Jovens contrários a Bolsonaro relatam agressões, laços rompidos com parentes e ameaças online

Homem gay relatou ameaça homofóbica em seu Facebook | Foto: Reprodução/ Facebook

Por Débora Fogliatto.

Os casos de pessoas agredidas e ameaçadas devido a motivações políticas, especialmente em ataques feitos por apoiadores do candidato Jair Bolsonaro (PSL) contra minorias sociais e opositores da candidatura têm aumentado exponencialmente no país. No Rio Grande do Sul, a situação mais chocante até agora registrada foi a agressão a uma jovem lésbica na última quarta-feira (10), na Cidade Baixa, em Porto Alegre, que a deixou com um machucado feito com um canivete na barriga.

Mas dezenas de outros casos vêm acontecendo diariamente, desde poucos dias antes do primeiro turno, tendo como alvo principalmente pessoas da comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Segundo levantamento feito pela Agência Pública, já foram mais de 50 ataques violentos em todo o país, dos quais 14 teriam ocorrido na região sul.

A maioria das situações de ameaças são caracterizadas por terem como vítimas pessoas que ou têm trejeitos e estilos que remetem à sua sexualidade, ou utilizam acessórios contrários a Bolsonaro. Na segunda-feira (8), Filipe Teixeira, que é homossexual assumido, caminhava perto de sua casa, na Zona Sul de Porto Alegre, indo almoçar. Quando atravessava a avenida Wenceslau Escobar ouviu gritarem da janela de um carro “Bolsonaro vai matar viado”!

Filipe destaca que o ocorrido demonstra que, apesar do próprio candidato não cometer violência de forma explícita, o seu discurso legitima os seus seguidores a agredirem minorias. “Isso aconteceu um dia depois da apuração dos votos e ‘o cara’ nem foi eleito ainda! O que essa galera cheia de ódio vai estar fazendo quando sentirem suas ações respaldadas pela figura emblemática do nosso lunático presidente?”, questiona.

Um caso semelhante ocorreu com Antônio*, na avenida João Pessoa, quando saía do posto de gasolina localizado na esquina com a Venâncio Aires com uma amiga, no último domingo (7), dia do primeiro turno eleitoral. “Conversávamos sobre as eleições, já começavam os dados das apurações. Só tínhamos saído pra comprar cerveja. No caminho de volta, um cara se aproximou bastante da gente, vindo na nossa direção, e falou algo sobre Bolsonaro, como ‘Bolsonaro presidente’ e logo em seguida, passando bem pertinho falou ‘tão loucos pra levar uma facada mesmo’”.

Homem gay relatou ameaça homofóbica em seu Facebook | Foto: Reprodução/ Facebook

Assustados com a ameaça, Antônio e a amiga saíram correndo e entraram em um bar para se esconder. Ele considera que os dois estavam com roupas comuns: “minha amiga com uma regata, calça solta laranja, e eu de jeans, chinelo e regata preta. Não sei muito bem o porque disso conosco, mas com certeza minha amiga e eu carregamos signos, sou homossexual e ela bastante militante pela questão da moradia”, relata.

Bolsonaro, que havia se manifestado anteriormente dizendo que “não poderia controlar” seus eleitores, postou no Twitter nesta quarta-feira que dispensa “voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar”.

Seus apoiadores, porém, parecem já ter aderido à violência e à ameaça. Em dois momentos, Karolina foi mais uma das vítimas dessa intolerância, ambas as vezes caminhando na região central de Porto Alegre durante o dia. No mais recente, na rua Olavo Bilac, entre a José do Patrocínio e a Lima e Silva, foi abordada por um homem desconhecido. “Um senhor careca na calçada parecia estar passeando, mas ao me ver passar me perguntou se eu era eleitora do PT e eu respondi que era eleitora de qualquer um menos do ‘EleNão’, e segui andando. E ele começou a gritar pra mim: o Bolsonaro é quem vai acabar com a viadagem!”, conta.

Um homem gay também foi ameaçado quando pedalava em uma ciclovia em Porto Alegre, próximo à Rótula do Papa, momento em que foi quase atropelado por um carro. “O motorista gritou: ‘viado, petralha filho da puta. Logo o mito vai acabar com vocês e com essa bosta de ciclovia dos infernos!’”, relata.

Jovem atacada na Cidade Baixa

Amiga da vítima expôs imagem nas redes sociais, mas delegado diz que não é suástica | Foto: Reprodução/ Facebook

 

Uma jovem lésbica de 19 anos registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil relatando ter sido agredida por três homens na rua Baronesa do Gravataí, em Porto Alegre. Segundo o relato, quando foi atacada, ela vestia uma camiseta com os dizeres “ele não” e teve riscos feitos em sua barriga com canivete. Em postagem nas redes sociais, uma amiga da vítima afirmou que os cortes formariam o desenho de uma suástica. O delegado responsável pelo caso, porém, minimizou o ocorrido, dizendo que a imagem não se parecia “nem um pouco” com o símbolo do nazismo alemão, mas sim remeteria a um “símbolo milenar budista de amor e fraternidade”.

A advogada Gabriela Souza, que representa a jovem, afirmou que a vítima dispõe do prazo legal de seis meses para decidir se ingressará com representação criminal contra os homens que “a cercaram, imobilizaram e marcaram sua pele com uma malsucedida suástica, a canivete”. Ela informa que, embora a menina não tenha apresentado representação criminal, o caso não pode ser dado como encerrado, pelo menos enquanto o resultado do exame de corpo de delito não for divulgado.

“O mais importante, neste momento, é cuidar da saúde mental da vítima. Ela está recebendo apoio da família, de amigos e da equipe jurídica e pede privacidade para se recuperar e tomar as providências mais adequadas ao caso sem prejuízo ao seu bem-estar. Antes e independentemente de qualquer coisa, trata-se de uma pessoa que precisa de cuidado e apoio. É desumano exigir que uma vítima de tão horrenda atitude tenha posicionamento imediato”, diz a defensora.

Gabriela destaca ainda que uma jornalista que divulgou o ocorrido está sofrendo ameaças online. “Toda solidariedade também à jornalista que trouxe o caso à tona a partir do contato com a vítima. Ela vem sendo vítima do mesmo tipo de ataque simplesmente por ter tornado público o episódio, o que reforça a tese de que estas chagas são fruto de intolerância – e não de paz e amor”, diz a representante da jovem.

Ataques online

Segundo a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pelotas (ADUFPel), um professor da instituição também recebeu um e-mail anônimo com ameaças. Ele é acusado pelo remetente, que afirma estar em contato direto com a campanha de Bolsonaro, de estar fazendo “campanha comunista” na universidade. “O mesmo está ciente do ativismo político-comunista que a UFPel está fazendo, assim como outras. Saiba que a teta vai secar e o governo não vai mais financiar pesquisas inúteis”, diz a mensagem.

Já Rodrigo* foi atacado nas redes sociais após postar no seu Facebook contra Bolsonaro e sua cidade. “Me manifestei de forma exagerada, reconheço. Basicamente disse que minha cidade natal era uma merda, e cheia de fascistas de merda, porque o Bolsonaro ali teve mais de 70%. Logo depois, corrigi. Disse que a cidade não era ruim, mas que de qualquer forma estava cheia de gente pela qual não nutro respeito nem consideração”, conta.

E-mail recebido por professor da UFPel | Foto: Reprodução

Porém, já era tarde: alguém tirou um print da sua postagem, que começou a circular imediatamente por WhatsApp para toda a cidade, no interior de Santa Catarina. “Recebi uma ameaça atrás da outra. Que iam me quebrar, que iam me arrebentar, que me linchariam. Eu estou acostumado com troca de agressões verbais por política. Me chamam o tempo todo de comunista vagabundo, chamo o tempo todo de fascistas de merda. Mas nunca nem passou pela minha cabeça agredir alguém fisicamente por causa disso, e perceber que as pessoas estão dispostas a isso é bem assustador”.

Atualmente, ele mora na Europa, mas conta que o negócio dos pais dele também foi ameaçado. “Começaram uma corrente para boicotar os negócios dos meus pais, que não têm nada a ver com a história e inclusive devem votar no Bolsonaro por anti-petismo”, menciona. A reportagem do Sul21 tomou conhecimento de outros casos em que apoiadores de Bolsonaro em cidades do interior do RS planejam boicotes a estabelecimentos que pertencem a pessoas que apoiam o PT ou cujos filhos se manifestara pró-Haddad.

Relações familiares

Mas não é só nesse sentido que as eleições têm afetado as relações familiares. Dezenas de jovens contam ter perdido contato com seus pais, mães ou parentes em geral por não conseguirem conciliar suas posições políticas. Para muitos dos que são LGBTs, feministas ou defensores dos direitos humanos, é incompreensível que pessoas de suas famílias votem em um candidato que se posiciona contrário a essas pautas.

Em muitos casos, esses pais, tios, avós, são pessoas que já votaram no PT e agora dizem estar decepcionados com o partido e, por isso, acabam entrando em grupos de redes sociais de apoiadores de Bolsonaro. A partir daí, são envolvidos na rede de fake news e de difamações que são espalhadas nesses ambientes virtuais. É o que relata Renata*, que é jornalista e não mora mais no Estado, mas que percebeu as posições políticas da mãe pelo Facebook.

“Minha mãe já foi petista, votou no Lula, mas meus pais eram comerciantes e com a crise financeira eles foram super afetados, ainda mais no Rio Grande do Sul. A vida delas piorou financeiramente e isso motiva o antipetismo. Eles começaram a ler várias coisas que vemos por aí contra o PT, contra o Lula”, diz a jornalista. Acompanhando de longe, inicialmente ela evitou se manifestar, e lembra que nas eleições de 2014 e 2016 a situação não foi tão extrema.

Foto de um dos grupos “Mulheres com Bolsonaro” no Facebook | Foto: Reprodução

Por isso, diz que ficou surpresa com essa rápida “guinada à direita”. “Há cerca de um mês conversamos sobre isso, ela me disse que estava gostando das ideias do João Amoêdo [do Partido Novo]. Pensei que menos mal do que o Bolsonaro ou até que o Alckmin [PSDB]. Deixamos quieto, mas um tempo depois, pelo Facebook, ela começou a compartilhar coisas do Bolsonaro. Não sei se ela se influenciou por alguém ou começou a ver fake news e começou a acreditar”, diz Renata, apontando também que a aproximação com uma tia que mora no interior pode ter colaborado. “Ela está cada vez mais com ódio, raiva, destilando isso e acreditando nesse discurso”, lamenta.

Quando percebeu as intenções da mãe de votar no candidato, Renata tentou dialogar, mas não foi possível manter uma conversa sobre o assunto. “Eu tentei me posicionar, argumentei com dados, falei pra ela checar as fontes, eu sou jornalista, falei pra ela que estava compartilhando coisas bizarras. Ela veio com aquele argumento de que a imprensa também está do lado do PT, que tudo é comunista. Isso ficou cada vez mais forte, até que eu vi que ela entrou num grupo [do Facebook] Mulheres com Bolsonaro e pra mim isso foi a derrocada da nossa relação”, relata.

No dia da eleição, ela conta que a mãe começou a lhe enviar vídeos diretamente por WhatsApp, e foi aí que Renata pediu que elas parassem de se falar. “Eu falei que era pra não falar comigo por um tempo, que não conseguia compactuar com a pessoa que me criou apoiando alguém que quer ditadura de volta. E a gente não se fala mais, eu não tenho energia nem vontade de trocar com ela. Eu acho que ela não está entendendo que é algo maior. Meu irmão é bissexual, eu sou feminista, e daí, ela não tem noção do que pode acontecer com ele?”, indaga-se a jornalista.

Ela avalia que seu caso é um dos poucos dos quais tomou conhecimento no qual o rompimento de relações se deu com a mãe, e não com o pai. “A maioria das minhas amigas que passaram por isso foi com o pai. Até porque os casos mais comuns é o pai votar no Bolsonaro e a mãe não, em geral, a mãe tem aquele aspecto de cuidado com os filhos”, menciona, dizendo que está tentando conversar com seu pai para que ele vote em Haddad. Por enquanto, acredita que ele irá votar nulo ou branco. “Pelo menos há um diálogo”, afirma.

Casos pelo Brasil

Além da jovem que foi agredida na Cidade Baixa, casos de violência física e inclusive morte vêm acontecendo por todo o país, especialmente após o primeiro turno. Há diversos canais online que reúnem relatos, como as contas de Instagram “Victims of hate”, que expõe casos traduzindo o ocorrido para o inglês, e o “ele não vai nos matar”, que já conta com mais de 91 mil seguidores.

As organizações Open Knowledge Brasil e a Brasil.io, em parceria com a Pública, têm recolhido e monitorado casos de agressões ligadas às eleições de 2018, os quais são publicados no site Vítimas da Intolerância. Denúncias podem ser enviadas por este canal. O site Mapa da Violência também reúne relatos de agressões e ameaças.

| Foto: Reprodução/ Instagram

Há ainda registros pichações e cartazes com mensagens de ódio. Algumas delas são: “Bolsomito 17, morte aos negros, gays e lésbicas. Já está na hora desse povo morrer”, feita no banheiro de um cursinho pré-vestibular em Tamandaré; “Bolsonaro vai limpar essa faculdade de preto e viado. Preto vai morrer”, no banheiro da faculdade de Direito de São Bernardo, em São Paulo; e “Bolsonaro 17. Lugar de preto é senzala”, feito no banheiro de uma universidade em Minas Gerais.

O primeiro caso de crime de ódio registrado foi ainda na segunda-feira (8) na Bahia, com o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê por um apoiador de Bolsonaro que o atacou com uma faca quando ele disse que havia votado no PT. Em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, a artista transexual Julyanna Barbosa foi agredida com barras de ferro, chutes e socos.

Um estudante da Universidade Federal do Paraná, que usava um boné do Movimento Sem Terra (MST) teria sofrido agressões por parte de quatro integrantes de uma torcida organizada de Curitiba aos gritos de ‘Aqui é Bolsonaro!’. De acordo com o Diretório Central de Estudantes (DCE) da instituição, o estudante sofreu lesões na cabeça causadas por garrafas de vidro quebradas.


*Os nomes foram alterados quando requisitado para proteger as identidades das fontes

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