Fantasias do ideal

Imagem: Antônio Augusto Bueno

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

Não, não e não! Você é um pessimista, Désceo! Já sabemos que aí vem qualquer crítica ácida contra alguma versão da ideologia de autoajuda. Assim você não ganhará curtidas, rapaz! Jogue para a torcida um pouco, deixe de lado a verdade ou a denúncia dos bastidores e das sombras. Você levou muito a sério o conselho do Pe. Vieira. Após o sermão, o fiel há de sair um pouco satisfeito consigo, sim! As pessoas estão em busca de satisfação e alegria, deixe a reflexão crítica, as revelações discursivas e sociológicas para um desses trabalhos acadêmicos que, afinal, nunca são lidos. Isso, siga de vez o exemplo do Vieira e vá escrever aos peixes!

Se o ideal produz fantasias, se as fantasias em algum momento se confrontam com a realidade e se isso produz dor e sofrimento, não há o que fazer! Tomemos o porre nosso de cada noite, o rivotril nosso de cada dia, trabalhemos, consumamos e, se necessário, oremos e vamos ao analista. C’est la vie, Désceo! Largue esse pesado machado e junte-se a nós, compartilhando qualquer post que fale sobre a força do desejo individual, o poder das massas ou a salvação divina.

A busca geral é por aliviar o mal-estar e a autocrítica gerados na neurose do dia a dia. Seja otimista, Désceo, dê-nos um alento, uma esperança, mesmo vã, de que as coisas vão melhorar, de que somos bons e estamos salvos! Não queremos uma verdade dessas que você procura, uma verdade de furar os olhos, mas se, por ventura, disser uma verdade de furar os olhos, não furaremos. O máximo que você arrancará de nós é um pigarro, que um gole d’água levará para o esquecimento.

Só deixaremos hoje que você nos diga algo muito suave, para que sintamos apenas o gelo da lâmina, nem seu peso, nem seu fio:

“O bom ideal é flexível e móvel. As boas desilusões são vividas dia a dia, pouco a pouco.”

 

Repórter Désceo Machado é uma criação de Tiago de Castilho Soares.

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