A Valsa dos Ratos. Por Guigo Ribeiro

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

“Quanto tempo resta para o fim da festa?” alguém pergunta enquanto tenta contar o tempo e a própria disposição para arrumar a bagunça. Alguém pergunta e nota a dança solitária dos ratos que ainda dançam no salão Brasil. Mas… tantas panças cheias e caras cheias, o que resta para ainda estarem alí? Porque pedem mais drinks e riem do cansaço do garçom. “É necessário sugar até a última gota desse momento. O amanhã não se sabe. O amanhã é um depois que pode nem chegar”. E dançam a música na alegria de quem acaba de chegar. Dançam a música que se repete. Em dado momento, o líder da farra interrompe o som para um discurso e defeca pela boca. As fezes fedem todo o lugar. Os presentes já viram essas fezes baterem e se espalharem no chão algumas vezes e tentam não se importar, enquanto os demais ratos aplaudes e se divertem. Os presentes tentam se distrair com outra coisa pelo cansaço e pela própria saúde mental, orientação esta quase como um alerta social. Toda vez que o dito líder abre a boca, todos sabem que virá algo podre, como o esgoto que vive. E a música retorna:

O gigante acordou

Num mar de amor

O gigante acordou

Pra frente, Brasil, por favor

Os ratos conversam. Os ratos se divertem e conversam. E brindam a morte do miliciano. Sorriem para a queima de arquivo. Sorriem para a felicidade em manter escondido a verdade sobre Marielle. Brindam de novo.

Num canto, pessoas observam e comentam sobre a loucura presente. Alguém, tão cansado como os demais, pergunta:

– Eu vi a hora que chegaram, mas… quando vão sair?

– Não se sabe. Parece que não há limites.

– Nossa! E vivem assim? De fezes e risos?

– Não. Não vivem assim. São assim.

– E quando faremos algo?

– É… e quando faremos algo? – pensando no cansaço.

Por mais que a questão batesse como martelo em prego posto em ferro, a certeza do cansaço como parte da estratégia dos ratos deu-se como sol na manhã. Enquanto formulava outra ideia, notou três novos ratos adentrando a festa. Filhos do líder, riam também. Cheiraram o rabo e prestaram o devido respeito ao chefe pai. O admiravam não sem calcular as partes que comeriam do seu corpo quando este morresse. Lutariam pela maior parte, no entanto, pensariam depois. O drink estava muito bom para pensar no futuro. O líder os acompanhou em mais um copo.

Isso aparenta ser um sonho ou pesadelo, mas é só a cara do Brasil atual. Quanto tempo resta para o fim da festa?

Imagem de capa: Reprodução da pintura “A dança dos ratos” de Ferdinand van Kessel -1690.

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

 

 

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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