“Surubinha de Leve” e o padrão duplo do machismo no funk

Foto por Yasmin Formiga.

Por Amanda Cavalcanti.

No último domingo (14), a Ludmilla postou um tweet que citava a letra de uma das muitas músicas cotadas como potenciais hits nesse verão de 2018, “Surubinha de Leve”. E não foi só a cantora que gostou: lançada há quatro meses, a faixa ganhou há um mês uma divulgação pelo Legenda Funk, um dos maiores canais de funk do YouTube, e já passava das 12 milhões de visualizações. No Spotify, a música tem mais de um milhão de execuções e, segundo a Billboard, está entre as 50 músicas brasileiras mais tocadas do serviço de streaming na última semana.

No entanto, quando postou a letra do refrão no Twitter, Ludmilla encarou algumas dezenas de respostas de fãs furiosos. Isso porque, depois dos versos citados pela cantora, “Só surubinha de leve / Com essas filha da puta”, o autor da faixa MC Diguinho descreve o que acontece durante a surubinha: “Taca a bebida / Depois taca a pica / E abandona na rua.” Depois da reação ao tweet de Ludmilla, o vídeo no canal do Legenda Funk foi apagado na tarde de terça (16).

Não é a primeira vez que um funk ganha atenção por sofrer acusações de descrever uma aparente cena de estupro: “Baile de Favela”, sucesso de MC João e DJ R7 em 2015 em que o funkeiro deixava a “xota” da menina “ardendo”, e “Covardia”, do Livinho e Perera DJ, em que o queridinho das fãs de funk queria “abusar bem dessa mina”, também foram alvo de reclamações por parte de mulheres ouvintes e não-ouvintes de funk por todo o Brasil.

Há, no entanto, uma diferença grande entre as letras de Livinho e João para a do novo sucesso: apesar da linguagem agressiva, a situação descrita era claramente consensual. Em “Surubinha de Leve”, Diguinho fala abertamente e claramente sobre embebedar uma mulher para que fosse mais fácil dominá-la, estuprá-la e abandoná-la na rua. A violência nos versos do MC despertarou ânimos nas redes sociais e provocou posts com milhares de curtidas, como este abaixo.

Mas duas questões podem ser colocadas sobre a maneira como a problematização da letra de “Surubinha de Leve” tem sido feita. A primeira é a de que, ao contrário de carregar culpa ou influência na cultura do estupro ou misoginia, é bem provável que os versos de MC Diguinho sejam um reflexo dessas já estabelecidas relações sociais. São letras violentas que carregam um lastro já muito palpável de violência e desigualdade, antes de necessariamente exercerem uma influência ou incentivo para tal.

A segunda é um pouco contraditória: ao mesmo tempo em que, em alguns momentos, o funk pode ser usado como bode expiatório para que seja despejada uma onda de preconceito de classe e racismo, ele costuma ter suas problematizações desconsideradas pelas mesmas razões. E isso abre precedentes para que as letras de Diguinho sejam encaradas como normais mesmo depois de passarem muito, muito dos limites.

As mulheres que escolhem consumir cultura pop enfrentam, de tempos em tempos, o dilema de ter que lidar com o machismo tido como “aceitável” ou “menos agressivo”, e essa questão se torna ainda mais delicada no momento em que uma faixa como “Surubinha de Leve” alcança picos de popularidade pelo país. É fácil se impressionar pelas letras de Diguinho por sua qualidade explícita, mas, em última análise, o MC não fez pior (nem melhor, pelo amor de deus) do que algumas outras músicas que você escutou em festas nos últimos anos: Henrique e Juliano e sua insistência em namorar a garota que já disse não; Maluma dizendo que as quatro garotas por quem está apaixonado “fazem sexo quando eu digo, nenhuma me contesta.”

Como encarar o problema no machismo no funk, então? Nesses momentos, a solução talvez se encontre em pensar no machismo e na cultura de estupro como problemas estruturais, universais e – nessa parte, a decisão é completamente sua – igualmente perdoáveis ou imperdoáveis.

Fonte: Vice Brasil

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