certa estabilidade nas respectivas áreas de influência, dado o risco de destruição no caso de uma guerra entre as duas potências. Com o fim do socialismo no bloco soviético e sua fragmentação em diversos Estados, em um processo tumultuado e repleto de conflitos étnicos, muitos dos quais fomentados e apoiados pelos países da OTAN, os EUA passaram a ocupar, sozinhos, o posto de grande potência, embora a posse de bombas atômicas tenha se espalhado para um punhado de países[1] desde os anos 1970, a revelia dos tratados internacionais para não proliferação de armamentos ou para sua eliminação – dos quais os EUA não são signatários. Isto porque, uma vez que a tecnologia de fabricação dos artefatos já é dominada por outros países, ganham vantagem militar aqueles que dispõem de logística adequada ao uso e à defesa contra armas atômicas. Nos últimos anos os EUA, por meio da OTAN, garantiam a vantagem em razão de sua frota incomparável de porta-aviões ultra modernos e a partir do estabelecimento de escudos e sistemas antimísseis, alguns dos quais instalados em países da ex-URSS, mesmo diante da imensa capacidade bélica da Rússia, que ficou com a maior parte do arsenal soviético e da China – que, segundo alguns analistas, possui cerca de três mil ogivas nucleares. Essas vantagens, embora não sejam absolutas, vinham sendo exploradas pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump, mas também pelo seu antecessor, Barack Obama – que instituíra sanções econômicas à Rússia. Na realidade, a política dos EUA para a Rússia, mesmo com a conversão desta ao capitalismo, sempre foi de contenção e ameaças.

Esta semana, contudo, um anúncio feito pelo presidente russo Vladimir Putin inseriu uma cunha na geopolítica mundial. Em um discurso dirigido ao Congresso de seu país, o presidente russo anunciou um “pacote” de armamentos que praticamente inutilizam os sistemas de defesa dos EUA e da OTAN. Putin anunciou a criação, com tecnologia inovadora, de:

  • Um míssil de cruzeiro com propulsão nuclear de alcance ilimitado;
  • Um submarino nuclear não tripulado, com alcance intercontinental, altíssima velocidade, propulsão silenciosa e capaz atingir grande profundidade;
  • Um míssil hipersônico Mach 10 com alcance de 2.000 km (Kinzhal)
  • Um novo míssil estratégico Mach 20 (Avangard)

Todos esses sistemas têm capacidade de serem armados com ogivas convencionais ou nucleares. As implicações são de imensa importância para a correlação de forças internacional. Em primeiro lugar, porque demonstra que foram inúteis os esforços dos EUA para a construção dos escudos nos territórios vizinhos à Rússia (ex-repúblicas soviéticas) e, em segundo lugar, porque a imensa vantagem dos EUA em termos de posse de porta-aviões de última geração tornou-se questionável, em razão da existência dos novos submarinos.

Para além do anúncio das novas tecnologias, que provavelmente lançarão os EUA a uma corrida armamentista e tecnológica – especialmente no tocante às comunicações, de modo a sabotar os controles russos e de seus aliados -, Putin ressaltou que a Rússia considerará as agressões a seus aliados como agressões ao seu próprio território, em claro desafio à estratégia estadunidense de cerco e desestabilização dos países hostis à sua política. As nações que vêm enfrentando o cerco e a sabotagem estadunidense, ao que parece, ganharam um reforço inestimável.

A imprensa brasileira, embora tenha feito a cobertura do anúncio com certo alarde, passou os dias seguintes procurando minimizar o acontecimento. Sabemos a que, e a quem, se presta essa imprensa. O fato, que não desaparecerá em razão do comportamento de avestruz (que, dizem, enterra a cabeça para não ver o perigo) dos meios de comunicação colonizados, é que o cenário mundial já não é mais o mesmo de uma semana atrás. Os EUA procurarão de todas as maneiras recuperar sua vantagem no jogo de poder global. É possível que caminhemos para um reordenamento do poder mundial, para uma reedição da situação de dois blocos, ou, até, para um futuro incerto de guerra cibernética, que poderá jogar o mundo inteiro – uma vez que todos os serviços essenciais hoje dependem das comunicações– no caos. Pode ser também que os EUA percam a posição de primeira potência. É quase certo que perderão, diante do quadro econômico, onde já perdem para a China e, agora, com anúncio da Rússia, militar. No entanto os estragos que farão, junto com seus aliados da OTAN, para segurar-se no posto, deveriam ser objeto de preocupação de todos os povos do mundo.

[1] Esse dado é facilmente encontrado na internet em reportagens como essa da revista Exame https://exame.abril.com.br/mundo/20-paises-e-sua-relacao-com-a-bomba-atomica/ e também na Wikipedia.

Rita CoitinhoRita Coitinho é socióloga, doutoranda em geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

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