Retrospectiva:Minicurso do Olavoh – A Relatividade do Fim (parte final)

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Olavoh chegou ao fim daquele ciclo. Trabalho intenso, desgastante. Em momentos sentiu a mais plena raiva e essa teve seu capítulo final na última live fracassada. Furioso, olhou o relógio e decidiu que hoje mataria o tempo com vídeos de acidentes de trânsito. Assim o fez. E fez de tal forma que se perdeu no tempo e se viu novamente com o tempo apertado para a conclusão do trabalho. Arrumou o mais rápido que conseguiu as malas e ordenou que as buscassem e deixassem próximas à porta do encontro.

– Gosto de sair e já ir pro aeroporto. Aqui no Brasil há muito atraso. Odeio. – justificou.

Vestiu roupa digna de fechamento e percebeu a caixas com os recados/sugestões/críticas dos últimos encontros. As equilibrou numa mão e abriu a porta da varanda. Ainda as equilibrando, foi ao encontro de seu celular e, como quem anda distraído, meteu a barriga no parapeito, incapaz de alcançar as caixas que, em instantes, se esfolaram no chão. Agradeceu por não arrebentar a cabeça de ninguém. Foi dar aula.
Entrou recebendo uma tempestade de aplausos e percebeu a presença do contratante/empresário/dono do hotel na plateia. Sorriu.

– Queridos… queridos. Muito obrigado! Muito, muito, muito, muito obrigado. Que alegria!

Ainda recebendo aplausos calorosos.

– Obrigado! Eis que chega nosso fim, não? Vem aquela dorzinha, mas a certeza de um lindo caminho percorrido juntos. Obrigado. Agora recebendo os aplausos finais.

– Estive pensando no trajeto até aqui. No primeiro dia, nas trocas intensas. O fim chega e não é possível mudar. Apenas guardar tudo que foi bom. Sabe… me ocorre os momentos que antecederam nosso encontro. As noites em claro que passei pensando o que trazer pra vocês. Como pensava em cada perfil, cada pessoa e forma de pensar. Como fazer o mais completo, construtivo e embasado encontro. Acho que vencemos juntos. Um fim, mas não um adeus. Mês que vem lanço um novo curso online e vocês que participaram dessas noites terão descontos. Pelo agora, me detenho à dor do fim e busco em minha alma a inspiração necessária para não desabar em lágrimas e, sim, me manter firme na missão de elevá-los ao mais alto estágio intelectual. Pois o fim é
relativo. Nós acabamos aqui, mas vamos pensar cada semente plantada no coração de vocês, seres vibrantes, seres de fome por conhecimento. Em 1937, numa conferencia em Genebra, Descartes disse: O fim é o começo do começo. Notemos sua profundidade e relevância.  Meu minicurso acaba hoje, mas estaremos juntos. O sexo quando acaba é o começo do cigarro ou explicações para as broxadas. O fim do amor é o começo da liberação do espaço no celular para vinda do tinder. O fim do amor em decorrência de um chifre é o começo do exercício de criação de outras formas argumentativas que expliquem a ruptura. E mais. O fim do leite pela manhã é o começo da nova forma de se tomar o chocolate. Logo, com água. O fim do mundo é o começo da expansão territorial dos et’s. E assim por diante. O fim é relativo. Mora no olhar de quem o vive.
Entendem?

Todos disseram sim.

– Quando Saussure concluiu o seu renomado trabalho em 1958, o “A Teoria da Relatividade”, entendeu que era hora de fazer do fim um começo e lá se foi experimentar-se, desafiar-se na pintura. E é o que farão a partir de hoje. Pegarão tudo que construímos nesses 5 dias e nos aventuraremos nos mais lindos mares por aí, ok?

Todos disseram sim e começaram novos aplausos. Olavoh interrompeu.

– Chega! Chega! Vamos lá. Quero agradecer o dono desse lugar. Sem ele nada seria possível. Ao senhor, empresário que me contratou e me permitiu desenvolver este lindo trabalho, além do conforto da imensa cama. Obrigado. Nos vemos. Tchau! Tchau! Busquem sabedoria.

 

Olavoh aproveitou o resto dos aplausos em sua saída sem se preocupar na pressa que demonstrava. Apesar da obrigação ao abraçar alguns exclusivos devidamente posicionados em sua espera, a atenção determinante foi para seu contratante. Disse algo no ouvido do mesmo, teve a confirmação e pegou as suas malas que estavam na parte de fora. Tomou o primeiro táxi e voo e traçou um plano para realizar as lives atrasadas. Já o hotel seguiu lucrando bem e com boa repercussão, mas o presidente nunca apareceu por lá. Era fakenews.

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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