Gaiola

 

Imagem: Pixabay

#AOutraReflexão

#SomandoVozes

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Após intermináveis horas no banco, a senha e a sala. Entrou. Sentou-se com relativa tranquilidade e olhou em pedidos de compreensão pelo silêncio os enormes olhos do doutor. Este, em sua vez, retribuiu até constatar que o silêncio era parte problema.  Além da fila imensa se formando e o som infernal da máquina da senha.

– Isso aí é solidão! Ajuda se relacionar melhor pelos dias. É só tentar.



Pegou os papeis e saiu. Não sem antes não agradecer.
Ainda em frente ao local do diagnóstico, o olhar atento ao redor. Queria qualquer distração. Que fosse uma velhinha pra atravessar a rua ou mesmo o novo ministro. Solidão! Logo ele, aquele que tanto partilhou de seu ser com os outros e, por isso, construiu significativa estante de fracassos. Distração. Um parque. Crianças correm afobadas atrás de uma bola. Chutam. Riem. E as mães e pais atentos aos seus celulares com breves interrupções para alertas.

– Não vai pra rua!

Voltavam e desligavam o aviso. Enquanto ele seguia atento. Talvez fosse bom ter uma criança pra correr pelo parque. Pra sarar machucados, pagar escola, fingir que sabia as tarefas. Ter uma criança para ser dele e tão dele que fosse só dele e de mais ninguém. Solidão! Nem o eu é tão meu assim. Seguiu!
Diagnósticos que não envolvem drogas frustram. Porque se é possível usar a pílula, basta usar e aguardar os efeitos. Basta seguir a orientação. Não. Só dependia dele e essa é a pior parte. Mania social de suficiência. Dopa logo, pô. Não. O caso é específico. Solidão! E como opção. Não que houvesse aversão ao outro. Pelo contrário. O outro era uma necessidade tão grande dele que era praticamente ele. E dele. Sim. A tal da posse. Desde o despertar dos cabelos no saco, a mania de envolver o outro numa caixa própria, com esporádicas alterações na cor do laço, foi jeito de ser. Possessivo, autoritário. Ter. Ter de modo que não vá pra outro lugar que não seja para ele. Não vá! Com o tempo, percebeu que não conseguia mais ter e, no máximo, tinha o estar. Era pouco para as imensas necessidades presentes naquele tum tum. Vida dura! Optou pela solidão. De fato, escolheram isso por ele. Era certo que não se atreveriam entrar naquela alma. De tão forte, sua mania tinha cheiro. E era sentido de longe. Em casa. Solidão! De novo ao agora. Se é necessário sanar, curar, que se ache um caminho pra isso. As crianças… não. Chega de humanos. Um cachorro? Pode querer brincar por aí com outros. Ou mesmo as crianças do parque. Gatos? Independentes demais. Pouco domesticados. Porcos fedem. Algo… algo que soe bonito. Algo que seja poético. Lembrou da
J. e suas memórias de viagens cuidadosamente organizadas num álbum. Isso, note, um tanto antes dos álbuns digitais. E pensou em pássaros, no cantar. Pensou na poética de um bichinho que voaria por aí e está preso. Preso? Solidão! Talvez algo novo. Algo que ninguém sabe no que vai dar. Nem ele. Barulhos na telha. Curiosidade. Lençol da cama em mãos, cigarro apagado. Precisão. Sons de quem está preso. Fim da solidão. Capturou um pombo. O desenrolou com calma, meteu numa gaiola com entrada absurdamente menor que o corpo do bicho e deitou-se para procurar nos sonhos indícios dos dias posteriores. E mais: a coberta
usada para a captura era conservação do calor de seu corpo. Boa noite.
No dia seguinte e nos posteriores sentiu imensa felicidade ao ver-se curado. Acordava, olhava aquele bicho imenso e tinha certeza de um companheiro. Pelas ruas, tinha convicção do acerto na escolha ao notar as tantas vezes que os voadores, outros pombos, fugiam dos humanos, isso quando não eram espantados por eles. Diziam\que era bicho sujo, nojento. O dele não. Talvez, sem pressa, desse algum nome para o que em sua casa morava. Quanto ao bicho, seguia lá. Se movia com dificuldade pelo espaço pequeno. Adentrava o desespero quando “seu dono” ousava uma aproximação menor que 2 metros, se debatendo e se ferindo. Por isso, recuava de seu descuido e lá mantinha a ave e sua missão.


Um dia, ao adentrar sua casa, sentou-se confortavelmente em seu sofá e dedilhou seus boletos com uma bela canção. Dentre todos os logos avisando pra onde ia o dinheiro, uma carta anônima chamou atenção:

vizinho,


Em sua ausência noto um barulho estranho em sua casa. Parece ser um pombo. Sei que não é da minha conta, mas esses bichos trazem doenças. Notou algo diferente? Deve ser um ninho.

Sem identificação. Sem possibilidade de resposta. Mas uma certeza: era algum invejoso solitário. E além. O bicho ficava tão quietinho. Levantou e foi vê-lo. Ao adentrar o espaço em que a gaiola ficava, um cheiro forte o atravessou. Fezes, resto de comida e inúmeras penas pelo espaço. Pensou em se desfazer do bicho para se lembrar do motivo de sua existência: solidão. Tirou sua toalha do varal e lá foi caçar o seu bicho, além de, dado o protocolo, limpar a gaiola. Abriu e notou seu debater-se. Notou também algumas feridas. Afastou-se mantendo a porta aberta e observou. Com sua presença, nada mudaria. Seu bicho tinha medo dele. Foi além: acomodou-se em outro cômodo e deixou que seu bicho saísse sozinho. Lembrou que ainda não tinha nome. Ao longo de 40 minutos concentrou-se exclusivamente no barulho do outro lugar pra assim ter certeza do êxito da fuga de seu companheiro. Retornou e lá estava ele. Preso na entrada. Sentiu leve desespero e foi ao resgate. Bicho agitado. Bicho se debate, se machuca. Direcionou a mão para o pescoço da ave e teve como resposta uma bicada sabor dor aguda. Nova tentativa e mais 3: pulso, mão e dedo anelar. Desistiu. Voltou para o cômodo e foi tomado pela incerteza sobre o que fazer. Viu as próprias feridas e algum sangue. Fez-se definitivo:

– Tiro o bicho de lá e compro gaiola maior!

Sem sucesso. Com enorme surpresa, notou a ave morta. A retirou com calma e zelo. Enrolou num pano e, ruas depois de seu bairro, fez o enterro. Foi bom enquanto durou. Voltou pra casa e foi atravessado, novamente, pela ideia da solidão. No entanto, notava as próprias mãos, a dor do luto e a despedida. Constatou:

– Que me abrace e morra comigo a solidão. O amor machuca demais! – passando álcool nas feridas.

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