Porque lutamos, é a hora de São João da Barra no RJ

Publicado em: 21/07/2011 às 22:20
Porque lutamos, é a hora de São João da Barra no RJ

Por Raul Longo.

Éramos seguidos por duplas intimidadoras a cada vez que saíamos de casa. Tínhamos de nos conter perante as provocações e ofensas dos interessados em empreendimentos paralelos à instalação do megaestaleiro que se anunciava como o maior da América Latina. Recebíamos acusações pela internet e pela imprensa local que nos acusava de impedir benefícios àqueles mesmos a quem defendíamos.

Companheiros políticos tiveram suas candidaturas alijadas do esforço promocional da campanha partidária ao pleito de 2010. Embarcações de pescadores foram apreendidas por alegações inéditas da Marinha local e tivemos de nos cotizar em pagamento de pesadas multas para a liberação de seus instrumentos de trabalho e sustento.

Éramos submetidos a constantes inverdades sobre os motivos e caráter de nossa luta, e a realidade de nossa região. Só tínhamos os meios de divulgação eletrônica para nos defender. Contamos com o apoio dos blogs e sítios: “Dilma na Rede, “Quem Tem Medo do Lula?” (atual “Quem Tem Medo da Democracia?”), “redecastorphoto”, Grupo Beatrice”.

Também nos auxiliou o “Assaz Atroz“, e, aqui em Florianópolis, destacaram-se os blogs “Faaala Sambaqui e “Sambaqui na Rede”  e os portais “Portal Daqui e “Portal Desacato.

Para implantar seu projeto em Santa Catarina, irresponsavelmente o empresário Eike Batista adquiriu extensa área que abrange dois municípios de nossa região. Sem qualquer prévia consulta sobre a realidade local e através do apoio político dos principais partidos do estado e de agremiações das elites, tentaram nos impor suas assumidas e propagadas pretensões de ilimitado enriquecimento.

Sem nenhuma demonstração de sensibilidade humana ou preocupação ambiental, armaram audiências públicas através das quais se propagou publicitariamente as conquistas das empresas X. Aqueles que ousaram contestar expondo razões de desacordo ao empreendimento, foram noticiados pela imprensa local como bêbados e baderneiros. Reagimos comparecendo à última assembleia com exibição de nossas manifestações culturais, narizes de palhaços e apitos, sem nos deixar intimidar pelos 9 guarda-costas postados em prontidão de ataque e as teleobjetivas constantemente miradas contra nossas crianças por 2 fotógrafos típica e ridiculamente caracterizados de escolta de magnatas árabes.

Contamos 9 ônibus de luxo que transportaram a população das periferias de Biguaçu, a ser utilizada como claque. Iludidos pelo prefeito daquele município com o anúncio de criação de 4 mil empregos em atividades nas quais nunca tiveram formação ou experiência, graças ao evento de ostentação de força e poder da OSX tivemos a oportunidade de informá-los sobre a omitida extinção de no mínimo 20 mil empregos em atividades tradicionais da região: pesca, maricultura, agricultura, gastronomia, artesanato, comércio e turismo.

Eike Batista nos acusou em transmissão nacional de sermos meia dúzia de ecos-xiitas preocupados em defender um cardume de golfinhos. Até então éramos poucos, sim, e o empresário sabia de nossa impossibilidade de demonstrar que os golfinhos de nossa luta era a população da Grande Florianópolis. Mas, talvez por essa declaração, nos angariou o apoio de alguns jornalistas como o Paulo Henrique Amorim.

Insistindo em ignorar a realidade mesmo quando advertidos por especialistas por eles contratados, tentaram omitir a existência do laudo indicativo de riscos irreversíveis a serem potencializados pelo empreendimento. E hoje processam o cientista Simões Lopes por termos logrado a divulgação daquele documento ignorado e escamoteado pela inconsequente presunção de que a imediata progressão econômica de poucos, deva prevalecer sobre as condições de sobrevivência de toda uma população.

Lamentaremos profundamente se o oceanógrafo Simões Lopes for penalizado por termos utilizado de sua correção científica, confirmada por reconhecidos especialistas e doutores de instituições privadas e públicas que apontaram erros elementares e grosseiros na análise arranjada em substituição a de Simões Lopes.

Talvez por mero lapso e não por provocação a estes cientistas, naquela última audiência pública o diretor da empresa contratada para estudo substitutivo ao de Simões Lopes, mais de uma vez se referiu aos golfinhos como “bicho”. Embora nossa luta não fosse pelos golfinhos ou qualquer outro animal que não o ser humano, em momento algum nos pareceu que fizéssemos maior diferença do que uma barata de praia.

Entretanto não há o que nos lamentarmos sobre nós mesmos. Afinal, com a colaboração de tantos em todo o Brasil, apesar de sermos realmente poucos no início, terminamos vencendo.

Para lamentar só nos restou a lembrança das sanções sofridas por técnicos e cientistas que mantiveram a prerrogativa de defesa dos interesses públicos. E também aos que os sancionaram e ameaçaram publicamente: superiores hierárquicos, autoridades e políticos que ao priorizar os interesses do empresário Eike Batista em detrimento da responsabilidade pública, perderam nosso apoio e credibilidade.

A esses lamentamos muito, pois sabemos quanta falta faz à história do Brasil, e de Santa Catarina em particular, o devotamento aos reais interesses do futuro de sua gente. Devoção da qual os acreditávamos imbuídos.

Ao contrário das ilações dos que nos prejulgaram sem conhecimento, não somos contrários ao implemento e evolução da indústria naval brasileira. Regozijamo-nos pela recuperação de setor tão vital a um país com nossa extensão costeira, mas não nos conformamos com o financiamento do desenvolvimento através de custos humanos.

Por mera questão de responsabilidade humana e por termos passado exatamente pelo que agora passa a população documentada no vídeo de acesso pelo link http://www.youtube.com/watch?v=RA9h2AKGlSc., alimentamos a confiança de que o slogan utilizado pelo governo Dilma Rousseff: “país rico é país sem pobreza”, se exemplifique no impedimento de que esses depoentes sejam levados para a mesma miséria e degradação humana a que seríamos submetidos, se não tivéssemos lutado nem recebido apoio até de brasileiros e estrangeiros que vivem no exterior.

Conhecemos os pesados métodos de “persuasão” financiados pela maior riqueza individual do Brasil e nos preocupa a impressão de que embora em São João da Barra as  pessoas sejam tão simples quanto nossos pescadores, lá não contem com a participação de proprietários de residências e imóveis de alto padrão e empresários de valorizados empreendimentos de turismo e comércio que aqui estiveram ao nosso lado.

À nossa vitória, pela qual também devemos reconhecimento aos Ministérios Públicos Federal e do Estado de Santa Catarina, não pode corresponder à derrota de outros brasileiros em qualquer parte do país.

Assim como não admitimos o absoluto desrespeito à nossa cultura e história; também não podemos admitir o que está se passando com a população do litoral do Rio de Janeiro e sabemos bem do que se trata. Pedimos a todos que nos apoiaram que também apoiem a gente de São João da Barra do estado do Rio Janeiro, vitimada pelos mesmos intentos e a mesma prepotência e irresponsabilidade que nos atingiu no ano passado.

Indústria naval, sim. Mas sem o afogamento e inviabilização de condições de sobrevivência das comunidades litorâneas. Somos uma das maiores costas litorâneas do mundo e inadmissível que pelo aproveitamento desse potencial se aceite a eliminação de insuperável potencial maior: o humano.

Imagem: Rosinha Garotinha e de costas Eike Batista. redenoticias.net.br

 

 

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