Por Francisco Fernandes Ladeira.
Quando estudamos História, um dos questionamentos que mais nos vem à mente diz respeito a como a humanidade aceitou suas páginas mais sombrias, como os massacres coloniais, a escravidão, o nazismo e o apartheid. Por que a mal-chamada “opinião pública” compactuou com tantas atrocidades? Como o ser humano, pertencente à única espécie considerada “racional”, esteve com sua consciência tranquila diante de tais acontecimentos?
E, o que é pior, todas as páginas mais obscuras da humanidade foram protagonizadas por aqueles que se consideram arautos da civilização.
Por outro lado, muitos podem argumentar que esses exemplos de barbárie fazem parte do passado. Como dito, estão restritos às páginas dos livros de História. Há quem diga que as pessoas de outras épocas eram mais retrógradas. Preconceitos que justificavam a escravidão ou nazismo eram naturalizados.
Hoje somos “evoluídos”, suficientemente “civilizados”, não aceitamos as barbáries de outrora. E, caso ocorressem no presente contexto, seriam logo denunciadas nos grandes veículos de imprensa e repudiadas pelos principais líderes políticos globais.
No entanto, eis que, via internet, nos chegam imagens e vídeos da Faixa de Gaza, de um holocausto em curso, que em nada fica devendo ao seu similar arquitetado pelo regime nazista. Irônica e macabramente, esse holocausto é protagonizado por aqueles que se dizem herdeiros das vítimas de Hitler: os sionistas.
E o que fazem os “formadores de opinião” e os principais chefes de Estado? Continuam com os mesmos posicionamentos de seus congêneres do passado.
Se antes nos perguntávamos sobre o porquê da aceitação de acontecimentos sombrios; agora temos a resposta. Os donos do poder, os grandes capitalistas, jamais se preocuparam com seus semelhantes. Somente se interessam por lucros. A vida alheia não importa.
Se povos autóctones foram empecilhos para explorar suas riquezas, logo deviam ser exterminados. Se a mão de obra escravizada otimizou o processo produtivo, foi utilizada.
O apartheid sul-africano durou quase meio século. De alguma forma ou de outra, existiu por todo esse período por causa da negligência do chamado “Ocidente civilizado”.
Já o nazismo só foi realmente combatido porque bateu de frente com os interesses britânicos, franceses e estadunidenses. Se tivesse “se limitado” a perseguir determinadas minorias ou a invadir vizinhos inexpressivos do ponto de vista geopolítico, Hitler não teria sido importunado por seus rivais.
Mas, em um ponto, as pessoas de outras épocas têm uma “vantagem” em relação a nós. Os acontecimentos obscuros aqui citados não foram televisionados, muito menos compartilhados nas redes sociais (que, obviamente, não existiam).
Imagens são muito mais impactantes do que palavras escritas ou relatos. Portanto, diante do que acontece em Gaza (não só agora, mas pelo menos há oito décadas), se posicionar contra o sionismo não é mais questão de opinião, ideologia, ser de esquerda ou direita. É sobre ser “humano”, na melhor acepção do termo.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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