São Jorge, Eduardo Mendoza, João Cabral, Paulo Coelho, Shakespeare, Cervantes, Mirò, Jorge Ben Jor… e a Palestina!

Por Flávio Carvalho.

Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge.” (Ben Jor)

Você sabia que o nome do empreendimento editorial do escritor brasileiro mais traduzido no mundo, Paulo Coelho, é Editora Sant Jordi? E que está sediada em Barcelona, no Paseo de Gràcia, desde que foi fundada, décadas atrás, quando ele era somente parceiro de músicas de Raul Seixas?

Pois saiba também que, na Espanha de Cervantes, o dia 23 de abril transformou-se no Dia do Livro, por uma reivindicação antifascista de que hoje pouco se fala.

Assim como tampouco se fala que um dos mais importantes blocos carnavalescos do Brasil, Eu acho é pouco! (de Olinda, Pernambuco, minha cidade), surgiu com esse nome, gritado por jovens comunistas olindenses, no exato momento da morte de Franco.

Durante a ditadura franquista, um eixo vertebrador da resistência sociocultural foi a defesa do idioma catalão, perseguido pelo líder fascista. Repetindo a proibição de monarcas anteriores, naquele país.

Escritores, editores, artistas decidiram promover o Dia do Livro (principalmente na língua catalã). Uma data alusiva ao suposto nascimento de Cervantes e à coincidente morte de Shakespeare, em 1616.

Agora que o consulado brasileiro em Barcelona completa exatamente 200 anos de existência naquela cidade, poderia ser mais comentado o fato de o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto ter se destacado no Congresso de defesa da língua catalã (um evento perseguido pelo franquismo), enquanto era cônsul-geral naquela cidade. Havendo sido afastado do cargo pela ditadura militar, por suspeita de ser um militante comunista não assumido, e servindo-se da imunidade diplomática, aproximou-se e protegeu a vanguarda artística catalã, antifascista. O que seria dos máximos expoentes vanguardistas catalães, Mirò, Tàpies, Brossa, Cuixart, sem que o início das suas carreiras tivesse a proteção e a promoção de Cabral?

Transformando-se numa grande festa de rua, até hoje a mais enaltecida pelo catalanismo, Sant Jordi (como se diz em catalão) começou, neste ano, animada por nova polêmica.

A mais antiga polêmica, séculos atrás, tratou de incluir a rosa, além do livro, no seu dia.

Este ícone complementar foi utilizado pelo conservadorismo para supostamente incluir a presença feminina na festa. Lembremos que a lenda inventa que sempre havia uma princesa a ser salva pelo cavaleiro. Daí a rosa, presente “natural” para mulheres. Em contraponto ao presente “culto” para homens, o livro.

Claro que isso foi caindo com o tempo. Porém, isso não significa esquecer as origens.

Pois neste ano, o escritor catalão Eduardo Mendoza arrematou, no meio da festa de lançamento institucional do Dia do Livro: “São Jorge era um maltratador de animais, que ofusca (de forma religiosa, pela presença da lenda propagada pelo catolicismo) a essência literária daquela data”.

O importante é perceber como o Santo, padroeiro da Inglaterra, da Rússia, de Portugal, da Bulgária, da Grécia, da Catalunha, ou mesmo do Rio de Janeiro, reincorporou outra territorialidade contemporânea, histórica e propositalmente esquecida.

Com o genocídio sionazista ainda em curso, é claro que passou a incomodar também o “código postal” do expedicionário mulsumano al-Khadr (Sao Jorge, tal como é ainda muito venerado por diversos povos árabes). Trabalhando para o imperador Diocleciano, no Século IV, Jorge pode ter vivido, nascido ou sido assassinado (segundo várias hipóteses arqueológicas) adivinhem onde…

Na Palestina!

O artista brasileiro Jorge Ben Jor cantou toda a sua vida que Jorge era da Capadócia, na Turquia…

20 anos atrás, a comunidade de brasileiros emigrados para Barcelona, criou uma associação cultural chamada Coletivo Brasil Catalunya. Ganharam a medalha da Ordem do Rio Branco, do Itamaraty. Foram indicados para a Medalha do Mérito Cultural do Ministério da Cultura. Tornaram-se referência local para toda a comunidade, na promoção da literatura brasileira e na venda de livros de escritoras brasileiras. Ou no idioma português.

Depois da Sindemia (a Pandemia que mais mata pessoas pobres, tem esse nome), todo o trabalho foi mais direcionado para redes sociais e encontros e vendas promovidas pela Internet.

Quer mais uma polêmica, pra terminar?

ONGs catalanistas, de defesa da sua língua (ameaçada, conforme comprovação estatística), no exato momento em que o governo espanhol iniciou a regularização massiva de migrantes em situação irregular, endureceram a cobrança para que o idioma catalão seja obrigatório (sim, obrigatório!) em diversos outros trâmites legais.

Sabe qual o problema?

A imposição. Migrantes na Catalunha não dominam aquele idioma oficial porque não querem, e sim porque são submetidos, na maioria, à precariedade, ao cansaço e ao racismo.

Com oportunidades justas, ainda inexistentes, tudo seria bem diferente.

Não se conquistará quem já sofre tanta injustiça por meio de mais uma imposição.

Obrigar, do alto do privilégio, quem mais sofre (por exemplo, sem direito ao voto e com os piores indicadores sociais), jamais será uma proposta que conquiste novos corações.

É polêmico. Logo, aviso.

Entre outros objetivos, o que escrevo é para isso mesmo.

Quer dialogar sobre tudo isso? O que você acha?

Aquele abraço.

@1flaviocarvalho, sociólogo e escritor. Barcelona, 22 de abril de 2026. Dia de Cabral, o outro.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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