“Pedra Vermelha” percorre festivais nacionais e internacionais

Acompanhe o percurso do filme produzido no oeste de Santa Catarina

O documentário “Pedra Vermelha”, da Margot Filmes, segue seu percurso de exibições em importantes festivais na América Latina. Entre os meses de outubro e novembro, às vésperas do COP 30, o longa será exibido em quatro festivais de cinema ambientais. Após sua estreia nacional no 22º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá (MT) – o CINEMATO, em julho, o filme recebeu Menção Honrosa no VIII Curta Lages – Festival Internacional de Cinema de Lages/SC, e vem integrando importantes programações voltadas à temática ambiental, comunitária e política.

A produção já passou pelo 1º Cine Curta POA (RS), integrou exibições e debates do 29º Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM, 10º Festival Internacional de Cinema Socioambiental Planeta.doc (BR), está em exibição no 7º FICC Terra – Festival Itinerante de Cine Comunitario de La Tierra (México), ainda em outubro integra a programação do 1° Festival Latino-Americano de Cinema Ambiental (SC) e, em novembro, faz parte do Festival VR Ambiental: Cinema e Sustentabilidade (RJ), e do 4º FICA – Festival Internacional de Cinema Ambiental de Garopaba (SC).

O documentário, desenvolvido a partir do Prêmio Catarinense de Cinema, através da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), traz a urgência de histórias que precisam ser contadas frente à crise ambiental: a resistência de comunidades ribeirinhas contra a construção de uma grande Usina Hidrelétrica. Uma história de mais de 40 anos de luta que mantém vivo o último trecho do Rio Uruguai no Brasil. A partir de múltiplas vozes e memórias coletivas da comunidade ameaçada pelo projeto, destaca a força dos movimentos sociais e lideranças comunitárias que enfrentam a tentativa de avanço do empreendimento que coloca em risco suas terras, histórias e modos de vida.

A resistência à construção da Usina Hidrelétrica de Itapiranga, no oeste de Santa Catarina, é um símbolo de mobilização popular para toda a América Latina. O filme, que tem 97 minutos de duração, traz os principais momentos deste movimento, assim como a denúncia sobre os impactos ambientais e sociais deste modelo energético. Para os diretores Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, “a exibição em tantos festivais importantes na América Latina,  traz projeção para esta produção e amplia o debate sobre essa luta”.

Conheça a história

O projeto de aproveitamento hídrico do Rio Uruguai, o chamado Inventário Hidroenergético da Eletrobrás, é dos anos 60 e previa a construção de 25 grandes barragens. Seriam sete as cidades atingidas especificamente pelo projeto da Usina de Itapiranga, tanto em Santa Catarina quanto no Rio Grande do Sul. O movimento contra o barramento, além de reunir as comunidades ribeirinhas que seriam afetadas diretamente, também gerou mobilização regional de municípios vizinhos do oeste do Estado, em uma rara composição envolvendo prefeituras, vereadores, sindicatos, igrejas e organizações.

Roque Theobald, morador da comunidade de Linhas Ervas, no município de Mondaí, e integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), participa desta luta desde 1980, e lembra como se fosse hoje as articulações junto à comunidade “a nossa comunidade tinha muita clareza do que significa uma barragem, por conta disso era mais fácil mobilizar o povo pra ir pra luta. A barragem significa destruição e não desenvolvimento. Destrói o rio, a natureza, as histórias, a comunidade, a cultura”.

Foram inúmeros os encontros, as reuniões de estudos e as formações. O movimento envolveu famílias inteiras, homens, mulheres e crianças, que juntos, “ombro a ombro e olho no olho”, planejaram estratégias, estudaram o caso, organizaram ações e criaram movimentos de defesa da terra e do rio. As movimentações também foram protagonizadas pelas mulheres das comunidades. Muitas tomaram à frente da administração das propriedades enquanto seus companheiros organizavam as mobilizações. Outras, assumiram posições de liderança, estimulando a participação feminina na luta pela terra e pelo rio. “Eu entrei na luta contra a barragem muito incentivada pela igreja, sempre frequentamos e eu sempre fui uma liderança dentro da igreja. Então, comecei a militar no movimento das mulheres camponesas aqui na minha comunidade: Santa Fé Baixa”, conta Adélia Maria Schmitz, integrante do MMC.

De acordo com a comunidade e com os registros encontrados pela equipe do filme no Diário Oficial da União, o projeto de construção nunca foi arquivado e a luta é permanente.

Voz das comunidades

O filme conta com 37 personagens e amplo material de arquivo, além de elementos que na tela aparecem como um manifesto poético de resistência: o Rio Uruguai, em seu último trecho sem barramento antes da fronteira com a Argentina, com suas corredeiras, sons e paisagens, compõem a trilha viva desta narrativa e nos mostram como a relação afetiva com o território atravessa memórias, relações e tempo.

“Hoje, estamos morando na mesma propriedade que foi dos meus pais, a gratidão por todos  que lutaram para impedir este dilúvio que iria nos expulsar das nossas casas. Podendo contar essa história para os filhos e netos tudo o que foi feito em defesa da terra e do meio ambiente”, conta Vito Sausen, liderança comunitária e militante do MAB, morador de Linha Santa Fé Baixa, em Itapiranga,

Cassemiro Vitorino, um dos diretores do longa, conta que “a grande articulação feita durante todo esse tempo na defesa da terra e do Rio Uruguai contra a construção da barragem, assim como as ações de continuidade, chamou a atenção pela força e união do movimento que luta não apenas pela manutenção das propriedades, mas sim pela preservação de uma história de vida e do meio ambiente. É uma luta pela sobrevivência de toda uma região”.

Para a diretora Ilka Goldschmidt, há um grande enfrentamento a ser feito no tempo atual e contar essa história ajuda a “adiar o fim do mundo”. “Levamos a sério a proposta de Ailton Krenak e encontramos um paraquedas colorido. A vitória do movimento popular imbuído de conhecimento e de propósitos tão caros à humanidade: preservar o meio ambiente, viver em comunidade, reconhecer a presença dos povos originários preservando os vestígios que se somam ao movimento. Nesse sentido, o filme é uma lente que atravessa o tempo e documenta um lugar que se não fosse a luta, não mais existiria”.

Próximas exibições

O filme segue fortalecendo o circuito independente e o cinema de resistência, amplificando as vozes e lutas das comunidades ribeirinhas do Oeste Catarinense.

30/10 – FLACA – Florianópolis Latino-Americana de Cinema Ambiental, em Florianópolis/SC;
06 a 09/11 – Festival Ambiental de Volta Redonda – VR Ambiental, no RJ;

12/11 – Sessão de abertura do FICA Garopaba/SC;
27/11 – Cineclube do Trabalhador, em Chapecó/SC;
28/11 – Clube Imigrantes, em Itapiranga/SC;

01/12 – UFFS, em Chapecó/SC.

Crédito
 Texto: Camila Almeida
Fotos: Angela Reck
Artes: Marilia Goldschmidt


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