Quanto você paga pelo frete grátis?

Gigante do varejo chega ao país quando multiplicam-se, em todo o mundo, críticas sobre sua lógica: cobrar “barato” superexplorando trabalhadores e esmagando concorrentes

Imagem: Reprodução Outras Palavras.

Por Gabriele Leite.

Um enorme galpão, de 47 mil metros quadrados, repleto de prateleiras, esteiras e escorregadores, caixas de papelão, carrinhos de transporte, linhas de montagem de empacotamento, foi levantado em Cajamar-SP. Tudo pronto para receber xampus, liquidificadores, blocos de montar e outros mais de 120 mil itens de consumo que passaram a ser vendidos pela internet aos brasileiros pela Amazon, gigante norte-americana do varejo.

Não que a empresa já não tivesse atividades estabelecidas por aqui. Há seis anos a loja vende livros, disputando ferozmente com nosso mercado editorial em crise, e alguns produtos digitais. Além disso, seu sistema de computação na nuvem, o Amazon Web Service, abriga (e, portanto, controla) serviços de internet como o aplicativo de transporte individual 99. Trazer o site de comércio online com produtos diversificados e sistema de distribuição é apenas mais um passo.

Mas o comemorado centro de distribuição, que iniciou as atividades no Brasil no último dia 22 e fez caírem rapidamente as ações da Magazine Luiza e B2s (responsável pelo Submarino e Americanas.com), não é novidade em países como Estados Unidos e Europa. Por lá, ao que parece, as compras com um-clique estão parando de ser motivo para euforia, e começam a levantar dúvidas.

Liderada por Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, a Amazon começou em 1994 como uma singela porém gananciosa livraria virtual. Agora, que já comanda serviços de produção de TV, plataforma de streaming, assistente doméstica por voz, entre outros, parece estar saindo do controle e empurrando os Estados Unidos para um futuro distópico digno de um episódio sombrio de Black Mirror (série, aliás, produzida por sua rival Netflix).

Segundo artigo publicado na revista norte-americana 2069, as pessoas por lá se acostumaram demais às facilidades trazidas pela empresa, mas precisam perceber que algo está errado antes que seja tarde demais. Pelo andar da carruagem, os planos da Amazon vão muito além de produzir séries e vender assistentes domésticas: sua intenção é monopolizar toda a cadeia de comércio, a ponto de poder decidir quem participa dela e quem deve cair fora. Para Stacy Mitchell, pesquisador de economia, isso não é um risco apenas para os direitos dos consumidores ou para a economia do país, mas para a própria democracia: “Poder econômico concentrado a esse nível historicamente anda de mãos dadas com o autoritarismo”.

Por sorte, a Amazon está começando a deslizar seus tentáculos em terras brasileiras há menos tempo. Mas é preciso ficar de olhos bem abertos para esse tal novo centro de distribuição. Estados Unidos e Europa já nos dão exemplos de que o segredo das entregas rápidas não é só tecnologia de ponta, mas também exploração atroz de trabalhadores. Há denúncias de que em armazéns norte-americanos, funcionários preferem urinar em garrafas para não sofrer represálias — afinal os poucos banheiros ficam muito longe, e caminhar até lá poderia fazê-los perder tempo demais. Em um caso surreal em Nova Jersey, um robô intoxicou 54 funcionários, após perfurar spray de repelente de ursos. Na Europa, centenas de trabalhadores entraram em greve durante a black fridayexigindo melhores condições de trabalho: “nós não somos robôs”, diziam seus cartazes.A imprensa especializada diz que ainda é pouco para ameaçar as empresas brasileiras de varejo. Há de se acompanhar. Porém, é de se esperar que, em um futuro que parece nos levar cada vez mais à posição de quintal norte-americano, corremos o risco de, assim como eles, cair na cilada da praticidade — custossíssima — das compras online de entrega veloz.

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