Operação Condor: é ‘muito difícil’ investigar crimes da ditadura do Brasil, diz procuradora uruguaia na Itália

Guianze foi ouvida na I Corte de Assis do Tribunal de Roma. Foto: Janaina Cesar/Opera Mundi

Por Janaina Cesar.

Mirtha Guianze, ex-procuradora uruguaia, depôs na manhã desta segunda-feira (09/04) em Roma no processo italiano que apura o envolvimento de ex-agentes da ditadura militar do Brasil no assassinato de Lorenzo Viñas Gigli, cidadão ítalo-argentino que militava no movimento Montoneros e desapareceu na fronteira com o Uruguai.

Ela, que investiga sequestros durante a repressão, reclamou dos problemas que enfrenta no Brasil para fazer sua apuração. “No Brasil, ainda existem documentos secretos e investigar crimes cometidos aquele tempo (ditadura militar) é ainda muito difícil. Além disso, não existem processos contra generais brasileiros”, relatou.

Guianze foi ouvida na I Corte de Assis do Tribunal de Roma. Durante 45 minutos, Guianze foi interrogada pela procuradora Tiziana Cugini e explicou suas investigações, que começaram a partir de cidadãos uruguaios que haviam sido sequestrados no Paraguai após deixarem o Brasil.

Segundo ela, o Rio Grande do Sul foi o Estado que “mais colaborou com o Uruguai durante a Operação Condor”. A ex-procuradora também apontou o dedo para o Itamaraty. “O Itamaraty sabia de tudo o que acontecia  em outros países. As embaixadas brasileiras trocavam informações através do CIEX [Centro de Informações do Exterior do Itamaraty], uma rede clandestina de espionagem que era vinculada ao SNI [Serviço Nacional de Informações]”, disse.

No entanto, Guianze não conseguiu lembrar os nomes dos agentes brasileiros envolvidos nos casos que investigou.  “Os nomes dos brasileiros eram complicados. Por causa do duplo sobrenome, ficava difícil identificá-los”, afirmou.

Os brasileiros acusados pelo Ministério Público Italiano são: João Osvaldo Leivas Job, Carlos Alberto Ponzi e Átila Rohrsetzer. Para a Justiça italiana, na data em que Viñas foi sequestrado, Leivas Job era secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Ponzi chefiava a agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre; e Rohrsetzer era diretor da Divisão Central de Informações do Rio Grande do Sul.

A ex procuradora relatou que, no Uruguai, não é possível processar pessoas à revelia, como na Itália. Por esse motivo, nenhum agente brasileiro ou paraguaio foi investigado pelos crimes da Condor – ao contrário dos uruguaios. “Hoje, muitos ex torturadores estão sendo processados, e outros estão presos no meu país”, disse.

Histórico

O caso específico contra os brasileiros teve início em abril de 2015, quando Opera Mundi revelou com exclusividade que o Ministério Público Italiano denunciaria Leivas Job, Carlos Ponzi e Rohrsetzer pela morte de Viñas.

Desde janeiro de 2016, a Corte de Roma já ouviu cinco das 34 testemunhas previstas para depor sobre o caso: a arquivista Giulia Barrera e a historiadora Federica Martellini, ambas italianas; o gaúcho Jair Krischke, presidente da ONG Movimento de Justiça e Direitos Humanos; e a argentina Silvia Tolchinsky, ex-militante do movimento Montoneros. Ela foi a última pessoa a ver Viñas vivo.

As próximas testemunhas chamadas pelo Ministério Público da Itália para depor são os jornalistas Gustavo Molfino (Argentina) e Patricia Mayorga (Chile), em audiência que deve acontecer no dia 14 de maio.

Opera Mundi é o único veículo de comunicação brasileiro a acompanhar o processo.

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