Seminário sobre o tabaco: “O negócio é frio assim”

2017-06-07 18:54
Seminário sobre o tabaco: “O negócio é frio assim”

Quem planta tabaco sofre com a instabilidade do marcado internacional, com os efeitos nocivos os agrotóxicos no plantio e da nicotina absorvida pela pele na colheita disseram os especialistas ouvidos pelo Portal Desacato. Ao todo, 159 mil famílias no Brasil estão sujeitas a esta condição.

Por Marcelo Zapelini, para Desacato.info (texto e foto)

A doença da folha verde do tabaco (DFVT), por exemplo, afeta mais de 10% dos trabalhadores. Essa é uma forma de intoxicação aguda resultante da absorção dérmica da nicotina presente na folha da Nicotiana tabacum (planta do tabaco). “As mulheres são mais afetadas pela doença, que causa tontura, dor de cabeça, náusea, vômitos. Os agricultores relatam, também, fraqueza, insônia”, explicou a epidemiologista da UFPel, Anaclaudia Gastal Fassa.

A intoxicação por agrotóxicos atinge cerca de 8% dos fumicultores. Em geral, os fumicultores são expostos a mais de um agrotóxico ao mesmo tempo. Para a professora, o risco de interação destes produtos químicos à nicotina, que estão associados a problemas mentais, como ansiedade e depressão e dor lombar crônica. “A DFVT é só a pontinha do iceberg. A gente não sabe as consequências da exposição em longo prazo”.

Os equipamentos de proteção individual fornecidos pela indústria do tabaco são inúteis para evitar o problema. Por a borracha das luvas e roubas “pelam” quando o sol esquenta. “É um equipamento que causa doença ao invés de proteger. Pois protege da nicotina, mas causa doenças relacionadas ao calor e problemas na pele”, avaliou Fassa.

Para Alessander Von Wagner Fagundes, da Cooperfumo, em Santa Cruz do Sul, RS. A sensação de segurança da produção do tabaco é uma falsa. “A segurança que parece existir é essa: a indústria tem o instrutor que dá todas as orientações e vai buscar o produto em casa. Você achar que está estável faz parte da campanha ideológica da indústria fumageira”, disse Fagundes. Porém, todos os anos há briga pelo preço, que é cotado no mercado internacional. Além disso, as famílias precisam comprar no mercado os alimentos que deixaram de produzir.

Nessa atividade há o arresto que a apreensão da produção em troca da dívida. “O negócio é frio assim: o agricultor diz que vai se enforcar e a empresa diz: se enforca pra lá que aqui a gente vai passar com o carregamento”.

A melhor solução para todas essas situações é a diversificar a produção até o abandono completo dessa produção. É o que defende o Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (Capa). “Começar a diversificar já é bom. A inserção da cultura do tabaco desestabilizou toda a tradição cultural de produção de alimentos, que é saudável e extremamente solidário” apontou Rita Surita.

Segundo a ativista, são as mulheres as primeiras a escolher a redução do tabaco nas propriedades, que tem maior preocupação com a qualidade de vida da família. “A gente nessa chamada pública, tínhamos no mínimo de 50% de mulheres, mas gente viu que era muito mais, como aquelas envolvidas em comercialização pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar. As mulheres eram mais de 70%. A gente constata que elas são muito ativas nessa decisão”, disse Surita.

Essa camada pública, feita pelo extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), contratação entidades como o Capa para a execução de serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), é uma resposta à Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, da Organização Mundial da Saúde (OMS), a qual o Brasil ratificou em 2005.

A convenção possui uma série de artigos para o controle do tabagismo e em especial os Artigos 17 e 18, que tratam sobre “apoio às atividades alternativas economicamente viáveis” à cultura do tabaco e “saúde e meio ambiente”, respectivamente.

No contexto do corte de gastos do Governo Federal, que extinguiu o MDA, entidades envolvidas nesse programa no Sul do País criaram um Grupo de Trabalho (GT) para garantir a continuidade Programa Nacional de Diversificação em Áreas Cultivadas com Tabaco, que envolveu 30 mil famílias nos estados produtores (SC, PR e RS).

Elas irão propor a desburocratização da chamada pública, ampliação do prazo de execução para cinco anos, fortalecimento do enfoque de gênero.

O Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (SC), o Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (RS) e o Departamento de Estudos Sócio-Econômicos Rurais são as entidades da sociedade civil que compõe o grupo, que ainda inclui Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário e órgãos da saúde.

As entidades tomaram a decisão durante um seminário sobre diversificação da cultura do tabaco, promovido pela Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead).

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