Resistência da mulher palestina: Um feminismo anticolonial? Por Gilliam Mellane Ur Rehman.

Por Gilliam Mellane Ur Rehman.

Começamos esse texto citando o dado alarmante apresentado por Soraya Misleh, sobre a privação de liberdade de mulheres palestinas, no exercício da defesa de sua terra e de sua identidade, resistência externada sob as mais variadas formas, além das torturas físicas a que são submetidas. São 48 palestinas privadas de sua liberdade nas prisões de Israel. Soraya nos traz esse dado por meio do relatório produzido pela organização palestina Addameer, um movimento em apoio aos prisioneiros palestinos. Nas constantes tentativas de apagamento de um povo, a limpeza étnica executada pelo Estado israelense não necessita de um grande ato de “rebeldia”, basta apenas nascer palestino e isso se configura em justificativa suficiente para impor castigos, demolições, prisões, bombardeio, assassinatos, terrorismos.

A luta dos palestinos para manter sua existência segue incansável há mais de setenta anos, tempo em que a perda de seu território deu espaço a blocos de terra nos quais circulam sionistas armados, praticando o terror diário em idosos, mulheres, crianças. Tendo suas casas demolidas, filhos, maridos, pai, irmãos presos ou assassinados, as mulheres palestinas são empurradas ao combate, seja ele, no enfrentamento da força militar ou desenvolvendo outros mecanismos de resistência.

É comum no cotidiano da mulher palestina, tocar a vida sem o marido, quem não raro, é morto pelos sionistas, ou se encontra em cárcere, em alguma prisão israelense. Essa realidade propicia que estas mulheres fiquem à mercê da violência dos colonos que ocupam de forma ilegal aquelas terras.

Um outro fato é que, além de toda sorte de violência e privações, as mulheres palestinas ainda tem que viver a dureza da violência obstétrica ou mesmo a falta de atendimento e acompanhamento necessário no período gestacional. Em Gaza, por exemplo, as mulheres palestinas grávidas, não tem direito ao pré-natal. As estatísticas provam que a morte de crianças no nascimento, é ocasionada pela negação de atendimento no momento de darem à luz, em postos de controle israelenses, o que não deixa de ser mais uma estratégia desenvolvida pelos sionistas, de dizimar essa população, já no ventre da mãe. Os fatores que colocam essas mulheres em grave contexto de crise humanitária, é acentuado pela falta de emprego e pelo mínimo de elementos que garantam a subsistência das mesmas.

Em 2019, os franco-atiradores sionistas alvejaram a palestina Amal al-Taramsi, e a lista segue crescente nos atentados criminosos executados por Israel.

De tantos quadros tristes e covardes, há o da paramédica Razan al Najjar, de 21 anos (mulher que escolhemos, para homenagear sua memória, batizando nosso movimento com o seu nome: Aliança Palestina Razan al Najjar -MA). Al Najjar foi assassinada, no exercício de sua profissão, quando cuidava de feridos nos protestos que ocorriam na fronteira de Gaza com Israel, no dia 1 de junho de 2018, por um soldado das forças de ocupação israelense. Os assassinatos ocorridos na Palestina, por forças da ocupação são incontáveis e contabiliza-se mais mortes de mulheres.

A política dos franco-atiradores é um braço de ação da cruel limpeza étnica imposta pelo ilegítimo Estado de Israel, que há mais de 70 anos, vem dizimando e tentado apagar do mundo, o povo palestino.

A mulher palestina, ao longo da ocupação está sob a mão de toda sorte de abuso e violência de seus corpos. Não temos apenas um espaço territorial ocupado ilegalmente, os corpos femininos tornaram-se extensão dessa ocupação violenta.

A conta de 800 mil palestinos, na condição de refugiados, os 500 vilarejos destruídos, traz em sua soma, a violação sexual de várias mulheres palestinas, como parte da extensa lista de crimes imputados nas 31 aldeias onde sionistas fizeram seus massacres.

As circunstâncias impostas pela colonização despertaram nas mulheres palestinas o sentimento de combate na luta anticolonial. Tal reação diante do imperialismo, imprime nessas mulheres uma ideia totalmente contrária daquilo que é despejado nos meios midiáticos, sobre as mulheres do Oriente. No imaginário coletivo ocidental, é alimentado a ideia de que essas mulheres são de natureza submissa, sem voz e aprisionadas em vestes que as violam em suas liberdades. O eurocentrismo não permite a reflexão de que, sinais identitários, são carregados com orgulho e que estas mulheres obedecem a um código cultural que as fazem livres, fora dos padrões do Ocidente. Entendamos que o patriarcado é um sistema que engole o mundo e está presente em todos os sistemas culturais. Em todos os lugares, há lutas e bandeiras, em que mulheres se organizam para retomar direitos e espaços.

Não existe feminismo, existem feminismos. Não podemos padronizar as lutas ao redor do mundo com uma “fôrma” ocidental.

Em muito se perde o movimento feminista, ao desconsiderar trajetórias, etnicidade, cultura e espiritualidade dessas mulheres. Construiu-se um discurso de salvação, em que o feminismo liberal, branco e europeu deve resgatar essas mulheres de sua sociedade e de seus sistemas culturais nativos. Esse discurso é instrumentalizado pela dominação colonial.

O movimento feminista, que deve obedecer a uma agenda anti-opressão, acaba servindo a projetos imperialistas. O feminismo ocidental jamais terá propriedade para falar das vestes das mulheres muçulmanas, colocando-as como símbolo de opressão (no caso do hijab e outras vestimentas), pois existe uma leitura totalmente diferente do que é opressão, liberdade e escolha para essas mulheres. O feminismo liberal não entende que também existe uma apropriação política em uma escolha que deve ser puramente feminina dentro do Islã e o que de fato deve ser combatido, é o uso político compulsório. A proibição do uso do hijab, em alguns países da Europa, provoca reações de contestação, o que demonstra que essas mulheres, não carregam o sentimento de opressão por suas vestes e pelos códigos de sua religião. Ao contrário, se sentem livres e brigam pela manutenção desses elementos.

A análise que se faz de episódios como estes é que exatamente a instrumentalização do movimento feminista, citada anteriormente, endossa os projetos imperialistas, estruturados em agendas sionistas, que busca colocar o Oriente como um espaço de barbárie e atraso e que precisa da intervenção de um plano civilizado e branco. Um plano civilizado e branco significa negar a capacidade de governo desses povos, significa criar estereótipos de homens violentos por essências e determinismo geográficos e culturais e que, portanto, devem ser dominados por meio de uma projeto colonizador.

Adotando essa política de linchamento cultural, temos aí vários fenômenos na América Latina, após o advento da tomada de poder pela extrema direita em alguns países, a exemplo do Brasil. O resultado “natural”, dessa anomalia política, são discursos inflamados, preconceituosos e carregados de xenofobia. Por vários momentos, o presidente Jair Bolsonaro, adotou posturas e falas que casam com essa ideologia de anulação e discriminatória dos povos do Oriente e declaração escrachada de apoio a Israel e suas práticas sionistas.

Com um discurso mais sofisticado, temos na Europa, uma França defensora do preceito laico de Estado, mas que, no entanto, trava ferrenha perseguição ao islã, utilizando-se do mesmo discurso discriminatório de barbarização da cultura e da falsa máxima de salvação das meninas muçulmanas aprisionadas em um véu. A política de Emmanoel Macron é uma contradição do próprio estado laico, haja vista que entendemos por laicidade, o princípio no qual todos os credos podem coexistir em um mesmo espaço, e onde não haja a interferência do Estado na religião e vice e versa.

A luta da mulher palestina reúne em seus esforços vários elementos que tornam essa resistência, em um novo feminismo. Temos aí mulheres que, diante do massacre de seu povo, e da opressão de gênero natural da absorção do patriarcado nas culturas, se insurgem em uma luta anticolonial e contra a opressão de gênero. O movimento se enriquece ao encontrar pontos de apoio com o feminismo islâmico, o feminismo seccional, o feminismo antirracial e até mesmo o feminismo marxista, se considerarmos a luta pela justa posse da terra e por se posicionar contra o imperialismo.

A história da Palestina, pós-ocupação, é repleta de ações comandadas por mulheres. Nos anos de 1936 e 1939, uma mulher liderou o armazenamento de armas aos revoltosos. Fatma Khaskiyyeh Abu Dayyeh não só foi a guardiã das armas como chefiou um grupo de 100 mulheres, no advento da Nakba, em 1948. Em uma função mais assistencialista, e vinculada à Organização para Libertação da Palestina (OLP), em 1965, foi criada a União Geral das Mulheres Palestinas. A necessidade de representação e do fortalecimento da defesa da Palestina, fez com que muitas mulheres adotassem uma postura mais combatente e incisiva, diante da postura silenciosa das comissões internacionais sobre Direitos Humanos, no tocante à ocupação da Palestina e à constante violação desses direitos.

Na Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP), o ícone mais expressivo da luta feminina foi a militante Leila Khaled, que desde sua adolescência se tornou um elemento extremamente ativo na luta contra a ocupação israelense. Ainda adolescente, Leila se juntou ao Movimento Nacionalista Árabe. Anos depois, passa a integrar o movimento de caráter marxista-leninista, Frente Popular pela Libertação da Palestina. Sua ação mais famosa, em 6 de setembro de 1970, foi o sequestro do vôo da companhia israelense El Al, com trajeto Amsterdã-Nova Iorque, e no qual foi detida.

A mulher sempre atuou ativamente em todos os atos de resistência para garantir a autonomia de seu povo, a manutenção de sua terra, o não apagamento da memória de seu povo. Nas Intifadas, que compreenderam os anos de 1987-1993 e 2000-2004, fizeram-se presentes, principalmente as mulheres oriundas do campesinato. Diante da colonização, são as mulheres as mais atingidas, pois a grande maioria se vê em situação de total desalento, sem emprego, com famílias para chefiar, filhos para proteger da violência sionista e, ainda assim, o medo não as tira do combate. Em meio ao cenário desolador da ocupação, elas conseguem se articular politicamente em associações que possam lutar pelo mínimo à sua sobrevivência.

Ainda muito jovens, ou mesmo na infância, essas mulheres já adquirem a consciência da luta pela manutenção dos elementos que garantem sua existência e de seu povo. É comum ver crianças desafiando soldados, carregando orgulhosamente a bandeira da Palestina como um ato de resistência às forças israelenses. Muitas têm sua condição de crianças vilipendiadas e chegam a ser presas e julgadas como adultos.

Considerado um modelo de democracia no Oriente Médio, Israel sequer consegue esboçar uma política coerente e mostra toda sua monstruosidade, criando leis que tornam crime, a revolta de uma criança ao ver sua casa demolida, seus pais presos e sua vida destruída. Atualmente tem-se uma média de 400 crianças nos presídios de Israel.

Sobre a prisão de crianças, temos a história da jovem Ahed Tamimi, presa sob a acusação de bater em um soldado sionista. A família Tamimi traz em sua trajetória a marca da resistência contra o imperialismo israelense. Vários membros de sua família são ativos nas lutas e a jovem é o símbolo da revolta contra as violações que a Palestina sofre. Ahed foi libertada em agosto de 2018, após oito meses de prisão e ao chegar em casa suas primeiras palavras foram: “A resistência continuará até que a ocupação termine”. Ahed sempre será símbolo de que a revolta e o espírito digno e combativo do povo palestino encontra-se no DNA dessa geração, e hoje, aos vinte anos, Tamimi torna-se referência na luta de mulheres contra a opressão colonial de gênero.

A luta das mulheres na Palestina deve ser abraçada pelo feminismo anticolonial e todos os demais, pois independente das bandeiras de luta de cada movimento, a coesão se dá pelos laços de solidariedade e pela luta contra todas as formas de opressão. É preciso resguardar o lugar de fala dessas mulheres de véu ou não, e considerar os mecanismos de resistência por elas desenvolvido, seja se insurgindo militarmente; seja por meio de associações que busquem atuar na saúde, educação, trabalho e política; seja nas artes; seja no ato de ceder o seu corpo para que o povo palestino jamais desapareça.

Na luta feminista, é preciso considerar e ressignificar qualquer ação ou mecanismo que grupos de mulheres desenvolvam para resistir às opressões do sistema. E na resistência palestina, gerar vidas é um ato de resistência. A maternidade da mulher palestina não pode ser analisada no contexto da construção familiar, reduzindo-a ao elemento da constituição da família, como aquela que gera a prole ao lado de um homem e torna-se a célula tradicional da sociedade. A maternidade palestina, nesse contexto, deve ser desatrelada de qualquer espectro do patriarcado. Ser mãe em território ocupado, significa manter viva a memória, a história e fortalecer as fileiras revolucionárias que darão continuidade a essa resistência. Não é à toa que política sionista boicota a gestação dessas mulheres, lhes negando acompanhamento obstétrico, fármaco, e até mesmo ajuda na hora do parto. Muitas crianças morrem ao nascer ou mesmo ainda no ventre de suas mães. Muitas nascem abaixo do peso ou desnutridas. Nascer palestino já é um ato de luta. A identidade da mulher palestina é construída em um fundo militarizado, revoltante, carregado de símbolos que preservam a memória de seu povo com a bandeira e a kefiyah.

No entanto, não se pode negar que o ventre palestino, acaba se tornando um veículo de militarização. O corpo da mulher palestina tem uma dupla ocupação. Se violado, ele é ocupado pelo colonizador. Se semeado, ele é ocupado pela necessidade de gerar a resistência.

Nos recortes feministas que temos, a luta feminina palestina encontra espaço no feminismo islâmico, sobretudo quando pensamos a maternidade como forma de resistir, quando se pensa na ressignificação ou livre interpretação da literatura alcorâmica, observando o patriarcado presente nesse código, como algo específico de um dado momento. O feminismo islâmico visibiliza a resistência do dia a dia, a luta diária pela retomada de um lugar que sempre foi garantido nas sagradas escrituras e que jamais foi invisibilidade ou submissão ao homem, mas de equidade. O que se busca com trabalhos que discutam essa luta é que os movimentos feministas possam se abrir para essa perspectiva e abraçar a trajetória dessas mulheres.

Gilliam Mellane Moreira Ur Rehman é formada em História pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), pós-graduada em Sociologia das Interpretações do Maranhão, estudante de Fotojornalismo na faculdade Cruzeiro do Sul, presidente do Instituto de Estudos e Solidariedade para Palestina Razan al Najjar -MA, membro da coordenação nacional dos Comitês Islâmicas de Solidariedade – CIS, ativista muçulmana, feminista, membro da juventude Árabe Palestina Sanaúd.

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