Não há outro nome: é censura!

Publicado em: 16/09/2017 às 13:53
bad memories
Rafael Guimarães

Por Rafael Guimarães, Ilhéus, para Desacato.info.

Revisado por Elissandro Santana.

Concordo com Achille Mbembe, intelectual de Camarões, quando ele fala que não seria forte demais usar a expressão “fascismo” se não estivéssemos vivendo de forma tão frontal uma experiência anti-humanista, que envolve, também, um desprezo imenso pela democracia. Freud, em seu texto escrito entre 1920 e 1923, “Psicologia das massas e análise do eu”, nos alertava para a irracionalidade das massas, que nega todo e qualquer princípio de realidade, e Deleuze nos dizia, desde a crítica à psicanálise, sobre como o fascismo vive em cada um de nós e pode ser capturado por máquinas que reproduzem os sistemas de poder. Como diz Mbembe, a era dos humanismos está no fim, e assevero que o deus-mercado está cada vez mais se apoderando dos espaços possíveis, abrindo o alçapão e tirando de lá aquilo de mais fétido, transformando-o em âncora para os nossos tempos, o pior da moralidade.

Achille Mbembe: “A era do humanismo está terminando”

Queria que minha “Borracha de más memórias”, trazida de Zagreb, numa visita ao Museum of Broken Relation Ships, não fosse apenas uma metáfora para esta semana, mas que ela efetivamente funcionasse. Queria “des-ver” momentos horrorosos de censura às artes, protagonizada por grupos conservadores, aliados a políticos e tendo o aparelho da polícia e até a justiça a seu favor. Censuraram a arte, da forma mais medonha possível! Não que isso seja novo, eu mesmo escrevi um texto aqui sobre o caso ocorrido em Brasília com o artista Maikon K recentemente e a história das artes tem diversas situações desta natureza.

A repressão e a patologização da arte

DNA de DAN voltou a Brasília, um enfrentamento estético mais do que necessário. Dias depois, a exposição “Queermuseu” foi fechada pelo Santander Cultural, depois de manifestações do MBL. Em seguida, houve uma tentativa de fechamento da exposição “Não matarás”, sobre o golpe de 1964; o quadro “Pedofilia”, da exposição “Cadafalso”, da artista Alessandra Cunha Ropre, foi levado pela Polícia Civil, seguindo ordem judicial. Ontem, a peça teatral premiada e já apresentada em outros países, “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, foi cancelada, também por ordem judicial bastante controversa em sua textualidade, porque a protagonista é uma mulher trans, Renata Carvalho. Como mandatários destes “pedidos”, atendidos pela Justiça, pela Polícia e pelo Banco, há figuras que pregam, desde muito tempo, a intolerância.

Tal não foi o meu espanto quando verifico, nos comentários das matérias, que há muita gente não ligada diretamente a estes movimentos apoiando-os. As tais “obras” versam, de forma questionadora, exatamente sobre os esquadrinhamentos e as opressões de gênero, sobre a escravidão humana e animal, sobre a necessidade de se discutir isso, sobre a necessidade de feminismos, de arte engajada e da reflexão sobre os corpos para encontrar caminhos para uma sociedade mais humanista! Por mais que alguém possa não gostar das escolhas estéticas das pessoas artistas, arte não é propaganda de nada, é um dispositivo para a reflexão. Dispositivo aberto, que você pode gostar ou não, concordar ou não, muito diferente da maneira dogmática como estes textos jurídicos, estes manifestos políticos, estes discursos conservadores inflamados as têm tratado.

E me preocupa exatamente isso: as pessoas estão, de maneira irracional, desesperadas e confusas, seguindo estes discursos, sem olhar ao lado. Esse mesmo movimento já vem deslegitimando a educação pública, os direitos das pessoas de se casarem com quem desejarem, as cotas raciais e sociais; é preciso perceber que são as mesmas pessoas, e há muita gente seguindo o caminho massificado, acreditando nessas histórias únicas, parcializadas, inventadas. Lembrei-me daquele filme alemão “A Onda” (Die Welle), de 2008, dirigido por Denis Gansel, refilmagem do filme homônimo de 1981, acerca do experimento social em Palo Alto, nos Estados Unidos. Os alunos do professor repetem inúmeras vezes que nunca mais a Alemanha iria se engajar num experimento fascista, mas, após os exercícios persuasivos, que envolvem condicionamentos corporais e palavras de ordem, a juventude cria um movimento intolerante que não termina muito bem.

O que tenho observado é que esta “onda”, mesmo que sempre tenha existido, está pronta para nos capturar, para que estejamos prontos a seguir na vigilância pouco questionadora em prol de uma sociedade homogeneizada, controlada, ganhou força nesse momento de ânimos aflorados. São ignorância e medo que regem esse séquito que vai se formando; é exatamente o pouco contato que nossa sociedade dá à fruição sensível do mundo. É preciso ser sensível à arte, porque seu jogo é estético, ela é feita para ser questionada, compreendida a partir de sua lógica própria. Arte não é propaganda, quem faz e fazia propagandas são os regimes totalitários que precisam dela para persuadir e encontrar seguidores. A arte não busca seguidores, ela precisa estar no mundo, ter relação com ele; a persuasão é parte do jogo da propaganda e não da arte.

A arte não tem o intuito de persuadir, mas de questionar, deslocar e ampliar possibilidade para o múltiplo. Colocar artistas no banco dos réus é repetir nossos péssimos exemplos da inquisição, é apoiar a intolerância que as religiões afro-brasileiras sofrem diariamente e que tem se tornado cada vez mais presentes, é apoiar os assassinatos das pessoas trans travestis, é dizer que há algo que foge do mundo binário cartesiano judaico-cristão que deve ser eliminado, que é necessária uma repulsa àquilo que sair do que é “normal”. Precisamos nos unir e espero mesmo ter como camaradas nessa empreitada aquelas e aqueles de bom senso, que acreditam num mundo mais humano.

É preciso ainda mais criação nesse momento. Criação de outros modos de existência no empreendimento de uma vida menos ordinária, menos fascista, uma guerrilha de sensibilidades que toque de algum modo nos pontos que sempre tocamos, seja nas artes, nas religiosidades e/ou na educação. Não queremos um mundo homogêneo, queremos o múltiplo e o contraditório; quem propagandeia o homogêneo é quem está tolhendo o espaço de lógicas múltiplas que podem e devem ser questionadas, no limite do respeito e do entendimento de cada uma dessas lógicas. Não é possível tolerar a intolerância que propõe cura gay, proibição de religiosidades afro-brasileiras, que exclui a discussão sobre as diferenças da escola e que apreende quadros em delegacias.

Não tem outro nome: é censura. Queria poder usar minha borracha, mas já que não é possível, ao menos sigamos para uma luta por humanidade, por respeito. É preciso braços e pernas e corpos unidos criativamente nessa jornada.

 

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