Quando a forma sufoca a voz. Por Maxwell dos Santos.

Por Maxwell dos Santos.

Em entrevista recente à Folha de São Paulo, Aurora Bernardini reacendeu um debate infindável: afinal, o que chamamos de literatura? Para a tradutora e professora aposentada da USP, nomes como Itamar Vieira Júnior, Annie Ernaux e Elena Ferrante podem até atrair leitores, mas não alcança o patamar de “literatura de verdade”. Privilegiam o conteúdo e deixam a forma em segundo plano. A posição de Aurora é peremptória: sem estilo, sem um trabalho de linguagem visível, não haveria criação literária digna desse nome.

Todavia, essa defesa estética tem uma perigosíssima armadilha. Reduzir literatura a puro exercício formal exclui narrativas que nascem da margem: da favela, da dor coletiva, da memória de quem historicamente nunca teve direito à palavra. Aurora, quando se incomoda com o “exagero” da crítica em reconhecer a escravidão como ferida aberta, revela além de uma mera preocupação estética: revela uma visão elitista, que silencia cicatrizes sociais ao escutá-las.

Essa lógica aparece, quase espelhada, em Adrian Mesquita, antagonista do romance À margem das letras, de minha autoria. Ele é o típico intelectual da torre de marfim, que insiste em separar “testemunho” de “literatura”. Para o escritor e ensaísta, textos periféricos, identitários, escritos por quem vive na pele a desigualdade, não passam de panfletos emocionais. Sua narrativa, como um paladino da estética, é, em última análise, um filtro de exclusão: se a voz vem de um corpo negro, de uma mulher pobre, de um sujeito sem pedigree acadêmico, ele precisa provar antes que tem “ossatura literária”. A semelhança entre essa postura e a fala de Aurora dificilmente é casual; ambos falam a partir de um mesmo lugar de poder, que decide quem entra ou não na sala consagrada da literatura.

Mas o romance mostra outra cena. Mariah escreve da favela, à luz fraca de vela, em cadernos gastos. E, ainda assim, suas palavras têm força de mobilização, de comoção, de criação de comunidade. O que dá potência ao seu texto não é repetir moldes europeus ou desfilar citações eruditas, mas transformar a experiência vivida em linguagem, dor convertida em narrativa, ferida que se escreve como forma. É justamente esse gesto que Aurora desconsidera e Adrian ironiza: a forma pode brotar da margem, não como ornamento estético, mas como cicatriz e resistência.

No fundo, a disputa ultrapassa a estética E entra no campo da política. Quem detém o direito de dizer o que é ou não literatura? Se depender de vozes como Bernardini e Mesquita, o cânone continuará cercado de muros altos. Mas quando Mariah sobe ao palco e transforma sua própria vida em matéria literária, ela rompe esses muros sem pedir licença. A literatura, afinal, não precisa de autorização para existir, ela simplesmente é. Talvez resida justamente aí, no incômodo que desloca certezas, a forma mais verdadeira da arte.

Maxwell dos Santos é escritor e professor de linguagens e ciências humanas. Mestrando em Tecnologias Emergentes em Educação pela Must University/EUA.

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