Fomos induzidos a acreditar que escondendo Bolsonaro influenciaríamos as redes

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Por Guilherme Mikami.

A estratégia de comunicação da campanha de Bolsonaro é extremamente eficiente e profissionalizada. Há gente graúda, com expertise coordenando os trabalhos em um nível nunca antes visto no país, com volumosos recursos que nunca serão declarados à Justiça Eleitoral.

Um exemplo dessa eficiência: as declarações negativas de seu candidato a vice sobre 13º salário criaram um grave problema à campanha. Como solução, a coordenação criou fato novo: propor sobre o 13º para o Bolsa Família. Dessa forma, em vez de aparecerem somente notícias sobre esse tema que depunham contra a candidatura, agora aparecem notícias positivas que vão tomando lugar das negativas.

O mesmo vale para o não uso do nome do candidato nas postagens que fazem oposição a ele.

Se não falarmos explicitamente sobre Bolsonaro e, mais especificamente, se não citarmos o nome dele, o que vai ficar em destaque são sempre as coisas que eles querem que apareça. Isso é um princípio das técnicas de SEO (sigla em inglês para Otimização dos Mecanismos de Busca). Foi uma grande armadilha montada pelo lado de lá a questão de não citar o nome dele ou ficar dando apelido, porque se uma pessoa escrever “Bolsonaro” nos mecanismos de busca do Google ou do Facebook, obviamente irá encontrar matérias e postagens com o nome dele. Se apenas eles fizerem matérias positivas citando o nome dele, e nós fizermos matérias e não citarmos o nome dele, o que irá acontecer? As pessoas apenas encontrarão as matérias que eles postaram.

Como alguém que trabalha diretamente com a comunicação, reafirmo: É UM GRANDE ENGODO E UM ERRO ESTRATÉGICO ABSURDO NÃO CITAR O NOME DE BOLSONARO NAS NOSSAS POSTAGENS E MATÉRIAS.

Fomos induzidos a acreditar que escondendo o nome dele estaríamos influenciando o algorítimo e não daríamos destaque a ele. Mas a turma dele obviamente continuou e continuará fazendo matérias e postagens com o nome dele. Quem procura algo sobre ele dificilmente usará termos como “Coiso”. As pessoas irão procurar por notícias ou informações usando o nome dele e encontrarão majoritariamente notícias ou postagens favoráveis.

Todos nós, em grupos de WhatsApp, recebemos várias postagens com “orientações” para não citar o nome dele, falando sobre o tal algorítimo das redes sociais. Acabaram sendo criados apelidos para falar dele (Coiso, Inominável etc).

Mas identifiquei dois problemas sérios:

1) Ninguém sabe como funcionam os algorítimos das redes sociais (afinal, essa é a coisa mais preciosa para essas redes sociais ou mecanismos de busca).

2) Cada mensagem era enviada por um responsável diferente: algumas falavam que as “orientações” vinham da coordenação da campanha do PT, outras da equipe de marketing, outras da agência de publicidade responsável pela campanha.

3) Tirando os responsáveis pelas “orientações”, todo o corpo da mensagem era absolutamente o mesmo.

4) Ou seja, só o fato de que essas mensagens vinham de “responsáveis” diferentes, já denota que foram montadas e distribuídas deliberadamente por alguém.

Em uma campanha polarizada como essa, a rejeição aos candidatos será fator fundamental para definição dos votos pelos eleitores.

Falar positivamente e massivamente da candidatura de Haddad é fundamental, e encontrar os melhores caminhos para derrubar a blindagem que criaram sobre Bolsonaro (articuladamente tão eficientes que fazem com que as pessoas comuns relativizem todas as barbaridades ditas e estimuladas por ele) é tarefa urgente. Mas legar à campanha dele a hegemonia sobre o nome do candidato é permitir que apenas o campo dele se destaque e tire proveito das estratégias de comunicação.

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