A cozinha: autogestão x herogestão (ou patronagem )

Por Rodrigo Gagliano.

Em não poucas sociedades, na divisão sexual do trabalho, a cozinha era assunto e trabalho de mulher, ou, na verdade, de mulheres. Nas antigas famílias muito extensas, eram as mulheres que cuidavam de alimentar seus maridos-amos, seus rebentos e, quando desse e como desse, a si mesmas. Nossa sociedade tem em sua base cultural esse tipo de divisão sexual, quase ninguém se lembra da comidinha do papai ou do vovô, não é? Resíduo disso é que até hoje, em festas, quando não se compram comidas prontas, são, normalmente, as mulheres que se juntam para cozinhar, com exceção feita ao famigerado, desnecessário, sangrento e cruel (com os animais) churrasco. Coisa de machos.

Naquele tempo não tão distante, as mulheres, coletivamente, cuidavam disso, naquelas famílias extensas, as escravas nas casas grandes, as indígenas em sua vida comunitária. Não existia a figura bufona do chef ou da chef. A cozinha era autogestionária, as pessoas assumiam seus papéis, não eram necessárias ordens, todxs sabiam o que fazer. Faziam. Xs únicxs que recebiam instruções eram xs principiantes, era parte necessária do aprendizado.

Aliás, uma digressão: a cozinha autogestionária era também o espaço físico amplo, arejado, em que se passava o dia entre conversas e preparos, onde existiam a aproximação entre as pessoas e o gostinho de amor. O amor como oferenda. A cozinha que espelha nossa sociedade hoje é o cubículo frio em que praticamente não se cozinha, se esquentam comidas pré-fabricadas industrialmente.

Continuando. Aos poucos, os homens foram entrando na cozinha e, como é ridículo esse nosso mundinho, eles são considerados, ou se consideram, os melhores cozinheiros do mundo. Ufa, que piada! O que eles buscaram foi uma individuação autoritária. Quiseram constituir uma hierarquia dentro da cozinha, quiseram estar no topo dela (heterogestão) e levar os méritos, sozinhos, do que era produzido na cozinha. O poder sempre cria externalidade ao grupo, rompe os vínculos fraternos entre as pessoas, institui o jogo do mando e obediência. Esses chefs rompem com a autogestão e criam uma falsa imagem de si mesmos. Os chefs eram os serviçais da realeza, essa é sua origem, alimentavam os usurpadores do povo e, hoje, alimentam os gordos burgueses ou simplesmente os ricos. É preciso lembrar que até faz pouco tempo não existiam mulheres como chefs e, quando elas entram no jogo, o assumem, infelizmente, em sua completude.

A gastronomia hoje é moda e tem criado seus pseudo-heróis televisivos. Mas minha experiência é que essa gente não valoriza a comida em si, ela é só um meio estético de engrandecimento egocêntrico. A ideia de artista é muito valorada e é um engodo. O trabalho seja artístico, ou não, não torna a pessoa mais especial que as outras. A gastronomia expressa o valor liberal do seu conceito canhestro de indivíduo, a culinária não. A gastronomia é patronagem na cozinha, a culinária é autogestão e anonimato. A gastronomia não é nem ecológica, nem sustentável, a culinária é. A gastronomia é um negócio, a culinária é vida.

Hoje, nos grupos que desenvolvem cultura libertária, a cozinha é coletiva, feita por mulheres e homens, horizontalmente, e, de fato, é o lugar em que autogestão funciona com perfeição, o que nem sempre ocorre nas outras atividades. Parece que nossa memória ancestral, de sociedades não-patriarcais, ainda não foi enxotada de todo desse lindo lugar, a cozinha. Talvez, não por muito tempo…

É preciso resistir, é preciso transformar o mundo numa grande cozinha autogestionária: com o fogo do amor produzindo oferendas à vida e a inexistência de hierarquias.

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