O som ao redor e a primavera pernambucana

José Geraldo Couto: no cinema.

O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, é um filme assombroso, nos melhores sentidos que a palavra possa sugerir. Mas não se trata de um epifenômeno, de um mero produto do acaso. Por um lado, ele é resultado do processo de amadurecimento artístico do diretor recifense, que já tinha mostrado inventividade e competência em curtas como Vinil verde, Eletrodoméstica e Recife frio e no documentário Críticos.

Mais que isso, o filme, que estreia hoje (24 de agosto) em Nova York e foi premiado em Roterdã e em Gramado, pode ser visto como uma depurada síntese do vigoroso cinema produzido em Pernambuco nos últimos quinze anos. Vou tentar explicar a afirmação.

O moderno e o arcaico

Se há algo em comum entre os filmes tão variados dessa produção, é o fato de conjugarem de modo audaz a tradição e a modernidade. Isso fica particularmente evidente em obras como Baile perfumado, Árido movie, Cinema, aspirinas e urubus, Deserto feliz e Baixio das bestas. O que move todos eles, no fundo, é a tensão, ou antes a fricção, entre a presença no mundo urbano globalizado e os resquícios de uma cultura profundamente violenta e patriarcal. Os signos do contemporâneo e a persistência do arcaico, tudo ao mesmo tempo agora. Não foi à toa que se fez um paralelo entre o Árido movie e o mangue beat, que realiza uma operação análoga na música popular.

O som ao redor articula essa equação de modo mais sutil e menos estridente que a maior parte da filmografia pernambucana. É como se o terreno já tivesse sido desbastado – e ao mesmo tempo semeado – para o advento deste filme esplêndido.

Pois bem, mas de que trata O som ao redor? Na superfície, é a crônica da vida cotidiana de diversos moradores de uma rua de classe média de Recife. No passado uma bucólica e arborizada rua de residências térreas e sobrados, hoje é dominada por grandes prédios de apartamentos. Uma das poucas casas que subsiste é a do antigo dono dos terrenos de quase toda a rua, o velho usineiro Francisco (W. J. Solha). Seu neto João (Gustavo Jahn), que mora na mesma quadra e acaba de voltar de uma temporada de sete anos na Alemanha, trabalha como corretor de imóveis.

Bastariam esses dois personagens, avô arcaico e neto cosmopolita, para sublinhar as mudanças – culturais, sociais, arquitetônicas – vividas nos últimos tempos por Recife, uma cidade em vertiginoso processo de verticalização. Mas, para além dos pequenos atritos entre moradores, e destes com os trabalhadores que os servem (guardadores de carros, domésticas, porteiros, entregadores), introduz-se um novo elemento perturbador, a chegada de uma equipe de vigilância urbana privada, que se instala na rua com seus walkie-talkies, seus celulares e o discurso de eficiência de seu chefe (Irandhir Santos). Há um drama sangrento fermentando sob a superfície dos dias e das noites.

Os ruídos como narração

A façanha maior de Kleber Mendonça é radiografar toda uma situação social sem perder de vista a singularidade irredutível de seus personagens (que são gente de carne e osso, não “tipos”), captando o que há de significativo em cada gesto e, claro, em cada ruído.

O desenho de som do filme (assinado pelo próprio diretor) é excepcional: os ruídos contam o dia a dia dos personagens e da cidade, vazam de um ambiente a outro, de uma família a outra, fomentam desejos e ódios. O latido contínuo de um cachorro permeia toda a narrativa e ajuda a moldar a vida da dona de casa Bia (Maeve Jinkings), talvez a personagem pela qual o filme mostra mais carinho. As imagens mais originais são as que a flagram em pequenos gestos secretos: ao soprar a fumaça de um baseado na mangueira de um aspirador de pó, ao usar a máquina de lavar roupas como vibrador, ao incrustar soníferos num bife para dar ao cão da vizinha.

A construção narrativa é de uma fluência notável. Passa-se de um personagem a outro, de um episódio a outro, com a maior desenvoltura. Um exemplo entre muitos: João, o jovem corretor, mostra um apartamento vazio a uma cliente; a filha da mulher vaga pelos cômodos, chega ao terraço e vê um garoto jogando bola sozinho no pátio do prédio vizinho; a bola do garoto salta o muro e cai no prédio onde está a menina; como ninguém devolve a bola, o menino volta frustrado para casa; a câmera o acompanha e dá início a um novo microepisódio, abandonando João e sua cliente.

Grão de estranheza

Por fim, há que destacar o grão de estranheza inserido por Kleber Mendonça em determinados pontos de sua história. A certa altura, por exemplo, vemos uma infinidade de vultos invadindo uma casa. Pode ser só um sonho da filhinha de Bia, mas pode não ser. Em outra passagem, a água da cachoeira em que João se banha com o avô e a namorada se transforma em sangue. Corta para o plano seguinte em que vemos João abrir os olhos. Terá sido uma visão? E o que dizer do vulto que se esgueira na casa em que o chefe dos vigilantes tem um encontro furtivo com uma faxineira? Soltos, inconclusivos, esses breves planos provocam uma expectativa que não se resolve e não se pacifica, são fagulhas que agregam tensão à narrativa.

Entre as cenas mais inspiradas, há a visita que João e a namorada fazem às ruínas de um cinema que funcionava junto ao engenho do avô. Restaram apenas a fachada e parte das paredes. Dentro, o mato tomou conta. Os sons (sempre eles) de filmes antigos invadem o ambiente e introduzem fantasmas – apenas imaginados – a interagir com os dois jovens.

É essa crença na potência imaginativa e transfiguradora do cinema que Kleber Mendonça nos oferece com seu filme, que deve entrar em cartaz no país em novembro. Para quem se interessar, ontem (dia 23 de agosto) foi publicada uma crítica no New York Times.

Fonte: http://blogdoims.uol.com.br

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